Jovens de São José adotam nova filosofia com ‘resolvi esperar’
Fiéis de diversas religiões tratam castidade com semelhança


Grupo de jovens se uniu na criação de uma série para o YouTube
Pedro Ivo Prates
A dificuldade em conversar sobre assuntos tabus ainda é presente em vários ambientes, seja no familiar, profissional, entre amigos ou até dentro de relacionamentos. Um dos temas mais presentes e delicados em qualquer bate-papo é o sexo, e os argumentos se dividem ainda mais quando debatemos detalhes da relação sexual.
Falar de sexo não é novidade, mas continua causando estranheza quando na roda estão pessoas de faixas etárias diferentes, com ideologias e criações opostas. Os posicionamentos muitas vezes se dividem entre o conservadorismo e o liberalismo, ainda mais quando falamos sobre castidade.
Desde o início dos tempos, a maioria das religiões prega que os seus fiéis devem sempre buscar a pureza em sua vida e se resguardar para o momento certo da primeira relação sexual. Entretanto, existem pessoas contrárias a esses ideais, que acreditam que o ser humano foi feito para vivenciar novas experiências a cada dia e não necessariamente ficarem presos a uma doutrina.
Mas para os jovens chegarem a tal conhecimento sobre o assunto e terem argumentos concretos para se posicionarem e tomarem a sua escolha, o sexo tem que ser conversado. O Papa Francisco, após o Sínodo da Família no início do ano, escreveu um livro que incluí o capítulo “Sim à Educação Sexual”, onde traz visões diferentes da sexualidade e fala sobre a responsabilidade dos pais conversarem sobre relações sexuais com o seus filhos.
O padre Edinei Evaldo Batista, coordenador diocesano de pastoral e pároco na Paróquia Santa Terezinha, na Vila Nair em São José dos Campos, explica que itens da educação social devem ser tratados de forma natural e explicativa. “Há um incentivo da igreja para que os pais tratem dessas questões dentro de casa. Eles têm a missão, de maneira madura e responsável, de falar com seus filhos sobre os valores cristãos, para que tenham uma base para saberem que é um caminho”, conta.
Entre as religiões com mais fiéis no Brasil, a católica e a evangélica, o tema da castidade e da sexualidade é tratado com muita semelhança. Os grupos de jovens cristãos são envolvidos em palestras, debates e momentos de experiência que apresentam a visão da decisão de viver pela fé.
Na Igreja da Cidade, antiga PIB, em São José dos Campos, um grupo de jovens se uniu na criação de uma série para o YouTube nomeada “Eu Vou Te Esperar”, que estreou em 2015 com o tema sobre a castidade.
Entre os atores da produção está Lucas Lima, de 26 anos, que desde a infância pensava em se casar virgem e esperar a pessoa certa para manter um relacionamento. “É legal entender que a espera não tem a ver apenas com virgindade. Algumas vezes, pessoas deixam de viver um proposito de fé por acreditar que não pode, por não ser mais virgem, e é mentira. São princípios que escolhemos para viver no momento que queremos andar com Deus”, explica.
O padre Edilei também comenta que a decisão não representa uma mudança repentina, mas que é um trabalho diário e dedicado de cada cristão que busca ter uma nova vida. “Não negamos a sexualidade como dado humano e divino. Precisamos nos reeducar para interromper com a vontade. Mesmo que já tenha vivido o sexo, a pessoa pode querem viver na castidade após uma experiência de fé”, detalha.
Lima teve relacionamentos durante a sua adolescência, se manteve distante da religião por alguns anos, mas em 2010 se converteu na Renovação Carismática da Igreja Católica e alguns anos depois buscou a Igreja Evangélica. O jovem explica que a realidade da castidade envolve “vivenciar as escolhas de Jesus para a sua vida no momento certo”, diz.
Para algumas pessoas, principalmente os que não vivenciam uma religião, o casamento pode representar o momento de término da “castidade”, onde tudo já pode ser feito. No entanto, entre os fiéis e religiosos entrevistados pela reportagem, esse pensamento muitas vezes é equivocado, até dentro das igrejas.
