Especial 248 anos: São José por um olhar centenário
As irmãs Flória e Genésia lembram de uma cidade que poucos conhecem Carol Tomba/Meon Elas conheceram a São José literalmente dos Campos. Sem trânsito, asfalto ou aviões, como estão acostumados os habitantes da maior e mais importante cidade do Vale do Paraíba. Hoje, o município contabiliza números superlativos: quase 700 mil habitantes e PIB (Produto […]


As irmãs Flória e Genésia lembram de uma cidade que poucos conhecem
Carol Tomba/Meon
Elas conheceram a São José literalmente dos Campos. Sem trânsito, asfalto ou aviões, como estão acostumados os habitantes da maior e mais importante cidade do Vale do Paraíba.
Hoje, o município contabiliza números superlativos: quase 700 mil habitantes e PIB (Produto Interno Bruto) de 28 bilhões de reais (IBGE, dados de 2012), recorde absoluto na região e que coloca a cidade na 21ª posição no ranking dos 100 municípios mais ricos do país.
Mas nem sempre foi assim. Houve uma época, e nem faz muito tempo, que a cidade era tranquila, pequena e sem ambições industriais ou tecnológicas, na qual os moradores se divertiam nadando em rios, subindo em árvores, andando a cavalo e em bailes domésticos, além das “paqueras pedestres” na rua 15 de Novembro.
“Tá passando avião, não vai chover. É o que se dizia na roça”, lembra Genésia Gonçalves Ferreira, que chegou aos 94 anos esbanjando lucidez. Segundo ela, na década de 1920, quando nasceu, aviões eram tão raros que prenunciavam o clima e não o progresso de um novo modelo testado pela Embraer, criada apenas em 1969.
“Carro tinha um só, um Ford preto em Santana”, diz ela ao lado da irmã caçula, Flória Gonçalves de Oliveira, que fará 90 anos em novembro deste ano.
Na roça
Bem diferente da época em que as irmãs eram meninas e os principais ritmos, aqueles que os irmãos tocavam “nos bailes na casa de mamãe”, eram a valsa, as marchas, a mazurca (dança de origem polonesa) e as quadrilhas. O rock ainda era um sonho distante na cabeça de músicos norte-americanos de country e blues.
“A gente se divertia à beça nesses bailes, mas tinha que ir dormir às 21h. Papai não deixava passar desse horário”, conta Flória. “As mulheres não tinham vida fácil naquela época. Não podia estudar fora de casa. A gente era preparada para ser mãe e dona de casa”.
As irmãs foram criadas em uma numerosa família de 14 filhos, oito homens e seis mulheres, que vivia na região norte de São José, no bairro Bandeira. Era roça mesmo, dizem as irmãs, com estradas de chão, gado e fazendas.
“A única ligação para o centro da cidade era pela avenida Rui Barbosa. A gente só ia para a ‘cidade’ quando tinha que ir ao médico. Ficava todo o tempo na fazenda mesmo”, afirma Genésia.
Ela se recorda das histórias que o pai contava para os filhos sobre restos de canoas de índios que encontrava no rio Paraíba, na Vila Cristina, vestígios das origens da cidade.
Vila
O nascimento de São José remonta ao final do século 16, quando se formou a ‘Aldeia do Rio Comprido’, uma fazenda de jesuítas para atividades de pecuária. Mas os religiosos foram expulsos em 1611 e os aldeões, espalhados por várias outras regiões.
Os jesuítas voltaram anos depois e se estabeleceram na região onde foi erguida a Igreja Matriz de São José, no centro da cidade. Tal núcleo que deu origem ao município, elevado à categoria de vila em 27 de julho de 1767, com o nome de São José do Paraíba.
Na época, para configurar o “progresso”, foram feitos o pelourinho e a Câmara. A cidade só ganhou o nome completo de São José dos Campos em abril de 1871, por meio de uma lei, que tirou o “do Paraíba” do título.
Flória e Genésia fizeram a vida em São José. Ambas se casaram e tiveram filhos na cidade. A primeira contabiliza quatro filhos, oito netos e três bisnetos. Genésia teve 12 filhos, mas criou seis, cinco netos, sete bisnetos e já dois tataranetos, de quatro e dois meses de vida.
A mocidade de ambas mistura-se com o desenvolvimento de São José. Flória conta, por exemplo, que a rigidez na educação paterna evitava qualquer contato entre meninos e meninas pelas ruas da cidade. Eles chegavam a andar em calçadas diferentes para não se esbarrarem.
Genésia recorda uma história saborosa que ocorria no centro da cidade, bem na avenida 15 de Novembro, ponto de encontro da rapaziada. Moças andavam de um lado da rua e rapazes, do outro. Só trocavam olhares e era o que bastava para “se conhecerem”, e quem sabe engatar um namoro, com óbvia aprovação dos pais, tempos depois. O movimento era conhecido como “footing”.
Fábricas
As irmãs são contemporâneas da chegada de grandes fábricas ao município, na década de 1920. “Éramos crianças na época em que a Tecelagem Parahyba chegou. Meus irmãos foram os primeiros tecelões da empresa”, conta Genésia.
Na década seguinte, a cidade se tornou instância climática e depois hidromineral e passou a ser procurada por milhares de tuberculosos em busca da cura para a doença.
Flória e Genésia dizem que as jovens passavam ao lado das dezenas de pensões que abrigavam os tuberculosos para ver os “doentes mais bonitos”, mas havia também muito medo da tuberculose.
As irmãs Gonçalves acompanharam todo o desenvolvimento da cidade, muitas vezes com espanto ante a rapidez do progresso. “A cidade cresceu muito, nem há mais espaço para parar carro aqui perto de casa”, reclama, com razão, Genésia, que mora no Jardim Paulista.
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