Revoluções musicais do Século XX: Cultura Club, o som das pistas
A dance music associou-se fortemente a estilos caracterizados por tecnologias de ponta, como o uso de samples, remixes, baterias eletrônicas, etc, e criou diversos gêneros dentro da cultura club dos anos 1980 e 1990. Marcados pelo uso anárquico das sequências musicais, podemos dizer que todos esses estilos – como a house music, o acid house, […]

A dance music associou-se fortemente a estilos caracterizados por tecnologias de ponta, como o uso de samples, remixes, baterias eletrônicas, etc, e criou diversos gêneros dentro da cultura club dos anos 1980 e 1990. Marcados pelo uso anárquico das sequências musicais, podemos dizer que todos esses estilos – como a house music, o acid house, o tecno e o acid jazz – seriam filhos diretos da música concreta de John Cage e Stockhausen.
Estruturalmente, a cultura club já nasceu adulta, cercada de empresários e patrocinadores, que bancavam festas colossais, realizadas em grandes galpões, primeiramente em Nova York, depois Chicago, Londres e, enfim, o ocidente. Agora vamos de onde tudo começou, a disco music.
Nos EUA, a disco music foi logo associada aos bares gays. Na década de 1970, o gênero já imperava nos clubes de dança e os DJs começavam a ganhar status, tornando-se produtores e, posteriormente, peças imprescindíveis para o desenvolvimento do que viria a seguir, a house music.
A disco music seria difundida por selos independentes, misturando música negra (rhythm’n’blues, soul e funk), música latina (como a salsa), hustle, boogie e harmonias das orquestras de jazz. Essa fusão traria um groove irresistível, que logo invadiria os clubs americanos. Em 1977, o Paradise Garage, um club histórico para a cena underground de Nova York, era um verdadeiro caldeirão étnico-musical, embalado pelo revolucionário DJ Larry Levan.
No fim dos anos 1970, diversos artistas pop faziam disco music, e muitas rádios já traziam o estilo em sua programação. Essa massificação, porém, duraria pouco tempo. No início dos anos 1980, o gênero experimentaria seu primeiro declínio comercial – o termo “disco” se desgastaria e os clubs começariam a fechar suas portas.
Ao mesmo tempo, a disco music acabaria se misturando ao reggae (dub), ao jazz, ao new wave, ramificando-se em vários subgêneros como o Electro, o Freestyle e finalmente a House Music, o primeiro gênero puramente “dance”, já com batidas mais mecânicas e graves mais profundos.
House Music
Larry Levan e muitos outros DJs começavam a trilhar caminhos. Nova York e Chicago eram as capitais da dance music. As produções musicais de Chicago tinham o BPM (batidas por minuto) mais acelerado e eram basicamente feitas com teclados e beatboxes, enquanto Nova York preserva mais as raízes da disco music, com o BPM mais lento, o uso de vocais e instrumentos acústicos.
Foi quando Frankie Knuckles, um DJ de Chicago, criaria, em 1986, as bases sonoras da House Music, com desenhos ritmos repetitivos, uma atmosfera mais feliz, com vocais, piano e linhas de baixo marcantes. Nasce, nesse período, o selo independente de house music “DJ International”, que resolve investir no mercado musical da Inglaterra (país que se tornaria epicentro da cultura club) junto com a London Records. Em 1986, o DJ Farley Jackmaster Funk chega ao número 10 da parada inglesa com “Love Can’t Turn Around”, e, em 1987, Steve Silk Hurley alcança o topo das paradas com “Jack Your Body”.
Os grandes clássicos vocais (da house music) também pululam, com “You Used To Hold Me”, “I Can’t Stay Away”, “Let The Music Use You” e “Summer Of Love”. Com eles, a house music deixa de ser uma cena de apenas duas cidades para virar uma febre ao redor do mundo.
Em 1987, já se anunciava uma nova variação dentro da house music, o acid house, que vinha sendo desenvolvida por Ron Hardy desde 1986. O acid house conectava a house music com os graves profundos do sintetizador Roland TB-303 – que alterava suas frequências, adquirindo uma sonoridade mais lânguida, denominada acid.
Na Inglaterra, a cena acid house tornou-se, rapidamente, o movimento jovem mais importante desde o punk rock. O gênero também foi considerado o grande berço das festas raves (originalmente dominadas acid parties), que tiveram como pátria mítica a ilha de Ibiza, durante o verão de 1987.
Techno
Nos EUA, onde habitava o underground da dance music, o DJ Juan Atkins, de Detroit, que tinha seu som baseado no Electro Funk e nos alemães do Kraftwerk (precursores da música pop eletrônica), começava a mudar sua sonoridade. Junto a ele, dois amigos de colégio, Derrick May e Kevin Saunderson, estreavam uma outra ramificação musical, mais densa, bastante influenciada pela Electro europeia e pelo funk psicodélico de George Clinton. Um estilo de ritmos repetitivos e hipnóticos chamado de Techno.
Outras ramificações
Dos clubs de New Jersey e Nova York, nascia o “garage sound”, uma vertente do house com instrumentais mais elaborados, vocais mais refinados, dialogando com as raízes do rhythm’n’blues e do gospel. Pelo lado europeu, surgido entre 1990 e 1991, o trance (trip+dance) seria o estilo mais popular de dance music da época. O trance é um derivado do techno, mais suave, melódico, sem abandonar a atmosfera alegre da house music.
Já em meados dos anos 1990, um estilo mais melodioso e “viajante”, o trip hop, combinava hip hop, guitarras e samples (tirados do dub jamaicano), criando uma atmosfera mais sombria, com vocais de soul, interpretações dramáticas, levadas de contrabaixo suaves e melodias etéreas. O trip hop, muito assimilado por artistas de Bristol, na Inglaterra (como Portishead, Massive Attack e Tricky), era essencialmente experimental, trazendo preceitos de jazz e de ambient music (instituída por Brian Eno em 1979).
Uma das últimas variantes da dance music no século 20, o jungle (primeiro nome para drum’n’bass), surgiu nos anos 1990 como uma fusão do reggae com batidas aceleradas de hip hop, construindo uma sonoridade caótica e radical. O jungle (futuro drum’n’bass) foi uma evolução do Techno, onde predominou a utilização de instrumentos de percussão sobre uma base com baixos fortes e cadenciados.
A história do jungle começou nas festas superlotadas dos guetos londrinos, associadas pelo consumo do crack e a presença dos bad boys – problema que acabou quando os DJ’s e promotores dos clubs mudaram o nome de jungle para drum’n’bass. O estilo, então, salta dos guetos para o mainstream. Os DJs de drum’n’bass sustentavam os beats pelo tempo que quisessem, usando distorções e trazendo técnicas surpreendentes de gravações e mixagens – como os famosos recursos de prensagem rápida chamados de dubplates.
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