Professor: carreira é desprezada, mas há profissionais que fazem sucesso

Das carreiras que exigem curso superior no Brasil, a do professor é a que tem menor remuneração. Para se equiparar ao salário médio das outras carreiras, o professor deveria, só no Estado de São Paulo, receber um reajuste imediato de 75% e, com isso, chegar a uma renda em torno de R$ 4.500.

Escrito por: Wagner Matheus8 min de leitura
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Professor (Divulgação/Anec)

Apeoesp reúne cerca de 250 mil professores estaduais paulistas

Divulgação/Anec

Das carreiras que exigem curso superior no Brasil, a do professor é a que tem menor remuneração. Para se equiparar ao salário médio das outras carreiras, o professor deveria, só no Estado de São Paulo, receber um reajuste imediato de 75% e, com isso, chegar a uma renda em torno de R$ 4.500.

A avaliação é do diretor estadual da Apeoesp (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado São Paulo), Gilmar Ribeiro, que atua na subsede de São José dos Campos.

Mesmo, assim, este 15 de outubro, Dia do Professor, mostra algo de positivo em relação a anos anteriores. “Há um horizonte, pois o Congresso aprovou [e a presidente Dilma Rousseff não vetou] o projeto que fixa no mínimo em 10% do PIB (Produto Interno Bruto) o investimento na área da educação”, ressalta Ribeiro.

“Hoje, o país investe de 6,5% a 7% do PIB em educação, mas pode chegar a 10% com mais recursos e melhorando a gestão desses recursos. A sociedade está mais exigente e o momento é precioso para o país melhorar a gestão da educação”, sugere.

A expectativa é que esses 10% elevem rapidamente os recursos investidos na formação de novos professores no Brasil. Apesar disso, os novos investimentos também deverão ser destinados ao Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), ProUni (Programa Universidade para Todos) faculdades públicas e Sistema S (Senai, Sesc e Senac).

E a qualidade?
A Apeoesp, que reúne cerca de 250 mil professores estaduais paulistas, critica a qualidade da formação dos novos educadores. E coloca parte dessa culpa nos novos cursos de EAD (Ensino a Distância).

“Hoje, o EAD tem maior procura para os cursos de pedagogia e isto não é bom para a formação do professor. O MEC deveria obrigar que a primeira formação acadêmica fosse em curso presencial”, critica o diretor. “No EAD, o currículo é mais fácil. A educação no Brasil virou uma questão mercantil, dão um jeitinho para quem não passa em concurso.”

Professores malformados não corrigem as deficiências do ensino no país. Estima-se que, hoje, um aluno no 3º ano do ensino médio tem proficiência equivalente ao sétimo ano do ensino fundamental.

Oásis
Na rede pública, a remuneração básica é de R$ 2.000 brutos para o professor do 1º ao 5º anos e de R$ 2.400 para o do 6º ano do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio.

Existem três categorias na rede pública estadual. Os efetivos, que possuem concurso público, são a maioria; a categoria “s” é formada por estáveis e, finalmente, os contratados trabalham por tempo determinado. Eles são o degrau mais baixo da escala –de 30% a 35%– e não têm plano de carreira. Após 15 anos de trabalho, os efetivos e a categoria “s” recebem 15% a mais sobre a remuneração inicial.

Comparados a essa realidade, os 2.000 a 2.500 docentes da rede particular de ensino de São José dos Campos parecem habitar um oásis de tranquilidade. Se os salários variam bastante de escola para escola, os benefícios parecem compensar a opção pela carreira.

Segundo Maria Aparecida Maganha, presidente do Sindicato dos Professores de São José dos Campos, que reúne professores da educação básica ao ensino superior da rede privada, “um grande incentivo são as bolsas de estudo para cursos de especialização, mestrado e doutorado. As bolsas são integrais e garantidas por convenção coletiva”.

“A bolsa é gratuita, é um benefício do sindicato para os funcionários de escolas. Cada professor ou funcionário ligado à categoria tem direito a duas bolsas, para ele ou para seus familiares. É também uma forma de atrair gente para a carreira”, explica Maria Aparecida.

O ensino superior não tem piso salarial, mas faculdades e universidades privadas, normalmente, mantêm planos de carreira. Em um mercado competitivo, um professor especializado em início de carreira recebe em torno de R$ 32 por hora/aula.

“A remuneração média inicial do professor de nível superior especializado varia de R$ 3 mil a R$ 4 mil, dependendo da quantidade de horas-aula”, explica a dirigente sindical. “Mas quem termina um doutorado pode chegar a receber entre R$ 12 mil e R$ 15 mil em uma das universidades da região. Com o incentivo da bolsa de estudo e o plano de carreira, muitos acabam recebendo além desses valores.”

