Todo mundo rico

Tec tec tec… nem o repetitivo som foi capaz de abafar seus pensamentos mais angustiantes. Que sanha infeliz passar cinco dias da semana trabalhando à frente daquele retângulo de 19 polegadas, respirando o ar gelado que ressecava suas mucosas. Que bom seria se não precisasse trabalhar.

Escrito por: Meon Redação2 min de leitura
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Tec tec tec… nem o repetitivo som foi capaz de abafar seus pensamentos mais angustiantes. Que sanha infeliz passar cinco dias da semana trabalhando à frente daquele retângulo de 19 polegadas, respirando o ar gelado que ressecava suas mucosas. Que bom seria se não precisasse trabalhar.

Emília estava convicta que poderia corrigir esse problema e criar um mundo perfeito. Nomeou-se Primeira Ministra Suprema da Economia do Reino de Faz de Conta. Soprou no ar um bom bocado de Pirlimpimpim e pimba: todo mundo rico.
Cinco milhões para cada pessoa. Do jardineiro infiel ao gerente do supermercado, todo mundo milionário.

Emília estava orgulhosa de seu feito. Um problema milenar agora implacavelmente dizimado pelos farrapos coloridos de sua inquieta cachola.

– Basta da escassez monetária que nos faz trabalhar nas segundas geladas e nas sextas ensolarada nas masmorras corporativas do mundo!

Resolveu sair à cidade para comer alguma coisa e fazer suas primeiras compras.

Nenhum estabelecimento aberto. Postos, farmácias, joalherias ou supermercados. Alçados à condição de milionários, nenhum funcionário se dispôs a ir trabalhar. Pra quê, quando se tem cinco milhões no bolso?

Começou a desconfiar que sua reforma econômica não tinha sido tão bem sucedida assim. Voltou a pé para o sítio, porque não havia táxis, ônibus ou onde abastecer o carro.

Emília se viu condenada a realizar tarefas que jamais tinha pensado em fazer, porque ninguém se dispunha a trabalhar. Eram necessárias somas cada vez mais altas para contratar os serviços mais simples. A inflação subiu a níveis estratosféricos. Os novos milionários viram suas fortunas reduzidas a pó e as pessoas obrigadas a trabalhar como camponeses do século quarto, realizando atividades que há muito tinham esquecido que existiam.

As pessoas, resignadas, retomaram seus empregos de antes, e a vida voltou ao normal, organizadamente desigual em sua assimetria perfeita.

Restou-lhe renunciar ao cargo de Ministra Suprema da Economia do Reino de Faz de Conta.
Dedos lépidos no teclado e olhos grudados no monitor de cristal liquido, Emília se sentiu feliz de poder trabalhar apenas cinco dias por semana no conforto gelado do seu ar condicionado split. Tec tec tec…

– Alô, dona Sílvia, liga por favor pro delivery e pede uma pizza de calabreza com catupiry aqui pra minha sala?
(Em homenagem a Monteiro Lobato)

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