As manifestações nos EUA têm aberto os olhos das pessoas aqui no Brasil a cerca desse mal que é o Racismo, diz pedagoga
A comunidade preta luta para combater o racismo, porém os únicos que podem estabelecer o fim do racismo são as pessoas brancas, diz pesquisador

“[…] as manifestações que tem acontecido nos EUA têm aberto os olhos das pessoas aqui no Brasil a cerca desse mal que é o Racismo, que nos mata, nos adoece, que é uma perversidade. Então eu convido vocês, pessoas não negras, a serem aliadas nessa luta antirracista”, afirma a pedagoga Helen Cypriano, 31 anos, mãe do Pedro de 7 anos.
A morte de Georde Floyd, segurança negro de 59 anos, assassinado por Derek Chauvin, um policial branco, nos EUA no dia 25 de maio, foi o estopim para protestos no pais norte-americano e no mundo. A bandeira é única em todos os continentes do globo: Black Lives Metter (Vidas Negras Importam).
Infelizmente a história da segregação racial nos EUA e Brasil têm muitos pontos convergentes.
Georde Floyd, Eric Garner, Rodney King, Trayvon Martin. Vidas de cidadãos americanos negros interrompidas sem motivo algum por policiais.
João Pedro, Evaldo dos Santos Rosa, Luciano Macedo, Rodrigo Alexandre da Silva Serrano. Vidas de cidadãos brasileiros negros interrompidas sem motivo algum por policiais.
No Brasil, em 2017, 75,5% das vítimas de homicídios eram pessoas negras segundo dados do Atlas da Violência de 2019 feito pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). A taxa de homicídios por 100 mil negros naquele ano foi de 43,1. Já a taxa de homicídio de pessoas não negras (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16.
Essas informações acima divulgadas são apenas constatações feitas por mim, um cidadão branco, que não sente na pele o que é o preconceito. Como repórter, meu papel é apenas mostrar os fatos e dar voz a quem realmente é vítima desse mal enraizado em nossa cultura: o racismo.
Júlio César Terra Limiro, 27 anos, designer gráfico e pesquisador, explica algumas questões essenciais sobre o racismo no Brasil. Abaixo, você também encontrará outros depoimentos em vídeo de cidadãos da RMVale.
1 – Por que é importante debater sobre isso?
O racismo é parte de um mecanismo estrutural criado pelo o homem branco há séculos a fim de manter sua hegemonia e postura de dominação perante o povo preto. Seu desenvolvimento foi tão bem elaborado a ponto de perpetuar até hoje no Brasil, o último país a abolir a escravidão. Esta estrutura perpetua de forma natural nas castas brancas e se mantém de maneira hereditária, carregada direta e indiretamente em todos os setores de convívio social onde pretos e brancos dividem o mesmo espaço como o ambiente de trabalho, as escolas, os bancos e os shoppings por exemplo.
O debate racial é uma das chaves no processo de desconstrução do homem branco para que nossa sociedade comece a compreender e enxergar esta falha em nossa estrutura social para que assim possamos construir uma nova base pautando a igualdade de direitos e deveres de todo cidadão garantindo assim o direito a vida e a liberdade sem que corpos pretos se sintam alvo ou julgados ao sair de casa.
É preciso que o indivíduo reconhecidamente branco comece a rever suas atitudes de dentro para fora para que a partir daí inicie seu processo de desconstrução pessoal sobre todo o racismo engendrado dentro de si.
2 – Quanto mais discussão, mais preconceito? Muitas pessoas brancas, por não serem alvo, pensa que racismo existe porque fica propagando discussões.
Acredito que o individuo branco ao pensar assim, cria bloqueios que o impedem de compreender sua postura racista no dia a dia. Portanto é necessário que esta discussão continue presente até que de fato corpos pretos passem a ser respeitados de forma humana.
Portanto é URGENTE combater o racismo a partir do pensamento branco para que nossa estrutura social possa se valer sem que nenhuma doutrina racista domine e continue sendo propagada de geração a geração.
