Eliane Nikoluk: “ele disse: ‘ou a carreira ou eu’, escolhi a PM”
Na próxima semana, às 10 horas do dia 6 de junho, a coronel Eliane Nikoluk Schachetti assume o comando da Polícia Militar na Região Metropolitana do Vale do Paraíba. Aos 44 anos de idade, Eliane é apaixonada pelo serviço militar e se diz preparada para enfrentar os desafios da região.


















No próximo dia 6 de junho, às 10h, a coronel Eliane Nikoluk Schachetti assume o comando da Polícia Militar na Região Metropolitana do Vale do Paraíba. Aos 44 anos de idade, Eliane é apaixonada pelo serviço militar e se diz preparada para enfrentar os desafios na região.
Sem medo de críticas, a comandante fala das dificuldades das diversas jornadas que enfrenta sendo militar, mãe, esposa e filha. Vaidosa, a primeira mulher à frente da Polícia Militar na RMVale encontra tempo para fazer as próprias unhas e manter o visual. “Eu também gosto de cremes, de me cuidar. Acho importante para toda mulher”, comenta.
Aos 17 anos fez parte da primeira turma feminina da Academia da Polícia Militar do Barro Branco, em São Paulo. “A gente parecia um grupo de extraterrestres que caiu naquele local”, brinca. A paixão pelo serviço sempre foi tão grande que no início da carreira chegou a terminar um noivado por causa da polícia. “Ele disse: ‘ou a carreira ou eu’, escolhi a PM”.
Eliane nasceu no início da década de 70, na capital paulista, e mudou-se ainda criança com a família para Campos do Jordão. A mãe é professora e o pai, já falecido, chegou ao mesmo posto que a oficial ocupa atualmente, como coronel da PM. Da infância ao lado das duas irmãs, guarda lembranças de um Vale do Paraíba tranquilo, onde montava em cavalos e brincava nas ruas.
Em entrevista ao Meon, a coronel conta detalhes de sua história como mulher e policial e ainda como pretende gerenciar a PM na RMVale.
Como você vê a relação entre sua vida pessoal e a carreira?
Me casei com 23 anos. Hoje tenho uma menina de 19 e outra de 11 anos. Na época, meu marido era de outra turma da academia de polícia e quando me formei ficamos juntos. O grande desafio desde então foi gerenciar esse papel de esposa, mãe, filha e comandante. Teve um momento crítico na virada do ano 2000, quando minha primeira filha era bem pequena e eu estava na Defesa Civil do Estado. Era o ano do bug do milênio, mas o que deu problema foram as chuvas. Lembro que fiquei quase um mês trabalhando e depois deste período estava desesperada para ver minha filha, que ficava com uma babá. Quando cheguei em casa, abri a porta e a vi. Chamei e disse para vir com a mamãe, mas ela correu para a empregada, a chamou de mãe e não quis vir no meu colo. Aquilo mexeu muito comigo. Pensei que estava perdendo minha família. A sorte é que eu tinha um comandante que viu que eu estava vivendo a tal da crise da mãe trabalhadora, que se dedica demais ao trabalho e se acha uma péssima mãe. Foi só com a orientação deste coronel que não pedi para sair da polícia.
Como foi o começo de sua história com a Polícia Militar?
Quando pequena quis ser astronauta, mas aí quando descobri que o primeiro a ir para a Lua foi um macaco, perdeu a graça (risos). Depois pensei em fazer oceanografia, mas desisti e acabei fazendo dois anos de engenharia em São Bernardo. Na mesma época contudo, tinha 17 anos e já estava em São Paulo, abriu concurso para a academia militar, e então não tive dúvidas, me inscrevi na academia do Barro Branco, passei e entrei para a polícia. Fomos a primeira turma de mulheres da academia que fez os quatro anos de curso. Formada, trabalhei no fundo da zona leste de São Paulo, onde comecei minha carreira. Por incrível que pareça foi a melhor coisa que me aconteceu, aprendi muito, principalmente na questão trabalhar para servir. Também trabalhei no Copom da capital, na academia como instrutora, depois fui para o Palácio do Governo, onde trabalhei um tempo na segurança e muito tempo na Defesa Civil. Foi uma experiência interessante na articulação e parcerias. Talvez tenha trazido um pouco desta visão de gestora para a polícia. Por fim servi aqui no CPI, assumi o batalhão em Taubaté e agora retorno para cá. Esses são meus 25 anos na polícia.
Quais as dificuldades de ser mulher numa academia até então masculina?
Na academia foi muito diferente. Não era comum a presença de mulheres. Entramos num grupo de 15 mulheres no meio de 700 homens. Foi uma surpresa para todos. A gente parecia um grupo de extraterrestres que caíram naquele local. Não foi fácil. Tudo que fazíamos era visto, observado. O interessante era que a gente era testada para fazer as mesmas coisas que os homens faziam, fomos um experimento. Eles pensavam: o que fazer com elas? E o mosquetão, dá ou não? Elas conseguem fazer manobras? O que fazer com elas? Tinha revista de acampamento, e perguntavam se homem poderia ou não entrar no alojamento das meninas. Fomos uma turma de desbravadores. Foram feitas muitas experiências conosco, nós fomos testadas no limite, em situações polemicas e desconcertantes. Alguns momentos tinha raiva. Mas hoje entendo que fazia parte. Das 15 que entraram, 13 se formaram. Dessas, 12 continuam em serviço.
Como era sua relação com seu pai na Polícia?
Meu pai era coronel da PM e faleceu em serviço em 1993, quando eu era recém-formada. Ele era meu melhor amigo, a pessoa para quem eu confidenciava as coisas de namoro, meu exemplo. Foi ele quem me inspirou a seguir a carreira militar ao lado dele. Mas o engraçado foi que no dia que saiu o resultado, cheguei em casa toda contente e pensei que meu pai ia ficar orgulhoso. Ele me deu uma bronca e perguntou se eu pensava que era fácil, se pensava que ele me ajudaria e dizia que [se pensava isso] estava muito enganada. Disse ainda que se quisesse seguir carreira, teria que fazer por mim mesma. Talvez ele tenha sido duro comigo para que eu soubesse o real significado daquilo que estava escolhendo. E não me arrependo. Foi difícil, passei por muitas coisas, mas ao mesmo tempo é muito gratificante, é uma paixão. Não dá para explicar o que é ser polícia. É olhar para os companheiros de farda e ver ali também uma família.
Qual o maior desafio para a polícia na RMVale? E porque acha que foi escolhida ao cargo?
O maior desafio é mudar a visão de que aqui é a região mais violenta do estado. Precisamos fazer com que as pessoas trabalhem juntas para tornar a região melhor em todos os aspectos, não só na segurança. Queremos criar uma rede de proteção. O trabalho de polícia a gente sabe fazer, o que precisamos são parcerias. Temos que melhorar o Copom, tanto na questão do atendimento quando na parte técnica. Implementar a vizinhança solidária e expandir, onde for possível, com o apoio da comunidade. Por fim, vamos continuar o combate ao tráfico. Hoje o grande mal da humanidade é a droga. Em relação ao cargo, acredito que foi pelo conhecimento que tenho da área, pelo histórico de carreira e pelo tipo de preparação que tenho. É uma carreira toda que faz alcançarmos determinados postos. Não é um momento ou uma decisão, são os 25 anos de trabalho que tenho que me trouxeram até aqui.
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