Revoluções Musicais do Século XX: Tropicalismo – universalização da cultura brasileira

Como observamos na coluna sobre a bossa-nova, a partir de 1965, os precursores da MMPB, como Edu Lobo, Geraldo Vandré e Chico Buarque, traziam, através dos grandes festivais de música popular, suas canções de protesto contra a opressão militar.

Escrito por: Meon Redação5 min de leitura
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Como observamos na coluna sobre a bossa-nova, a partir de 1965, os precursores da MMPB, como Edu Lobo, Geraldo Vandré e Chico Buarque, traziam, através dos grandes festivais de música popular, suas canções de protesto contra a opressão militar.

Todavia, no final dos anos 60, algo chegaria para novamente subverter o cenário musical brasileiro. Foi quando as músicas “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, estrearam no III Festival da Música Popular Brasileira, da TV Record.

Ficou fácil perceber que elas se diferenciavam das outras e se revelavam inovadoras, muito além dos moldes da MMPB. Essas novas canções não traziam qualquer atitude política ou lirismo escolado. Ao contrário, eram carregadas de ambiguidades, o que acabou embaraçando os padrões estéticos da época – gerando entusiasmo e desconfiança no público da MMPB, geralmente formado por universitários. Era a primeira vez no Brasil que uma música exigia explicações para ser entendida. 

Tudo começou no início de 1968, quando Gilberto Gil e Caetano Veloso passaram a se reunir com o poeta Torquato Neto, o compositor Tom Zé, a cantora Gal Costa, o maestro arranjador Rogério Duprat, as bandas Mutantes e Beat Boys. Largados pelos cantos do apartamento 212 do Hotel Danúbio, no Rio de Janeiro, esses novos e entusiasmados artistas mostravam suas canções, debatiam e arquitetavam suas atitudes, seus novos rumos criativos. Uma nova linguagem musical estava sendo alfabetizada, nas primeiras clínicas de um movimento que seria batizado de Tropicalismo. 

Eram artistas que se sentiam reprimidos pelo elitismo cultural. Para eles, a saída seria aproximar a música brasileira de uma juventude cada vez mais interessada no pop/rock dos Beatles, ou mesmo no iê-iê-iê que Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e outros ídolos brasileiros exibiam com a Jovem Guarda – movimento que se espelhava nos rock americano (e inglês). 

Como principal argumento, os tropicalistas diziam que a música brasileira precisava se “universalizar”. Mas para o público universitário da MMPB, a guitarra elétrica e o rock funcionavam como emblemas do imperialismo norte-americano. Deste modo, os tropicalistas passaram a ser hostilizados em seus shows, com muitas vaias e vários objetos (ovos, tomate, etc.) atirados contra eles no palco. 

O caráter tropicalista estava definido entre a experimentação musical e um exame social neutralizado, sem compromisso. O tropicalismo foi o avesso da atmosfera pomposa da bossa-nova e transformou o mau gosto em símbolo de contestação comportamental – através da paródia, do deboche, da extravagância. Esta foi a essência deste movimento que trazia uma colagem musical caótica e livre, conectando samba, bossa-nova, jazz, rock’n’roll, Beatles, Bob Dylan, vanguardas musicais e um caldeirão infindável de ritmos. 

O Tropicalismo impedia a formação de uma linguagem específica. Sua ideia central era demolir a tradição musical e revelar os incríveis contrastes da modernidade brasileira: o moderno-arcaico, o industrial-colonial, o regional-universal. O tropicalismo também se uniu à publicidade para inserir o Brasil na indústria cultural moderna. Seu modismo se relacionava com o movimento hippie, o cinema novo, a pop art, a televisão e o psicodelismo – trazendo padrões importados de ritmos, estilos de vida e ideais cosmopolitas. 

Cantores tropicalistas abusavam das entonações vocais, e trabalhavam o significado dos sons. Os vocais, de certa maneira, ganhavam aspectos “visuais”. Por isso a música e a poesia concreta (de Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, etc.) tornaram-se referências importantes ao movimento. Instrumentos pop eletrônicos, dissonâncias, ruídos e efeitos também eram bem-vindos. Misturar Lupicínio Rodrigues, Ary Barroso, com Beatles e Paul Anka fazia parte da experiência musical dos tropicalistas. O objetivo era derrubar os mitos da arte tradicional e burguesa. 

Assim, a música de vanguarda e o tropicalismo passaram a se unir pela ruptura dos conceitos clássicos de arte, no caminho da antimúsica, sugerido inicialmente por John Cage e pelas vanguardas eruditas do século XX – no entanto, a grande responsável pela vitalidade do movimento seria mesmo a música pop, gênero do imediatismo, do consumo, do clichê, da exploração comportamental e dos mitos urbanos. 

Os instrumentos de percussão também foram muito utilizados, trazendo uma atmosfera mais festiva e “tropical” ao movimento. Lançado em 1968, o disco “Panis Et Circenses” agrupava grandes nomes do tropicalismo como Rogério Duprat, Gal Costa, Torquato Neto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Capinam, Tom Zé, Nara Leão e Mutantes. O disco tornou-se um manifesto coletivo, constituído por uma espécie de polifonia épico-lírica, onde todas as músicas mantinham inter-relações estéticas e temáticas. 

Neste mesmo ano, o endurecimento do regime militar e as intervenções do Departamento de Censura Federal se tornavam intoleráveis. Canções tinham versos cortados, ou eram inteiramente proibidas. A oficialização do Ato Institucional nº 5 (o AI-5), em 13 de dezembro de 1968, decretaria de vez a repressão política aos ativistas sociais, intelectuais e artistas brasileiros. As detenções de Caetano e Gil, em 27 de dezembro, antecipariam o funeral da Tropicália. 

Embora tenha se revelado tão explosiva quanto instantânea, com pouco mais de um ano de existência oficial, a tropicália seguiu influenciando, por várias gerações, a música popular feita no Brasil. Diversos artistas de outras áreas também tiveram papel essencial para o tropicalismo, como Hélio Oiticica, Oswald de Andrade (com seu Manifesto Antropofágico), Glauber Rocha (com o cinema novo), Antonio Dias, Rogério Duarte, Lygia Clark e José Celso Martinez Correa.

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