São José 247 anos: deficiente visual aprende a escrever para assinar RG
A deficiente visual Maria Inês Reis dos Santos, 56 anos, de Jacareí, realizou nesta terça-feira (22) um dos seus maiores sonhos: ter o documento de identidade com a sua assinatura. Com ajuda de terapeutas, aprendeu letra por letra de seu nome para conquistar sua autonomia.










A deficiente visual Maria Inês Reis dos Santos, 56 anos, de Jacareí, realizou nesta terça-feira (22) um dos seus maiores sonhos: ter o documento de identidade com a sua assinatura. Com ajuda de terapeutas, aprendeu letra por letra de seu nome para conquistar sua autonomia.
Acompanhada pela equipe do Centro de Reabilitação do Provisão, em São José dos Campos, Maria foi até o Poupatempo para tirar um novo RG. Até hoje, a deficiente visual portava o documento apenas com a marca de sua digital, usada no lugar da assinatura.
“Ter que ir ao banco e não poder resolver nada sem ajuda, sem depender dos outros, me incomodava. Para cada documento, além da minha digital, outras duas pessoas tinham que assinar por mim como testemunhas. Agora que aprendi a assinar meu nome, minha vida vai mudar muito, é uma vitória” afirma.
Como Maria nunca foi alfabetizada, não sabia como eram as letras, com suas formas e detalhes. Para ajudar, a terapeuta ocupacional do Provisão, Gabriela Pinto de Mancilha, usou letras de borracha em tamanho grande para ensiná-la.
“Ela ia apalpando as letras, sentindo os contornos e mentalmente conseguiu visualizar como são. Primeiro começamos com letras grandes de forma, depois passamos para letra cursiva e, por fim, diminuímos até ela conseguir assinar”, explica a terapeuta.
Preconceito
Aos 11 anos, Maria que já enxergava apenas parcialmente, perdeu toda sua visão. Nunca foi alfabetizada, pois na cidade onde nasceu, em Natércia (MG), as escolas não eram adaptadas e não aceitavam pessoas com deficiência visual.
“Quando cheguei em Jacareí, em 1973, já queria aprender, mas nunca consegui apoio. Foi depois, quando o Provisão começou a atender, que as coisas mudaram para mim. Aprendi a ler e escrever em braille, fiz diversos cursos, trabalhei e me casei”, conta.
O marido de Maria, Hamilton da Silva, 44 anos, tem deficiência visual parcial. Lado a lado, o casal aprendeu a viver de forma independente e a lutar pelos seus direitos.
“Já nos disseram que cego não tem que assinar. Que não existe isso de ter tanta autonomia, que tínhamos que aceitar. Ainda bem que não ouvimos e buscamos ajuda em outro lugar. Que todas as pessoas com deficiência corram atrás de seus sonho porque é possível”, afirma Silva.
Dificuldade
Na hora de assinar a guia de seu próximo RG, Maria ficou nervosa, tremeu, errou, se emocionou e, mesmo com um ano de treino, teve dificuldades para assinar. Com o auxilio da terapeuta, a dona de casa se acalmou e conseguiu escrever seu nome no papel. Com isso, a partir de agora, vai poder assinar, como todas as pessoas, os documentos que precisar.
Para Maria e Hamilton, a conquista faz parte de algo maior. “Se as famílias entenderem como é importante para a criança que não enxerga ir para a escola e aprender a ser autônoma, mesmo que de forma diferente, talvez nosso mundo melhore um pouco. E talvez ninguém tenha que esperar, como eu, 50 anos para conquistar este direito, que é saber assinar o próprio nome”, conclui a dona de casa.
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