Novo perfil
A professora universitária de graduação e MBA Priscila de Loureiro Coelho, também consultora em gestão de pessoas, decreta a morte do “velho” professor. Para ela, é hora de ser revalorizada a atividade, mas como carreira e não como emprego.

“Sem uma melhor preparação, teremos professores incompetentes. Como os professores têm a ver com a formação de todas as demais profissões, a economia brasileira não vai decolar por falta de bons profissionais”, resume.

Priscila dá aulas no campus de São José da Unip (Universidade Paulista) e presta consultoria em desenvolvimento humano. Ela alerta para o fato de estar havendo um processo global de reestruturação da educação.

“O primeiro elemento a considerar é que a escola está fora da realidade. Hoje, as salas de aula ainda são como as do tempo da minha avó. Existe uma dicotomia entre a necessidade e o que a escola oferece”, diz.

“Eu mudaria o nome da profissão, trocaria o professor pelo ‘coach’ (instrutor). O termo professor está impregnado de passado. O professor deve desaparecer para dar lugar ao ‘coach’, um novo profissional que vai ensinar o aluno a elaborar o conhecimento, ensinar a aprender, pois a informação já existe e só precisa ser buscada”, garante.

Valorização
A Apeoesp também aposta em uma inevitável reformulação da educação brasileira e da carreira de professor. A entidade defende uma política pública de Estado para a educação. “Professor, no Brasil, deveria ser carreira de Estado. Hoje, quem não consegue passar em outros vestibulares acaba optando por pedagogia, isso é errado”, lamenta o diretor regional da entidade, Gilmar Ribeiro.

“Cada governo ou partido, quando chega ao poder, quer reinventar a roda. Não existe continuidade. Não dá para querer recomeçar do zero”, emenda Ribeiro. Ele cita como positivo o projeto de lei do senador Cristovam Buarque (PDT) que institui a federalização do sistema educacional no Brasil. “A ideia é que a educação seja uma política pública, como é o SUS. Pode ser boa ou ruim, mas depois pode ser melhorada”, opina.

Outra frente de luta da Apeoesp tem a ver com o Investimento na formação –inicial e continuada– do professor. A entidade mantém ação na Justiça para que 40 horas mensais do professor sejam cumpridas na escola, mas fora da sala de aula. A ação pretende alcançar todos os professores do país, das redes pública e privada. “Com um terço da jornada de trabalho fora da sala, o professor terá tempo de estudar e se preparar para as aulas”, defende.

Opções para 2015
Apesar de muitos acharem que estão em decadência, a Univap (Universidade do Vale do Paraíba) tem insistido na manutenção dos cursos de licenciatura, aumentando sua oferta. Há cerca de dois anos os cursos do campus Aquarius foram transferidos para o campus Urbanova.

Ali são oferecidos cursos de artes visuais, ciências biológicas, educação física, geografia, história, letras (português, inglês e espanhol), pedagogia, química, física e matemática. São 40 vagas por curso.

Segundo o diretor da Faculdade de Educação e Artes da Univap, Milton Beltrame Junior, a procura é razoável, mas está em declínio. “Houve uma massificação dos cursos de licenciatura a distância, mas as escolas de ensino básico não absorvem esses alunos e dão preferência aos formados em cursos presenciais”, afirma.

Mesmo assim, Beltrame Junior destaca que o déficit de professores no Brasil é muito grande e por isso existem vantagens para quem deseja ser professor.

O governo federal tenta investir no setor com o Fies (Fundo de Financiamento Estudantil), que dá isenção do pagamento ao aluno financiado de 1% por mês de trabalho no setor público, sem desconto em folha.

“Em cem meses o financiamento do aluno junto ao Fies pode ser quitado, sem prejuízo do seu salário mensal de professor. A Univap oferece esse benefício”, afirma Beltrame.

Além disso, existem as “bolsas pibid”, um programa de iniciação à docência que faz um pagamento aos alunos de licenciatura que desenvolvem trabalhos na rede pública. O aluno recebe R$ 400 mensais, o supervisor da escola beneficiada recebe R$ 700 e o orientador da faculdade recebe R$ 1.500 por mês, por oito horas de serviço semanal.

Mas a Univap não abre mão da seleção dos candidatos. No ano passado, um terço dos candidatos não passou pela nota de corte e foi reprovado. “A proposta é formar alunos com qualidade. Em 2015, todos os cursos terão currículo novo e uma forte proposta de interdisciplinaridade”, conclui o diretor.

A escolha é sua. Mesmo enfrentando dificuldades e sofrendo preconceitos, existe um consenso de que a sociedade do futuro não pode abrir mão de bons profissionais na área do ensino. Esses bons professores têm altíssima empregabilidade.

Chega-se à conclusão que a remuneração de um bom professor de nível superior na rede particular é equivalente a de um engenheiro ou advogado. Este é o “novo” professor, um elemento indispensável para o desenvolvimento do país.

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