Revoluções musicais do Século XX: Internet e os signos culturais
Desenvolvida nos tempos remotos da Guerra Fria, mais precisamente no final dos anos 1960, com o nome de ArphaNet, a internet nasceu como uma rede de comunicação alternativa criada pelo exército americano para troca de informações secretas – caso sofresse um ataque nuclear da arqui-inimiga URSS. Com o fim da ameaça, a ArphaNet tornou-se tão […]

Desenvolvida nos tempos remotos da Guerra Fria, mais precisamente no final dos anos 1960, com o nome de ArphaNet, a internet nasceu como uma rede de comunicação alternativa criada pelo exército americano para troca de informações secretas – caso sofresse um ataque nuclear da arqui-inimiga URSS. Com o fim da ameaça, a ArphaNet tornou-se tão inútil que seu uso acabou sendo autorizado a cientistas que, em meados dos anos 1970, cederam a rede às universidades, permitindo que pesquisadores e empresas a acessassem.
O e-mail (correio eletrônico) era praticamente o único serviço disponível. A partir de 1993, com o surgimento da World Wide Web, esse meio foi altamente enriquecido com a possibilidade de incorporar imagens, sons e websites. Com isso, a internet se tornaria o maior e mais completo sistema de comunicação desenvolvido pelo homem – que mais tarde revolucionaria os intercâmbios socioculturais em todo mundo.
Depois da invenção do fonógrafo por Thomas Edison (no fim do século 19) e quando a música passou a ser reproduzida, fabricada e distribuída (com o surgimento da indústria fonográfica e do rádio), o próximo salto revolucionário seria dado com a internet, um século depois, numa imensa teia mundial de comunicação que viria subverter as relações comerciais, romper as barreiras de espaço-tempo e trazer a interatividade no espaço da produção e da criação musical. Sua importância para a música seria, sem dúvida, inestimável e definitiva.
A produção e difusão pela Internet trouxeram mudanças imensuráveis para o comportamento da linguagem musical. Tornava-se possível ouvir concertos e shows em tempo real via Internet. Podia-se compor, arranjar e produzir músicas à distância, trocando arquivos e fragmentos entre os compositores. Seria possível fazer downloads grátis de músicas (inclusive lançamentos) para o HD (hard disc) dos computadores pessoais (PC).
Em 1996, o compositor Otto Henry criou a peça musical interativa Oedipus Max, que podia ser executada em um computador Macintosh conectado a qualquer instrumento MIDI. Oedipus Max trazia passagens rítmicas aleatórias em três movimentos. A execução completa da peça ficava por conta do próprio ouvinte, que controlava e organizava os fragmentos sonoros. Outro trabalho pioneiro foi realizado por Karlheinz Essl, criador de composições interativas que também podiam ser manipuladas em tempo real.
A disseminação da Internet, no entanto, não se limitou a ampliar a quantidade de informações ou a facilitar a comunicação entre locais distantes. A Internet reorganizou a cultura mundial – assim como a imprensa havia organizado o conhecimento humano no século 17. Reforçando sempre a valorização do imediatismo, a Internet acabou bombardeando o mundo com uma infinidade de símbolos culturais despejados pela rede – fragmentando e, de certa forma, embaralhando as referências estéticas da sociedade moderna.
Com a Internet, a música seria de todos, por todos e para todos. Podemos dizer que a nova rede “democratizou” a cultura, trouxe possibilidades de acesso ao consumo da arte, mas, em contrapartida, deixou o mundo imerso numa crise de identidade cultural, perdendo-se em modelos estilhaçados de informação. No final do século 20, com esse excesso de referências bombardeadas pelo mundo virtual, os caminhos inovadores da música pareciam mesmo se perder, e a música ocidental viveria um período de grande esgotamento artístico.
A história da democratização da música pela Internet poderia ser dividida em duas fases: antes e depois do Napster – o polêmico software que, em 1999, fez com que os arquivos de MP3 (formatos de áudio compactados) virassem febre e provocassem uma verdadeira guerra entre artistas e gravadoras. Mas este é o assunto de nossa próxima coluna, que também analisará os processos de pirataria digital e a polêmica em torno dos direitos autorais dentro da música.
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