Por Samuel Strazzer Em RMVale Atualizada em 23 MAR 2021 - 18H40

1 ano de Covid-19 na RMVale: relatos de pessoas que sobreviveram a doença

Pacientes falam sobre os sintomas, tratamento, sequelas e superação

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Sr. Joaquim Quirino e Therezinha da Assumpção Quirino, 89 e 84 anos, tiveram alta no mesmo dia.


Há pouco mais de um ano, a RMVale registrava o primeiro caso de coronavírus. A primeira paciente foi uma jovem, de 21 anos, enfermeira de um hospital da rede privada de São José dos Campos. Desde então, a região já registrou mais de 140 mil casos positivos sendo que mais de 3 mil pessoas perderam a vida para doença que provou, durante este um ano, não ser uma “gripezinha”.

Em uma das matérias desta série especial, o Portal Meon trouxe o relato de quem perdeu um ente querido para a Covid-19.

Nesta reportagem, você encontra relatos de pessoas que sobreviveram a doença.


Patrícia Damiani, de 47 anos, professora

Patricia foi diagnosticada com coronavírus em dezembro de 2020, pouco depois do natal. Ela conta que estava em isolamento social e o único local que ia era no mercado. Ela fala, inclusive, que a festa natalina também aconteceu sem aglomeração, com menos de dez pessoas. Ela foi ao hospital no dia 28 por uma queixa de sinusite. Dois dias depois, no dia 30, ela foi novamente e já estava com parte do pulmão comprometido. No dia seguinte ela já foi transferida pra UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

“Eu já estava com 50% de um pulmão e 20% do outro tomado. Me internaram dia 30, já colocaram máscara em mim, eu comecei já fazer uns exercícios respiratórios. [...] Fiquei mais ou menos, uns dezoito dias na UTI, eu fiquei entubada. Cheguei a ficar com 5% de chance de vida”, conta Patrícia.

A professora relata que os médicos já estavam desesperançosos, pois ela não reagia a medicação. Caso não melhorasse, precisaria passar por um procedimento cirúrgico, mas isso implicava mais dois problemas: chance de morrer na cirurgia e risco de pegar bactéria hospitalar. Porém, no 18° dia de UTI, ela começou a reagir.

“Eles não esperavam essa minha reação. Pra você ter ideia, do meu lado morreram quatro pessoas. Sou pré-diabética e tenho pressão alta e mesmo assim consegui, mas não foi fácil. Não lembro quando eu abri os olhos a primeira vez na UTI. Eu não lembro de nada da UTI, não sei nem como é a UTI [...] Eu fiquei no hospital do dia 30 de dezembro até o dia 11 de fevereiro. Toda a equipe médica aqui que me atendeu na UTI, desde pessoa que fazia a limpeza do hospital até o diretor do hospital, vieram no meu quarto me visitar pelo fato deu ter vencido”, diz Patrícia.

Mesmo tendo vencido a luta mortal contra a Covid-19, Patrícia continua lutando em vida, pois ficou com sequelas da doença. A professora fez fisioterapia para voltar a andar e ainda tem dificuldades. Ela também teve trombose no pulmão e por isso faz uma série de acompanhamentos com cirurgião vascular, cardiologista, hematologista, endocrinologista e até com nutricionista, pois não pode comer alimentos com vitamina K – presente em alfaces, por exemplo. Além disso, ela mantém as fisioterapias respiratórias, toma anticoagulantes e vitaminas A e F.


Sr. Joaquim Quirino e Therezinha da Assumpção Quirino, 89 e 84 anos

O casal de idosos, que foi diagnosticado com Covid-19 em meados de maio de 2020, também ficou internado – Therezinha chegou a ir para a UTI –, mas conseguiram se recuperar e sair do hospital com vida. Contudo, assim como no caso de Patrícia, eles também tiveram sequelas.

