Desocupação para obras do contorno preocupa moradores em S. Sebastião

A forma com que vem sendo feitas as tratativas do Dersa (Desenvolvimento S.A.), responsável pelas obras do Contorno Sul da Nova Tamoios, no que se refere à desocupação de áreas e imóveis, tem provocado insegurança e até transtornos para algumas das famílias afetadas pelo empreendimento. Duas delas, uma do Morro do Abrigo e a outra da Topolândia, relatam suas experiências com o processo, que inclui destruição de benfeitorias e invasão de terrenos, desocupação sem garantias e até mudanças de planos de um dia para o outro.

Escrito por: Cris Lopes6 min de leitura
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2014 - Dersa desiste de demolir casa na Topolândia um dia após visita de oficial de Justiça (Jorge Mesquita/Imprensa Livre)

Dersa desiste de demolir casa na Topolândia um dia após visita de oficial de Justiça

Jorge Mesquita/Imprensa Livre

A forma com que vem sendo feitas as tratativas do Dersa (Desenvolvimento S.A.), responsável pelas obras do Contorno Sul da Nova Tamoios, no que se refere à desocupação de áreas e imóveis, tem provocado insegurança e até transtornos para algumas das famílias afetadas pelo empreendimento. Duas delas, uma do Morro do Abrigo e a outra da Topolândia, relatam suas experiências com o processo, que inclui destruição de benfeitorias e invasão de terrenos, desocupação sem garantias e até mudanças de planos de um dia para o outro.

O primeiro caso é relatado por uma assistente social, moradora do Morro do Abrigo, que preferiu não se identificar. Ela e o marido moravam na casa da mãe dela, localizada na Travessa Sertãozinho, e teriam comprado um terreno para construir sua moradia na Travessa Simeão Caldeira –ambos locais solicitados pelo Dersa para a realização das obras. “Neste terreno, levantamos um galpão para guardar os materiais para a construção; no terreno, tínhamos cultivo de alimentos e uma cerca que limitava o terreno. Não demos continuidade à obra porque soubemos que teríamos que desocupar o local”, revela.

Em setembro, a moradora alega que profissionais do Dersa avisaram a família que a residência seria removida no dia 26 daquele mês. “No dia 20, entrei em contato para confirmar e me disseram que não ia ser mais neste dia. Na segunda-feira do dia 22, eu estava acompanhando o meu pai numa consulta médica em Taubaté, quando recebi uma ligação do meu marido. Desesperado, ele havia dito que haviam derrubado a cerca, o galpão, e destruído nosso cultivo. Nosso prejuízo não foi maior porque já havíamos vendido o material de construção e só havia um colchão e lençóis no local. Não havia marcas de pneu, mas muitas pegadas, pois havia chovido dias antes e deu para perceber bem. Até hoje não sei o que ocorreu ali. Quando ligo para a Dersa, dizem que ainda não tem posição”.

Na casa da mãe, que deve ser demolida até o próximo dia 10, já não há mais condições de moradia. “Os entulhos tem atraído ratos e já não tem mais água, luz e telefone”, conta. O futuro da família é incerto. “Estamos saindo de nossa casa grande, com quatro quartos para morar em dois cômodos de aluguel no Porto Grande. Minha irmã e o marido dela, que também moravam na mesma casa, já estão morando de aluguel em outro lugar. Eu e a minha mãe vamos para o Porto Grande e o meu marido vai morar no barco que ele cuida”. A assistente social quer uma solução para a situação. “Queremos que a Dersa resolva a nossa situação, se vamos ser contemplados com unidades habitacionais ou se haverá reembolso por nossa casa e terreno. O que não podemos é ficar na mão, como está acontecendo”.

Mudança de planos
O caso da funcionária pública Andreia de Araújo, 39 anos, ainda é mais curioso. O caso envolve a residência dos avós, hoje ocupada pelo pai dela, localizada na rua São Benedito, 203, na Topolândia, região central da cidade –bairro cujo projeto sofreu alterações significativas.

Ela relata que a avó, na época viva, foi procurada já no ano passado e informada que teria de deixar o local. “Fomos orientados a levantar toda documentação necessária; depois que a minha avó faleceu, em abril, tivemos de fazer os inventários, o que nos gerou uma despesa de aproximadamente R$ 20 mil”, revela. No último dia 23, o pai de Andreia recebeu a visita de um oficial de justiça, junto com funcionários da Dersa, informando que o imóvel precisava ser desocupado para as obras de passagem da estrada. “Meu pai me ligou eu fui para lá ver se conseguíamos adiar a desocupação pelo menos até o final de semana, mas o máximo que deram foi até quinta-feira daquela semana. Doamos parte dos móveis, retiramos as plantas que a minha avó tanto amava do quintal, e ficamos de levar o meu pai para a minha casa até que o dinheiro da indenização fosse liberado. Um dia antes do combinado com o oficial de justiça já estava tudo pronto para desocuparmos a casa”.

No entanto, a surpresa de Andreia viria logo após ligar para a empresa a fim de combinar o serviço de carreto. “Liguei às 11h daquela quarta-feira e uma hora depois, recebo este mesmo funcionário do Dersa com a informação de que eles não precisariam mais da casa, pois o traçado da obra havia sido modificado. Ou seja, não iam mais derrubar a casa. Ficamos pasmos”, relembra a funcionária pública.

“Tivemos prejuízos não apenas financeiros, mas também emocionais com essa mudança repentina de planos da Dersa. Minha avó faleceu aos 96 anos sabendo que teria de sair da casa onde morara por 50 anos; tem coisas que não voltam mais”, diz. Andreia revela que os tios chegaram a pensar em ação na justiça contra o Governo por conta do ocorrido, mas optaram por um acordo. “Eles mesmos se dispuseram a nos reembolsar pelo prejuízo financeiro com a questão da documentação; ficaram de acertar com a gente no dia 30, no entanto isso não ocorreu. Na última sexta-feira, eles ligaram para dar uma satisfação e disseram que estavam resolvendo questões burocráticas para então fazer o reembolso. Achei uma falta de respeito tudo isso”, concluiu.

Soluções
Em contato com a Dersa, a empresa informou por meio de sua assessoria que o caso relatado pela assistente social do Morro do Abrigo deve ser solucionado nesta semana, sem dar mais detalhes sobre o ocorrido no terreno do casal. Sobre o caso da família de Érika, a Dersa informou que a questão vem sendo gerida pela empresa Queiroz Galvão, executora das obras do Contorno Sul, “e que a resolução do problema é aguardada para esta mesma semana”. A empresa também não justificou o por que da mudança de planos repentina.

“A Dersa reitera seu compromisso de atendimento a todas as famílias atingidas pelas obras da Nova Tamoios Contornos. A Companhia reforça que mantém canais para comunicação com a população, pelos quais poderá tirar dúvidas e comunicar situações como essa. O contato pode ser feito pelo e-mail [email protected] e pelo telefone 0800 7733 711”, encerrou a empresa em nota.

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