BRT tem etapas invertidas e como está não poderá ser implantado

Prefeitura diz que está empenhada em salvar o financiamento

Escrito por: Eliane Mendonça5 min de leitura
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O secretário de mobilidade urbana Paulo Roberto Guimaraes_Pedro Ivo Prates

O secretário de Mobilidade Urbana, Paulo Roberto Guimarães Júnior

Pedro Ivo Prates/Meon

O projeto de construção do BRT (Transporte Rápido por Ônibus) em São José dos Campos foi elaborado com etapas invertidas e, como está, não poderá ser implantado.

Foi esta a conclusão que os técnicos da Secretaria de Mobilidade Urbana chegaram após análise minuciosa do projeto, segundo informações do secretário de mobilidade urbana, Paulo Roberto Guimarães Júnior, em entrevista ao Meon.

“O município primeiro conquistou um financiamento. Um belo de um financiamento, aliás, que se fosse pra gente buscar isso hoje, na situação que encontra tanto o município quanto o país, a gente não conseguiria. Aí, a partir desse financiamento, encaixou-se uma obra ou várias obras e, por último, tentaram encaixar um sistema de transporte em cima daquelas obras que estavam previstas. Na verdade, deveria ser o contrário”, disse.

Segundo ele, o trâmite normal deveria primeiro pensar no sistema de transporte que a cidade precisa. Depois, a partir dessa concepção, pensar nas obras que são necessárias para esse sistema operar para, só depois, ver quanto isso ia custar.

“Além disso, o próprio projeto tem um erro lá atrás, conceitualmente. Nem 10% de todo o sistema que foi concebido é BRT mesmo, é uma modernização do sistema de transporte. BRT mesmo, no seu conceito técnico, inclui implantação de trem bala com canaletas exclusivas, ônibus maiores. Mas não é esse o conceito que estava sendo aplicado no projeto”, disse.

Segundo o secretário, além das etapas invertidas, há ainda outros problemas de projeto. “Vou exemplificar com as estações que foram concebidas para atender o BRT. Criaram um projeto de estação padrão e replicaram em todas as regiões da cidade. Então, a gente conclui que não teve uma análise do sistema de transporte. Afinal, não dá pra afirmar que a estação do Campo dos Alemães é igual à estação do Putim, por exemplo, porque elas têm características diferentes”, explicou.

Ele diz ainda que nas simulações realizadas pela equipe da secretaria, a estação do Campo dos Alemães tem mais um agravante: do jeito que está a estação que foi projetada não comporta a quantidade de ônibus do sistema. “O ônibus não consegue nem fazer a curva dentro da estação. Então, não dá pra construir como está”, disse.

Apesar dos problemas encontrados, o secretário garante que a administração está empenhada em salvar o financiamento e o projeto. Para isso, a administração solicitou à CEF (Caixa Econômica Federal) e ao Ministério das Cidades autorização para alterar o projeto e está aguardando as respostas, que deverão chegar até o final do mês.

“Estamos aguardando um aceno positivo. Assim que tivermos isso, já temos alguns estudos básicos que foram projetados e vamos iniciar as alterações”.

Nem tudo está perdido

No entanto, segundo o secretário, nem todo o projeto elaborado pela administração passada está perdido. Alguns trechos, como da estrada velha, no Parque Industrial, e da avenida Andrômeda, que passa pelo Jardim Satélite e Bosque dos Eucaliptos, por exemplo, poderão ser aproveitados.

“A gente deve aproveitar uma parte do projeto. E, caso não haja espaço para alteração, vamos aproveitar o que dá pra ser aproveitado e abrir mão daqueles trechos que vão se tornar um elefante branco na cidade”, disse.

Entenda

O projeto do BRT foi elaborado pelo governo Carlinhos Almeida, em 2015.

Foram dois estudos realizados, que custaram R$ 22,9 milhões. O primeiro foi desenvolvido pela Fusp (Fundação de Apoio à Universidade de São Paulo), por R$ 12 milhões. Já o projeto arquitetônico do BRT foi elaborado pelo arquiteto Ruy Ohtake.

O projeto tem financiamento aprovado de R$ 800 milhões, pela Caixa. Na sua versão original, previa 75 paradas, distribuídas por 51 km de linhas em todas as regiões da cidade.

Outro lado

O vereador Wagner Balieiro, que ocupou a pasta da Mobilidade Urbana na gestão passada, quando ainda se chamava Secretaria de Transportes, discordou da versão do atual secretário de que o projeto foi feito em “etapas invertidas”.

“Em 2011 ou 2012, o próprio PSDB pleiteou um financiamento de verbas para a construção de um VLT sem ter nenhum projeto, sem ter nada de estudos de composição tarifária. Tinham somente um conceito. OU seja, eles também já pediram financiamento antes de ter um projeto e não há problema algum nisso. Até porque, só faz sentido gastar para fazer um projeto quando você tem certeza que tem o financiamento”, disse.

Quanto às adequações necessárias no projeto, Balieiro defende que a prefeitura deveria trazer isso a público e debater para que se possa ter o melhor sistema de transporte público para a cidade.

“Se existem problemas, então mostrem quais são, corrijam e apresentem a nova proposta à população, ao invés de ficar enrolando como estão fazendo. O que temos visto é que tudo eles [a administração] estão avaliando, atrasando e cancelando. Tem sido mais uma estratégia política para não fazer, ou para protelar o serviço, quando deveriam estar empenhados em criar um modelo que possa realmente atender a nossa população”, disse.

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