“Os dois tiveram sequela sim. E ainda, ainda tem, né? São sequelas que ficaram e provavelmente não vão sair. Meu pai ficou sem movimentos quase, sabe? E foi definhando. A gente teve que contratar a fisioterapeuta particular pra vir fazer várias sessões, ficou cinco meses fazendo fisioterapia em casa, hoje tá melhorzinho, mas a parte esquerda dele ficou prejudicada. Depois que saiu do hospital, ele também apresenta problemas de refluxo. Ele come e às vezes passa mal, ele não tinha nada disso. E a minha mãe, afetou o coração dela. No caso o problema é de pressão. Ela tinha pressão baixa, baixíssima. Depois que ela teve o Covid, a pressão dela é lá em cima. Ela toma medicamento controlado pro coração, o médico até sugeriu que ia ser preciso fazer uma cirurgia cardíaca nela, mas, devido a idade, ele achou melhor não”, explica o filho Paulo César Quirino de 48 anos.

Paulo conta que seus pais já estão imunizados contra a Covid-19 – somente a mãe aguarda a segunda dose. Contudo ele pede para que as pessoas continuem fazendo o isolamento social e se previnam. 

“As novas cepas que tão surgindo aí e não é brincadeira. Tem gente sobrevivendo, mas muita gente está morrendo dia a dia. Então tem que se cuidar, não ficar em aglomeração, né?! A gente aqui tá evitando tudo”, diz Paulo.

Outro ponto destacado por Paulo é que sua mãe chegou a ser medicada com hidroxicloroquina, medicamento que não tem eficácia comprovada no tratamento da Covid-19 e, segundo pesquisas, pode ter efeitos colaterais no coração. (Veja a explicação de um artigo da Faculdade de Medicina da UFMG sobre um estudo publicado na revista científica The Lancet)

“A minha mãe tomou a cloroquina. Eu não sei se isso tem a ver ou não, mas a parte cardíaca dela ficou afetada. A partir da saída dela do hospital, ficou tudo alterado. Todo mês ela passa pelo cardiologista e toma medicamento direto”, relata o filho.


Dr. Isael Domingues, 54 anos, médico e prefeito de Pindamonhangaba

O prefeito de Pinda foi diagnosticado com Covid-19 no dia 16 de julho e foi transferido para a UTI de um hospital privado da cidade de São Paulo sete dias depois, no dia 23. Ele afirma que não foi medicado com hidroxicloroquina e recebeu o tratamento que a ciência indica neste momento.

“Nós tivemos um comprometimento pulmonar, o Ricardo [vice-prefeito] e eu. Recebi todo o atendimento e não teve cloroquina, não teve nada disso, teve o tratamento que a ciência preconiza, que é antibiótico, corticoide em alta dose, anticoagulante e suplementação com oxigênio. Essa é a base do tratamento científico para quem está internado em casos graves, como foi o meu caso e tantos outros”, afirma o prefeito.

Isael comenta ainda que, além de seguir o que a ciência indica para o tratamento da doença, também é de suma importância que a população siga todos os protocolos de prevenção. Ele ressalta que é de responsabilidade do Governo orientar e cabe a população seguir as recomendações, principalmente no que diz respeito ao distanciamento social.

“[...] é responsabilidade do poder público, sim, do presidente da República e das autoridades sanitárias darem o exemplo com relação ao distanciamento social. E quando eu falo distanciamento social, eu não tô falando que é fechar, não é nada disso. Distanciamento social é o respeito de manter-se com o padrão de distância. Se eu sei que num determinado local, existe confinamento e a distância não vai depender de mim, porque o local é confinado, então eu não devo ir a esse lugar”, alerda o prefeito.

Dr. Isael conta ainda que, logo após receber alta, ainda tinha dificuldades para respirar, mas agora já está bem e não teve nenhuma sequela.

“Tive sequela no começo, que era dificuldades pra respirar, parecia que o pulmão tava meio pequeno, mas depois com fisioterapia respiratória, com força de vontade, com esforço, nós retomamos as nossas atividades diárias. Hoje estou 100%”, afirma.


Gisele Moreno, de 40 anos, técnica do trabalho

Gisele, moradora de São José dos Campos, teve Covid-19 duas vezes. Ela conta que ficou com sequelas da doença na respiração e teve também perda de memória.

