‘Não são todos os dias que temos pão quente’, diz Ozires Silva sobre 2014

Fundador da Embraer avalia melhores e piores momentos do ano que passou

Escrito por: Elaine Rodrigues5 min de leitura
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Ozíres Silva

Divulgação

O ano de 2014 chegou ao fim, mas deixou sua marca em cada um e também em toda a Região Metropolitana do Vale do Paraíba. O Meon ouviu algumas personalidades da região, que traçaram uma retrospectiva tanto pessoal, quanto política e econômica deste ano.

Neste sábado (3), na última entrevista da série, ouvimos o fundador da Embraer e atual e reitor da Unimonte, o engenheiro Ozires Silva, que avalia como foi 2014 em sua vida, para o seu atual setor, a educação e ainda para o setor aeroespacial na RMVale.

Em sua opinião, quais os melhores acontecimentos deste ano em sua vida?
Depois que deixei para trás minhas atividades profissionais, em particular Embraer, após o mais que difícil período no qual lutamos pela privatização da empresa, hoje provada que era essencial, voltei-me para a Educação. Os melhores momentos, os quais pude viver neste ano de 2014, foram os de progressos que conseguimos com nossos professores e alunos, motivados a trabalhar pelo Brasil e construir um país melhor. Procuramos construir lideranças que, tenho certeza, promoverão contribuições para chegarmos ao Brasil que desejamos, embora os atuais tropeços político-institucionais do Governo, aliás, lamentáveis e que, se realmente desejarmos, serão superados!

E os piores momentos, quais foram?
Os piores momentos, sem dúvida, foram os tropeços das autoridades. O governo está falhando em honrar a confiança que lhes foi outorgada pela população. Com essa confiança e um desempenho exemplar o governo poderia ter proporcionado um crescimento maior, um enriquecimento bem mais expressivo aos cidadãos e uma participação maior, na evolução mundial da inovação,  da qual hoje estamos praticamente ausentes. Tudo de novo, rico e desejado pelos nossos consumidores é, na atualidade, importado de fora. Enquanto isso, somos orientados a nos conformar que possamos, em contrapartida, oferecer aos consumidores do mundo, matérias-primas ou produtos primariamente processados. No Vale do Paraíba temos uma exceção, com a Embraer, exportando aviões (algo de grande complexidade de concepção e de fabricação) para mais de 40 países e operando, transportando passageiros em todos os cinco continentes.  Tenho um frustração pessoal e muito particular. Não me parece que nossa população se dê conta disso e não se coloque sob desafios para preencher outras oportunidades existentes, que poderiam gerar os empregos tão desejados, de pessoal qualificado e bem-remunerado.

Como você define o ano de 2014 para o setor aeronáutico?
Sabemos que as oportunidades de investimentos e de crescimento de cada região depende de talentos. Por razões históricas, iniciadas em 1950 com a criação do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e do CTA (Centro Técnico Aerospacial), em São José, uma cultura e competência no setor da aviação foi desenvolvida. É lógico, portanto, que novas ideias e empreendimentos sejam encorajados pela sociedade e pelos nossos governantes. Assim, deveríamos explorar essa real vocação que existe entre nós e não o aparente distanciamento das iniciativas,  como se as oportunidades aqui geradas possam ser aproveitadas em outras regiões. Vemos que cidades, mesmo fora do nosso Estado, estão caminhando mais rapidamente e com mais confiança do que nós, embora seus pontos de partida mais atrasados. 
Somos um país continente que tem uma aviação bem menor do que a que precisa. Por exemplo, temos mais de 5,5 mil cidades e apenas 120 cidades atingidas pelo transporte aéreo regular e, como sabemos, o avião é um gerador de negócios, entre os mais eficazes, tendo em vista sua mobilidade e velocidade. Novamente, estamos subordinados a um governo de atitudes que favorecem as restrições. Tudo se baseando em legislações ultrapassadas, que precisariam ser corrigidas.  O gerenciamento do setor, ao qual o Governo se auto-encarregou, não responde às necessidades nacionais. Assim, a nossa região não pode escapar dessas insuficiências que são muitas. O fato de que o aeroporto de São José não mais seja objeto do interesse das empresas operadores, simplesmente se enquadra no contexto.

Quais foram os fatos mais marcantes em sua área de atuação em 2014 no Brasil?
Na minha área de atuação, educação,  posso indicar como entre os aspectos que mais me marcaram, está o progresso que conseguimos com o grande salto do Grupo ÂNIMA de Educação, do qual participo intensamente como Presidente do Conselho de Administração e como Reitor de uma de suas Universidades.  O contato com Professores e Alunos entusiasmados com o futuro, é realmente um prêmio entre os prêmios.  Do ponto de vista negativo, esta seja possivelmente a mais difícil pergunta que formula. Em 2014, somente constatei, com muita tristeza e pena, em frente a um país fantástico como o Brasil, números comparativos com o mundo decepcionantes, em praticamente todas as áreas, da educação, da cultura, da produção, da economia, das finanças, dos empreendimentos, etc. A lista é grande mas, procurando gozar do respeito dos leitores, deixo a eles elencarem o que mais possam ressaltar.

Como citou, a Embraer exporta hoje para mais de 40 países, mas pagou uma das menores PLRs (Participação de Lucros e Resultados) desde a privatização. Como avalia esta diferença?
O desempenho econômico-financeiro fraco do Brasil justifica que a empresa não conseguiu a lucratividade necessária no ano fiscal de 2014. Como diria o dono da padaria ‘não são todos os dias que temos pão quente’.

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