Sarampo volta a preocupar por falta de vacinação
Em 2019, foram confirmados 15.914 casos da doença no Brasil

Com a pandemia do novo coronavírus, muitas pessoas estão deixando de se vacinar. Com isso, o Brasil também enfrenta um novo surto de sarampo. Só neste ano, já são 18% mais casos que o mesmo período do ano passado. E, segundo estudos, este número tende a aumentar. A maneira mais eficaz de se prevenir contra o sarampo é a vacina, indicada para todas as pessoas a partir de um ano de idade. O surto, segundo especialistas, se deve por conta da queda generalizada da cobertura vacinal no Brasil.
Em 2016, após anos de cobertura vacinal extensiva, o Brasil obteve o certificado de erradicação do sarampo, concedido pela Organização Pan Americana de Saúde (OPAS/OMS). A doença, enfim, parecia ser coisa do passado, mas três anos depois, o país perdeu esse status após apresentar o novo surto.
Em 2019, foram confirmados 15.914 casos de sarampo no Brasil, que poderiam ter sido evitados se a população estivesse com as vacinas em dia. Para se ter uma ideia da gravidade do problema, só em 2018, segundo a própria OMS, morreram 180 mil pessoas no mundo devido à doença.
Para entender melhor como funciona a prevenção e os riscos da do sarampo, o Portal Meon conversou com a médica, Mestre e Doutora em Doenças Infecciosas e Parasitárias, Miriam Tendler. Ela esclareceu as principais dúvidas sobre o assunto.
Meon- A falta de vacinação tem um relação direta com a pandemia do coronavírus?
Miriam- Não foi exatamente relacionado à pandemia. A volta do sarampo já estava ocorrendo em várias cidades e estados do Brasil. O aumento de casos de sarampo, que é de transmissão oral, é porque o sarampo estava circulando antes da pandemia e voltou por causa da queda da cobertura vacinal. Isso é um problema muito grave que preocupa a OMS. No nosso caso, que é interessante ressaltar, que essa doença veio dos EUA para o Brasil.
Há um tempo atrás teve um surto na Disney, estou falando na Disney porque é objeto de notícia. Isso foi bastante divulgado e as pessoas que estavam viajando em julho do ano passado ficaram preocupadas. Então o sarampo voltou primeiro na Europa, depois nos EUA e agora no Brasil. Essa volta tem mais de um ano por conta da quebra na cobertura vacinal e em função disso a doença começa a circular.
A pandemia não tem tanta influência porque não é a falta de vacinação de agora, é uma queda da cobertura vacinal que vem nos últimos anos. Então, simultaneamente, à medida que diminui a cobertura vacinal vai subindo a incidência da doença.
Meon – Quais os riscos causados pelo sarampo?
Miriam- A infecção pelo vírus do sarampo tem uma morbidade importante. É uma doença exantemática, de transmissão oral. Alguns sintomas são erupção exantema, que é uma vermelhidão na pele, tem sinais específicos. É muito pruriginosa, que coça muito e febre.
O sarampo em si, normalmente, é doença branda. Mas ela causa complicações graves, como a pneumonia pós sarampo que é o mais comum, encefalite pós sarampo e pancreatite.
Ela é uma doença infantil, mas as complicações têm uma morbidade muito alta e são quadros bastante sérios. Além disso, os riscos de não se vacinar é comprometer a saúde das pessoas com quem a criança não vacinada convive. Por exemplo: sarampo em adultos a incidência de complicação pulmonar é frequente e é muito grave podendo levar à morte. As doenças, que são comuns da infância, como elas eram chamadas, no adulto é sempre mais grave.
A falta de vacinação é um ato de falta de responsabilidade dos adultos, no caso das crianças. Falta de responsabilidade das instituições que permitem a circulação de crianças sem o calendário vacinal completo, como é o caso de algumas escolas e creches. E comprometem de uma maneira geral a comunidade como um todo e contribui para o aumento dos números.
Meon- Qual a idade recomendada para a vacinação?
Miriam- O calendário vacinal do sarampo são sempre duas doses. A primeira é aos 12 meses através do tríplice viral. Hoje em dia não tem uma vacina de sarampo isolada no Brasil. Ela é aplicada junto com rubéola e caxumba. A segunda dose aos 15 meses, o reforço através da tetra viral, que é a associação das três mais a varicela.
Nas crianças, na época da adolescência, tem um recall ou uma vacinação de atualização. Se não se tem registro de vacinação contra o sarampo entre 10 e 19 anos é indicado que sejam feitas pelo menos duas doses, com um a dois meses de intervalo. A imunização contra o sarampo ela não é alcançada com uma dose só. É preciso pelo menos duas doses.
Se na idade adulta, até 29 anos, também não há registro de vacinação, tem que tomar pelo menos duas doses, e no caso de 30 a 59 anos também sem registro tem que pelo menos uma dose. Isso geralmente é suficiente porque se pressupõe que o adulto nessa faixa etária já teve contato ao longo da vida com o sarampo.
Meon- A vacina provoca algum efeito colateral?
Miriam- Normalmente os efeitos colaterais são raros e brandos. Ou reação local que qualquer vacina pode causar ou alguma reação sistêmica, que não é frequente, é mais comum uma febrícula que dura no máximo 24 horas. E não é obrigatório que aconteça.
Meon- Existem outras doenças que requerem vacinação, que também estão deixadas de lado?
Miriam- A dificuldade que as pessoas têm muitas vezes de irem a um centro de vacinação ou de prestar atenção ao calendário pode estar causando mais prejuízos nessa cobertura vacinal. Mas não começou agora.
A cobertura vacinal contra as outras doenças, no caso a coqueluche, também da mesma maneira que o sarampo foi importado do hemisfério norte onde também teve diminuição da cobertura vacinal, a doença ressurgiu.
No Brasil, começaram acontecer casos de coqueluche em crianças e é muito importante que as pessoas tenham noção da importância de manter a vacinação do bebê em dia. O neném, nos primeiros 18 meses de vida, é praticamente imunizado contra as principais doenças. É a vacinação de base. Então é fundamental não perder o calendário, principalmente nesta fase.
O que tem acontecido é que com o surgimento da coqueluche em adultos, que são mais suscetíveis, começou a trazer uma ameaça concreta para os bebês, principalmente no primeiro ano de vida que ainda não têm as primeiras vacinas completas. Então a vacinação contra a coqueluche, ela é feita junto com a difteria, o tétano e tríplice bacteriana começando aos dois, quatro e seis meses de vida e um reforço aos quinze meses. O bebê no primeiro ano de vida, ainda não tem completo o esquema de vacinação pra pertussis e o aumento da incidência de casos em adultos começou a ameaçar bebês, crianças ainda sem a vacinação completa com quadros graves.
Então foi introduzido no calendário dos adultos uma vacina de reforço contra a pertussis. As vacinas disponíveis há um tempo atrás não podiam dar em adultos, ela era mais reatogênica. E agora existe uma que pode e deve ser dada em adultos e ela está inclusa em um calendário para os familiares de uma gestante.
Hoje, a grande maioria dos ginecologistas e obstetras vem recomendando e vigiando as gestantes para que as famílias sejam vacinadas. Isso dentro do conceito muito claro de vacinação de bloqueio para evitar o máximo de contato com a criança enquanto ela ainda não está vacinada. Isso porque a doença voltou a circular. Antes a incidência de casos em adultos era muito rara.
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