“Acredito que contraí o coronavírus no aeroporto em viagem a Maceió em novembro de 2020 – sete dias depois comecei a me sentir mal, tive dor de cabeça, falta de ar fortíssima e dores no pulmão. Na primeira vez fiz o exame e deu positivo. A médica prescreveu antibiótico e, na segunda vez, foi em viagem à Porto Alegre. Senti falta de ar, fiquei sem paladar, sem olfato e tive muita fraqueza. As sequelas que sinto até hoje são dores no pulmão, esquecimento, e até um apagão na memória, fico assustada porque sempre fui muito pró-ativa”, conta Gisele.


Sequelas e exercícios que podem ajudar no tratamento pós-Covid-19

Segundo o médico Danilo Ribeiro, diretor do Hospital Royal Care de São José dos Campos, os pacientes que tiveram Covid-19, depois de recuperados, podem apresentar fraqueza muscular e respiratória, fadiga, alterações de sensibilidade, lentificação do raciocínio e estresse pós traumático. Segundo o médico, para tratar essas sequelas, além do acompanhamento profissional e uso de medicamentos, o paciente pode seguir uma rotina de fisioterapia em casa.

“O paciente que teve Covid pode fazer exercícios logo que chega em casa, sempre com orientação profissional. Nas primeiras 6/8 semanas, pode ser feito um treinamento aeróbico com intensidade leve e aumento gradual, de 3 a 5 sessões por semana, com duração de 20 a 30 minutos. Também pode ser inserido um treinamento de força muscular para os membros inferiores e superiores e de equilíbrio, além de exercícios respiratórios. Os familiares devem supervisionar essa reabilitação em casa”, explica Dr. Danilo Ribeiro.

Além das sequelas do vírus, alguns pacientes que ficaram entubados podem apresentar dificuldade ao engolir. O paciente pode até mesmo desenvolver disfagia, que acontece porque os músculos usados para mastigar e engolir tornam-se fracos ou incoordenados.

“Perder o prazer ou a segurança de alimentar-se implica em perda de qualidade de vida, além do aumento do risco de infecções, por isso julgamos importantes algumas orientações. Se você não foi orientado por um fonoaudiólogo durante sua internação, é importante que analise se surgiram alguns sintomas de disfagia após a alta hospitalar”, alerta Dr. Danilo Ribeiro.

O médico dá algumas dicas para a alimentação em caso de disfagia:

- Sente-se numa posição ereta e confortável, tanto para alimentar-se quanto para beber. A posição deitada pode facilitar a entrada de alimentos no pulmão;

- Mantenha-se sentado de forma ereta por pelo menos 30 minutos após comer ou beber;

- Não tenha pressa para alimentar-se. Faça pausas entre as mordidas/colheradas/goles, e tenha certeza de que não há mais alimento na boca antes de engolir novamente;

- Reduza possíveis distrações enquanto estiver comendo ou bebendo, desligue TV e rádio;

- Não fale enquanto estiver comendo ou bebendo;

- Introduza pequenas porções de alimento ou de líquido na boca.


Mais do que as sequelas físicas, muitos pacientes que passaram pela Covid-19 podem desenvolver problemas emocionais como TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), abuso excessivo de substâncias (álcool e drogas), depressão e transtornos de ansiedade. Esses problemas podem aparecer meses ou anos após a situação vivida.

Segundo Dr. Danilo Ribeiro, o TEPT é frequente em pacientes que ficam internados na UTI por período prolongado; os sintomas são: Memórias frequentes e involuntárias da situação traumática (“flashbacks”), Sofrimento emocional ao lembrar-se do ocorrido, Sensação de distanciamento ou estranhamento em relação a outras pessoas, Evitar pessoas e locais que façam a pessoa reviver o evento, Sensação de desânimo e desinteresse nas atividades que realizava.

Neste caso, é recomendado a procura imediata de orientação médica, no caso de psicólogos e psiquiatras.

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