3 – Depois de 300 anos, por que ainda há preconceito? Qual está sendo a falha no sistema?
Como mencionado nos dois últimos tópicos, o racismo é uma estrutura hegemônica que perpetua a gerações e se faz presente até os dias de hoje. Ninguém nasce racista, mas torna-se a partir do momento que começa a crescer e receber uma educação fundamentada no preconceito contra pessoas pretas.
O sistema falha ao criar e reforçar estereótipos sobre a presença do corpo preto nos ambientes sociais, falha ao nos tornar alvo fácil quando um comandante da Polícia Militar ordena que pessoas pretas são suspeitas e devem ser especificamente abordadas, esta falha piora quando uma pessoa preta é perseguida em supermercados e shoppings, a falha aumenta quando analisamos a quantidade de currículos pretos engavetados na mesa das empresas, progride ao notarmos o ambiente escolar ou de trabalho a baixa quantidade de corpos pretos ocupando e exercendo cargos de formação e nível superior, estas são provas cabais que demonstram que o sistema atual em que vivemos não favorece corpos pretos e não oferece um espaço de igualdade no Brasil.
4 – Quais são os tipos de racismos? Muito se fala em racismo velado, estrutural, institucional, etc.
O Racismo é ramificado em diversos subgrupos adjacentes e que se somam ao modelo sistêmico que temos hoje em dia. Acredito que quem deveria saber distinguir e entender os diversos tipos de racismo são as pessoas brancas, reforço portanto que toda esta estrutura de nomenclaturas foi muito bem desenvolvida pelas pessoas que usam destes artifícios como forma de perseguição a determinados grupos sociais ou étnicos.
O racismo velado é aquele provindo de maneira oculta vivo em piadas ou brincadeiras de mau gosto, é um modelo que reforça estereótipos do corpo preto muitas vezes de modo equivocado e exagerado a fim de reduzir a moral do indivíduo. Talvez a pessoa até perceba, mas é difícil comprovar a materialidade e consequentemente denunciá-lo.
O racismo estrutural é por consequência o maior provedor de toda uma ruptura de equidade no sistema. É um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais dentro de uma sociedade que frequentemente coloca um grupo social ou étnico em uma posição de status para ter sucesso e ao mesmo tempo prejudicar outros grupos de maneira constante causando disparidades que discorrem ao longo dos anos por um longo período.
O racismo institucional é praticado dentro das instituições como ambiente de trabalho e escolas por exemplo. É responsável por demonstrar estatisticamente a disparidade dentro destes ambientes onde grupos sociais ou étnicos são encontrados em minoria.
Para além destas três modalidades existem outros tipos de manifestações racistas como o racismo cultural que está diretamente ligado há crenças, músicas, religiões, idiomas e afins anexadas no consciente cultural do ser humano, o racismo comunitarista, racismo ecológico e o racismo individual que faz apontamentos diretos há um individuo pela cor de sua pele, natureza cultural ou familiar.
5 – Como esse racismo pode acabar e quando isso vai acontecer?
Perguntar à uma pessoa preta quando o racismo pode ou irá acabar é sobrepor o peso da culpa branca sob as costas de quem teve seus antepassados açoitados durante séculos de revoltas e trabalhos forçados e colhe até hoje os frutos da desigualdade. A comunidade preta luta para combater a atitude, o pensamento e a disseminação do racismo, porém o único indivíduo que pode estabelecer o fim do racismo são as pessoas brancas.
Enquanto pessoas brancas não se entenderem racistas perante a estrutura que temos hoje, enquanto não praticarem o dever de cidadania e repreender outro branco pelas suas atitudes o racismo continuará se perpetuando e ganhando mais força e tamanho a cada dia que passa. Portando é NECESSÁRIO que se pese e coloquem a mão na consciência e comecem a lidar com este problema de maneira VERDADEIRA, só assim conseguiremos uma reparação histórica mais eficaz consciente no combate ao racismo.
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