Para Célio Chaves só educação não é solução para os problemas do Brasil

Nascido em Taubaté em uma família de origem mineira, o secretário de educação de São José dos Campos, Célio da Silva Chaves, 60 anos, é filho de produtores rurais. Da infância simples em Taubaté, fortemente ligada às coisas da terra, rumou para a capital onde se formou professor de história pela Universidade de São Paulo, depois de desistir de cursar física.

Escrito por: Elaine Rodrigues6 min de leitura
fundo_placeholder-023136
l1d7560

Secretário de Educação, Célio da Silva Chaves fala sobre sua vida e carreira

Warley Leite/Meon

Nascido em Taubaté, o secretário de Educação de São José dos Campos, Célio da Silva Chaves, 55 anos, é filho de produtores rurais de origem mineira. Da infância no campo seguiu para a capital, onde se formou professor de história pela Universidade de São Paulo, depois de desistir de cursar física. Chaves é um professor que não vê a educação como única solução para os problemas sociais do país.

Pai de cinco filhos, curte agora sua caçula, Alice, de seis anos, filha do segundo casamento. O professor gosta de ler, assistir filmes e apreciar uma cerveja na companhia dos amigos. Outro gosto é torcer pelo Santos Futebol Clube. “Sou viúva do Pelé. Comecei a ser santista em 1968, quando o time ganhou todos os campeonatos. Em seguida não ganhou mais, mas continuo firme”, brinca.

Chaves participou ativamente da elaboração dos projetos de campanha do PT para educação, como a distribuição de tablets e a municipalização das escolas estaduais. Trabalha há mais de 15 anos ao lado do prefeito Carlinhos Almeida, sendo 13 como assessor parlamentar e dois como secretário. “Na década de 80 fui professor universitário na Univap e da FMU, alfabetizei jovens e adultos e ainda atuei dois anos como jornalista, de 90 a 92, na Folha de São Paulo”.

Em entrevista exclusiva ao Meon, Célio Chaves fala de sua visão sobre educação e a polêmica dos kits escolares.

Seus filhos estudaram em escola pública? Que diferença você vê entre o ensino público e particular?
Meus filhos começaram todos na escola pública. Já no ensino médio todos foram para a rede particular e os quatros mais velhos cursaram por fim a universidade pública. Se fala muito que a escola pública era muito boa antigamente, só que ela não era para todos, servia poucos. Do final da década de 60 para cá tivemos uma massificação no ensino, com uma grande parte da população, que assim como a minha história, saiu do campo para a cidade e conseguiu acessar a escola. Vamos levar duas ou três gerações para retomarmos o alto padrão da educação do início do século. Ou seja, a solução é investir na formação de professores e reinventar a escola. Agora também é preciso entender que quem faz a escola em grande parte é a família e que o contexto da família de certa maneira determina o sucesso ou o fracasso da criança.

Qual a importância da educação na política dos municípios?
Hoje 25% do orçamento na cidade é destinado à Educação. Se quisesse, São José poderia aumentar para 30%, por exemplo, mas é muito difícil, por causa das outras demandas como Saúde e Transportes. Contudo temos avançado nas políticas educacionais. O problema mais sério é o ensino fundamental que tem a responsabilidade compartilhada entre o Estado e as cidades. Falta clareza das atribuições sobre quem faz o que. Em São José existe uma grande diferença na infraestrutura das duas redes. Nós investimos milhões enquanto o Estado infelizmente não faz o mesmo. Por fim, a gente não consegue com 68 mil estudantes na área pública assumir a rede e desobrigar o Estado. O resultado é uma fila de espera de dez mil alunos querendo migrar da escola estadual para a rede municipal. No fim, a saída para melhorar essa defasagem é o Estado assumir sua responsabilidade e investir mais, ou municipalizar todas as escolas, repassando os recursos.

Qual o maior desafio na sua gestão na educação até o momento? 
Um grande desafio para a educação é garantir o acesso obrigatório de todas as crianças na pré-escola até 2016. Mas apesar de faltarem ainda seis mil vagas em São José, estamos no caminho certo. Outro problema é um investimento na definição de um currículo único. A administração anterior deixou uma proposta de matriz, mas não traduziu em um currículo para o professor saber o que a rede espera que ele ofereça ao aluno. Por fim, o maior desafio é gerenciar essa expectativa da população de que a educação resolve tudo. Ela não vai salvar a sociedade dos problemas, apesar de ser uma ferramenta importante para você mudar o patamar de vida das pessoas, não fará isso sozinha.

O que considera como maior conquista nesta administração?
São várias. Primeiro o grande investimento na educação infantil, onde abrimos três mil novas vagas. Em São José tínhamos uma rigidez, creche era toda de tempo integral. Agora mudamos o foco e entendemos que educação é um direito da criança antes de ser um direito da mãe. Vamos atender a mãe que trabalha, mas primeiro temos que garantir que todas as crianças tenham acesso à escola.  Outra conquista é o resultado de 92% de aprovação na provinha Brasil, que mostra que estamos conseguindo em um ano o que tínhamos três anos para fazer, que é o compromisso de alfabetizar nossos alunos com até oito anos de idade, conforme pede o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. O que conquistamos foi devido aos investimentos que fizemos na rede e nos professores.

Sobre a repercussão dos erros na compra dos kits de material escolar na imprensa regional, o que é verdade e o que é mentira?
Bom, no começo falaram do impacto econômico. Houve um descontentamento no comércio local e acabou saindo na imprensa que as papelaria tiveram prejuízo. Só que as papelarias da cidade poderiam ter se unido e entrado no processo licitatório e não entraram. Outro problema foi no dimensionamento do material. Como é o primeiro ano nós tivemos uma série de dificuldades e realmente houve atraso.  Agora a comparação que a mídia fez entre o que é vendido no varejo e as unidades que compramos não funciona. Se  fosse comprar item por item ficaria mais barato, mas ai teria que montar e ficaria mais caro montar mais de 66 mil kits. E tem outra coisa, a lei permite ser feito assim, no formato de kit, é lógico porque é a melhor forma de fazer isso. Por fim o problema com os palitos, também mostrado pela imprensa, foi um erro formal do processo licitatório que não compromete a compra. A prefeitura percebeu o erro e corrigiu e o impacto disso foi algo entre R$ 30 mil e R$ 40 mil. Agora veja, a quantidade comprada é imensa, como vamos comparar a qualidade de item por item? Nós vimos o erro quando foi apontado e já corrigimos.

Publicado em: