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Dia da consciência negra representa luta e reflexão

A data é histórica e foi atribuída à morte de Zumbi dos Palmares, que representa luta nas conquistas dos negros no Brasil

Escrito por Caroline Corrêa

20 NOV 2020 - 15H50 (Atualizada em 20 NOV 2020 - 16H15)

Arquivo Pessoal/João Vitor WhatsApp Image 2020-11-20 at 16.15.03 (Arquivo Pessoal/João Vitor)

Ainda marginalizada dentro de uma sociedade contaminada pelo racismo estrutural, a população negra brasileira tem uma trajetória árdua desde a época da escravatura que segue até os dias atuais. 54%. Esse é o percentual de pessoas que se declararam negras ou pardas no país, os dados são do IBGE (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatísticas). Apesar de os negros serem a maioria da população brasileira, eles ainda são discriminados.

“Existe um racismo estrutural que divide nossa sociedade de tal maneira que nos olhamos o negro e o vemos com incapaz, com inteligência inferior ou alguém voltado pro esporte. Eles são relacionados às atividades que usam o corpo, por isso, há erotização do corpo feminino negro, principalmente no carnaval. Isso está enraizado desde a escravidão”, explica César Augusto Eugênio, doutor e professor de filosofia e ética da UNITAU (Universidade de Taubaté).

O “Dia da Consciência Negra” é uma data histórica atribuída à morte de Zumbi dos Palmares, que representa luta nas conquistas dos negros no Brasil. “Não se trata apenas de um negro fugido, trata-se de um negro que resistiu, lutou e buscou seu lugar. Ele é símbolo de resistência, luta, mobilização e organização”, comenta o professor.

A data é de muita reflexão e pouca comemoração, já que a sociedade ainda não é igualitária, não consegue garantir as mesmas oportunidades para todas as pessoas. Para João Vitor Souza, de 20 anos, o dia representa resistência. “É algo muito importante de ser lembrado! É uma pauta de conscientização, já que o Brasil nunca deixou de ser um país racista”, salienta. “O dia da consciência negra é um dia que a gente deixa em evidência que o racismo mata, não só através da arma, mas pela fome, negando emprego, moradia”, diz.

Resistência

Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
João Vitor durante as manifestações "Vidas Negras Importam"


O jovem, que hoje faz parte do movimento ativista “Frente Preta São José dos Campos”, conta que não se imaginava negro. “Eu sempre soube que existia algo que incomodava as pessoas, eu não sabia o que era. Eu não sabia o que era ser negro, eu não sabia que eu era negro”.

Crescido na periferia de São José, João Vitor recorda que na escola havia uma distinção entre os alunos. “Tinha um tratamento diferente dos alunos brancos, que eram considerados mais espertos, mais dedicados e dos alunos negros, que eram considerados mais problemáticos. Eu sempre me senti dessa forma, excluído ao ponto de me sentir problemático”.

Segregação

O professor César explica que há uma segregação entre brancos e negros que, muitas vezes, não permite inclusão, por isso, a população negra se sente menor. “Majoritariamente, pessoas veem os negros como pobre, não assistido pelo estado. Isso é reflexo da cultura eurocêntrica e americana, é uma posição totalmente branca”.

“A gente que nasce negro, quando vem de uma família que não tem muita consciência em relação movimentos sociais, a gente não se identifica como”, conta Souza que viveu inúmeros episódios de racismo. “A gente sabe que se entrar num supermercado, a gente vai ser seguido pelo segurança, uma pessoa branca jamais saberia qual é esse sentimento”, expressa.

Para o especialista, as políticas públicas deveriam assegurar mais inclusão, como por exemplo, nas universidades. Ele destacou a importância da cota racial. “O impacto do acesso à universidade na vida de um jovem negro é positivo”, ressalta. Atualmente, 50,3% dos estudantes de ensino superior da rede pública, de acordo com a pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça Brasil, são negros ou pardos.

Representatividade

O filme Pantera Negra, dirigido por Ryan Coogler, em 2018, se tornou símbolo de representatividade. “Todo o espaço que uma pessoa preta consiga ocupar é motivo de comemorar, porque é algo que já foi motivo de luta por muitas pessoas”, comemora Souza.

O longa-metragem, que possui grande parte do elenco composto por pessoas negras, fez reflexões sobre a importância da cultura africana. Um diálogo que não acontecia em na indústria cinematográfica. “O mundo artístico tentou manter o negro com ações secundárias, mas ele conseguiu seu espaço”, ressalta o professor de filosofia.

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Por Caroline Corrêa, em RMVale

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