“Quando criança, conheci um casal no qual o marido havia passado por um câncer de próstata e não tinha mais a vida sexual ativa. Quando meu pai ouviu, ele ficou assustado, mas a mulher afirmou para nós que o casamento deles era muito mais que sexo. Desde aquele momento aquilo me marcou e levo comigo”, lembra Lucas.
Para o religioso católico, a vida a dois após o matrimônio também deve ser vivida em castidade. “Lembrando que o casado também é chamado a viver na castidade. A sexualidade não é o centro da vida conjugal. Mesmo sendo importante, ela não é tudo”, explica o padre, afirmando que outras vivências da vida pessoal e profissional devem estar presentes na rotina de um casal.
Os produtores da série de vídeos para a internet sobre o tema, Maurício e Ana Paula Bettini, de 34 e 35 anos, são casados na igreja evangélica desde 2013, quando se converteram, mas estão juntos há 11 anos, e contam que hoje vivem um relacionamento baseado na espera. “As pessoas confundem que quando você fala de esperar em Deus, que você não vai mais sentir atração, mas continua igual. Se Deus tivesse dado a nossa história antes, valeria muito a pena esperar pela minha esposa”, conta Bettini, ao falar sobre a conversão do casal.
Ainda segundo Maurício, sua vida profissional e pessoal mudou de acordo com as decisões de viver nessa espera junto à religião. “A única coisa que fazemos 100% há três anos, desde que nós nos convertemos, é esperar para tudo. A nossa espera consiste em nos colocarmos totalmente dependentes de Deus em cada passo da nossa vida. Hoje o nosso trabalho e a vida da nossa família é fruto da espera”, diz.
A outra visão
A moradora de São José dos Campos e engenheira Grazielle Américo, de 27 anos, não simpatiza com o “Eu Escolhi Esperar”. “Acho muito boa pra quando não se tem nenhuma perspectiva de vida ou conquista que deixe sua vida estável, por exemplo, vida profissional, moradia, estabilidade emocional. Mas creio que depois de tudo isso concluído, a pessoa tem que se mexer e partir para o “Eu escolhi avançar” [risos], e esse avanço é com joelho no chão, jejum e ficar muito atento para as armadilhas do coração”, afirma.
A engenheira frequenta desde março de 2015 o MCI (Ministério Consolador de Israel), de São José. “Não gosto do termo ‘esperar’, dessa ideologia, porque não sou uma pessoa com nádegas presas no sofá esperando o príncipe no cavalo branco. Quero encontrar ele como guerreiro no meio da batalha”, diz Grazielle.
“No ministério que frequento, a lei é o que o Espírito Santo manda. Não proíbem nada, tanto que tem noivos que sobem ao altar sem beijo na boca e outros casais que não seguem esse propósito. É muito o seu coração com o Sondador dos corações”, conta Grazielle.
Os jovens são os mais expressivos quando buscam sobre temas que eles vivenciam diariamente, como a espera ou não para a primeira vez. A adolescência e juventude são momentos de hormônios a flor da pele, oportunidades incontáveis e desejos, muitas vezes, incontroláveis.
Para os profissionais que estudam a mente humana e suas atitudes, cada pessoa tem a capacidade de escolha, porém as opiniões se dividem. Enquanto uns acreditam que pode ser negativo e até perigoso a decisão de reprimir uma necessidade do corpo e da mente, outros confiam no discernimento de cada pessoa na decisão de vivenciar a sua crença.
Para a coordenadora do curso de psicologia da Anhanguera de Taubaté, Mirthis de Abreu, a ideologia do “escolher esperar” é muito mais próxima das convicções religiosas, buscando alcançar metas e objetivo de vida. “Penso que é uma opção de cada pessoa, que irá perpetuar no ciclo de vida. Ao mesmo tempo, as escolhas irão direcionar no desenvolvimento e maturidade para todos os segmentos da vida, profissional, pessoal, relacionamentos e expectativas para o futuro”, conclui.
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