Revoluções Musicais do Século XX: O movimento punk na Inglaterra
Em meados da década de 1970, a Inglaterra vivia sua grande crise econômica. O desemprego não parava de crescer e a violência se alastrava pelos guetos de Londres. Dentro deste alarmante cenário, jovens desamparados, socialmente abandonados, com acesso precário à educação e ao trabalho, rebelando-se contra a vida privilegiada da burguesia. Foi nesta atmosfera que […]

Em meados da década de 1970, a Inglaterra vivia sua grande crise econômica. O desemprego não parava de crescer e a violência se alastrava pelos guetos de Londres. Dentro deste alarmante cenário, jovens desamparados, socialmente abandonados, com acesso precário à educação e ao trabalho, rebelando-se contra a vida privilegiada da burguesia.
Foi nesta atmosfera que apareceram as primeiras bandas de punk rock inglesas, chocando a Inglaterra com suas atitudes agressivas e suas músicas barulhentas, que influenciariam, profundamente, as gerações futuras com suas letras, atitudes e estilo de vida.
Podemos dizer que o movimento punk tomou direções bastante distintas. Sua sonoridade convulsiva e suas letras ameaçadoras espelhavam uma sociedade deturpada, uma burguesia decadente e a terrível situação dos proletários nas periferias de Londres. O grande mote para os primeiros punks foi o ódio às instituições, aos valores disseminados pela sociedade burguesa e à indústria cultural consumista. A filosofia do “do it your self” (“faça você mesmo”), muito difundida pelo movimento, era um exemplo puro de anarquia, ou de uma visão social sem hierarquias.
O punk teve raízes tanto na Inglaterra como nos EUA. Pelo lado americano, a banda Stooges, do vocalista Iggy Pop, à margem do mainstream, trouxe uma música ousada, minimalista, revelando uma sonoridade à frente de sua época. Iggy Pop era a imagem da autodestruição, chegando a vomitar na plateia e a cortar seu corpo com pedaços de vidro. A banda MC5, de Detroit, trazia uma parede de guitarras sujas, unidas ao vocal monocórdico de Rob Tyner.
Ainda nos anos 60, a banda Velvet Underground, uma das sementes do movimento, seria chamada de “pré-punk”. Os vocais lânguidos de Lou Reed, as harmonias tensa e dispersivas, o toque de vanguarda erudita de John Cale, formavam o lado mais importante da música alternativa de Nova York. As letras do Velvet não traziam qualquer espécie de positivismo e euforia típicos da contracultura nos anos 60 – com sua verve pacífica. Lou Reed narrava seus dramas pessoais, como seu vício em heroína, suas esquizofrenias urbanas e depravações sexuais.
Esses temas, centrados no comportamento autodestrutivo, agrediam os padrões culturais, mas ainda não exerciam impacto no mercado musical da época. Entretanto, Reed, junto com Iggy Pop, seria ajudado por David Bowie e gravaria, no início da década de 70, o disco Transformer, colocando o single “Walk on The Wild Side” nos primeiros lugares das paradas americanas em 1973. O Velvet Underground, deste modo, acabaria criando os códigos genéticos para o movimento.
Ainda pelo lado americano, o New York Dolls também trouxe muita intensidade ao movimento, com seus visuais ousados (imitando travestis) e maquiagens glamourosas. Pioneiros mundiais do que se pode finalmente ser chamado de punk-rock, os Ramones, também de Nova York, redesenharam o rock com canções de pouquíssimos acordes, estrutura rítmica e harmônica bastante simples, trazendo muita energia e fornecendo a base musical para o som dos Sex Pistols na Inglaterra.
Finalmente, pelo lado britânico, David Bowie seria um dos ascendentes mais importantes do movimento. Com formação em artes plásticas e artes cênicas, Bowie foi perito em desenvolver histórias e personagens que se transformavam constantemente. Bowie criou uma espécie de choque entre ficção e realidade, que acabou sendo essencial para o gênero – abrindo uma nova análise para o movimento: sua ligação com as escolas de arte. Integrantes dos Sex Pistols, The Clash, Siouxie Sue e muitos outros, cursavam escolas de arte que, naquele momento, traziam discussões sobre quebra de valores, teorias de subversão e muita moda. Além disso, inúmeros empresários do punk, como Malcom McLaren (Sex Pistols), aplicariam nas bandas seus conhecimentos estilísticos, trazidos das escolas de arte.
SEX PISTOLS
O sucesso do pop-rock, com suas grandes produções e shows em estádios, também representavam, para os punks, um banimento absoluto dos valores autênticos da música. Ao mesmo tempo, diversos artistas do pop-rock – como Elton John, Led Zeppelin, Abba, etc – acabaram trazendo o surgimento dos pequenos selos alternativos, que distribuíam seus discos nos brechós londrinos. A loja Sex, administrada por Malcom McLaren e pela estilista Vivienne Westwood, possuía tudo que fosse ligado à música underground. Nas vitrines, cartazes insinuantes, manequins com camisetas rasgadas e calças de couro sadomasoquistas. Dentro da Sex havia também um palco.
Malcom, que havia empresariado o New York Dolls, encorajou um bando de skinheads a formar uma banda, o Swankers. Mas ainda faltava o vocalista. Certo dia, um garoto chamado John Lydon (que logo ganharia o apelido de Johnny Rotten) apareceria na loja com suas roupas rasgadas, seus dentes tortos e seu visual extravagante – para o deleite de Malcom. Estava formado, em 1975, o Sex Pistols, banda que explodiria o movimento punk pelo mundo.
Em comum, os punks tinham um único refrão: tocar para se divertir, e assim derrubar as barreiras entre banda e público. Normalmente havia, ao vivo, troca de cuspe, latas e copos arremessados entre banda e plateia. Os artistas punks tentavam provocar seu público, e essa troca direta com a plateia viria a representar, na verdade, um gesto de força (e união) entre os jovens.
Outra revolução, trazida pelos punks, foram os fanzines (revistas caseiras produzidas por fãs), que publicavam informações e artigos referentes ao movimento. A indústria underground crescia com o punk – embora muitas bandas assinassem, mais tarde, com grandes gravadoras. Os músicos foram aprendendo a tocar e, com o tempo, as estruturas harmônicas foram ganhando complexidade e controle, superando até mesmo o rock clássico.
A banda The Clash é um bom exemplo deste enriquecimento. Sem se abdicar da simplicidade e da agressividade, foram, musicalmente, os mais imaginativos, criativos e organizaram a evolução tanto no discurso político quanto na música – unindo punk, reggae e soul. Em nossa próxima coluna, conheceremos os subgêneros que surgiram na esteira do movimento, como o pós-punk, a new wave e o new romantic.
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