Uma disputa desigual que o Brasil perde de goleada
Pense na disputa de uma maratona entre dois atletas. Um bem treinado, bem alimentado, com índice de gordura corporal controlado, totalmente preparado para a disputa. E o outro competidor chegando em cima da hora para a prova, recém-saído de uma pneumonia mal curada, subnutrido e bem acima do peso.

Pense na disputa de uma maratona entre dois atletas. Um bem treinado, bem alimentado, com índice de gordura corporal controlado, totalmente preparado para a disputa. E o outro competidor chegando em cima da hora para a prova, recém-saído de uma pneumonia mal curada, subnutrido e bem acima do peso.
É mais ou menos assim que se sentem os empreendedores brasileiros quando têm de competir para colocar seus produtos no mercado internacional. Recheado de “gorduras” indesejáveis, o Brasil se movimenta pesadamente nesta competição em que o que vale é a agilidade, a preparação, o planejamento.
Este é o Custo Brasil, um “sobrepeso” que os empresários são obrigados a carregar, comprometendo sua competitividade e deixando-os a cada dia mais distantes dos principais “players” desta maratona em busca do sucesso. Basicamente, o Custo Brasil significa a diferença dos custos de produção entre o Brasil e outros países. O produto nacional fica menos competitivo nos mercados externo e interno.
As principais causas deste “sobrepeso” do país são os impostos elevados e, quase sempre, cobrados em “cascata” e sem critérios coerentes, a infraestrutura precária do país, que não investe o necessário em logística de transportes como rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, além da burocracia das três esferas de governo, que torna irritantes ações simples como a abertura de empresas.
Somam-se ainda as elevadas taxas de juros e o alto custo da mão de obra, que chega a ultrapassar os 130% sobre o que o trabalhador brasileiro leva em dinheiro para casa no final do mês.
O Custo Brasil, do qual tanto se fala, mas contra o qual quase nada se faz, é o grande empecilho para o crescimento da economia brasileira, principalmente da indústria, quem tem assistido sua participação no PIB nacional desabar em queda livre ao longo dos últimos anos.
Lutando por investimentos
A Johnson & Johnson mantém no Brasil a única planta industrial em todo o mundo que concentra as suas três áreas de atuação: Medical (equipamentos médicos), Consumidor (saúde, higiene, beleza) e Farmacêutica (medicamentos). Mesmo assim, esse campus, que já foi muito maior e mais importante dentre as afiliadas J&J ao redor do mundo, tem dificuldades para convencer a matriz da empresa, nos Estados Unidos, a aprovar novos investimentos em suas fábricas.
“Empresas globais não investem em um quadro desses, preferem investir em outros países. A nossa luta é mostrar que o país merece receber investimentos”, explica Marcos Mancini, diretor de Operações da J&J Medical. “Temos muito espaço para crescer em São José, o potencial é grande, mas o que fazemos hoje é manter a produção.”
O campus São José da J&J concentra cerca de 5.000 empregados, sendo 3.370 empregos diretos e mais terceirizados.
“O Custo Brasil aumenta o nosso custo operacional, por exemplo, com 6,5% de inflação mais 2% de aumento real nos salários. Isto tira nossa competitividade, limita o potencial de exportação e, por isso, a empresa acaba atendendo mais o mercado local. Não exportando, a manufatura não gera mais empregos”, lamenta.
O grande desafio da empresa é buscar melhorias na produção, no custo operacional, na tecnologia. “Um país com metade da inflação do Brasil só admite pagar a sua inflação interna nos produtos que adquire, se a nossa for maior teremos dificuldade de vender nossos produtos”, observa Mancini.
Hoje, na J&J, os investimentos têm se limitado à manutenção do negócio e algumas melhorias para otimizar os custos. “Poderíamos exportar muito mais. É preciso brigar bastante para mostrar o valor do negócio mesmo em um ambiente controverso. Fazemos projeções de longo prazo, de pelo menos quinze anos, para demonstrar esta viabilidade”, afirma o diretor.
Empregos “desaparecem”
A Volex é líder mundial na fabricação de conjuntos de cabos elétricos, de fibra óptica e de alimentação elétrica. Mantém nove fábricas no mundo, uma delas em Jacareí, e 18 escritórios de suporte na Ásia, norte da Europa e América do Sul. Como usa mão de obra intensiva em produtos com baixo valor agregado, o custo da mão de obra é muito importante para o preço final dos seus produtos.
“Os nossos maiores problemas são as leis trabalhistas, que estão entre as piores do mundo, a alta carga tributária e as relações conflituosas com os sindicatos de trabalhadores. É por isso que, hoje, estamos exportando empregos na área industrial principalmente para China, México e outros países mais competitivos”, queixa-se o engenheiro mecânico aeronáutico Ricardo Hamad, formado na turma de 1986 do ITA, diretor geral da Volex do Brasil.
A Volex está no Brasil desde o ano 2000. Nesse período, a empresa assistiu a um brutal processo de extinção de empregos provocado pelos efeitos do Custo Brasil. Dos 580 empregados da fábrica de Jacareí entre 2002 e 2004, a Volex mantém hoje 160 postos de trabalho. Devido a falta de demanda, a empresa demitiu recentemente oito empregados e mantém 12 em férias.
Negócio moderno, leis antiquadas
A Campo Limpo Reciclagem e Transformação, com unidade industrial em Taubaté, é uma empresa formada por 30 acionistas que são fabricantes nacionais e estrangeiros de defensivos agrícolas. A empresa é responsável pelo pós-consumo no setor de defensivos agrícolas, reciclando as embalagens vazias dos defensivos e transformando-as em outros produtos.
A Campo Limpo atua há 20 anos, antecipando-se à própria política nacional para o setor, que foi elaborada há dez anos. Porém, segundo o diretor-presidente da empresa, o engenheiro agrônomo João Cesar Rando, todo o sistema depende do desempenho da economia brasileira. “O Brasil tem o maior potencial para contribuir para a necessidade de crescimento do setor, mas o nosso Custo Brasil é o mesmo do agronegócio”, explica.
Segundo Rando, a Campo Limpo é altamente dependente de logística. São empregados 15 mil caminhões anualmente para retirar 42.500 toneladas de embalagens do mercado. Desse total, a Campo Limpo recebe 10 mil toneladas. Na fábrica de Taubaté, gera 240 empregos diretos e mais 60 terceirizados. Existe um plano de investimento para criar mais 60 vagas.
De acordo com Rando, para reduzir o Custo Brasil no seu setor, o governo deveria dar um tratamento diferenciado envolvendo desde o produtor rural. “Temos uma lei moderna de gestão de resíduos pós-consumo, mas uma legislação antiga para prever esta demanda legal.”
ERRATA
A respeito das informações publicadas na reportagem “Uma disputa desigual que o Brasil perde de goleada”, que tratou do Custo Brasil, publicada no Meon nesta quarta-feira (29), a assessoria de imprensa da Johnson & Johnson respondeu que, diferentemente do número publicado, “o complexo industrial da Johnson & Johnson em São José dos Campos possui atualmente 3.370 funcionários diretos que, somados aos terceirizados, chega a aproximadamente 5 mil colaboradores”. A nota acrescenta que “o tamanho do campus [da J&J em São José], em número de negócios e funcionários, não sofreu alterações significativas nos últimos anos”.
Posts Relacionados

Chuva mata oito bovinos, alaga casa e provoca deslizamento em rodovia no Vale do Paraíba

EDP investe R$ 4,5 milhões para ampliar capacidade energética de Lorena em 15%

Defesa Civil emite alerta severo para chuva forte em São José dos Campos e Jacareí
