Unidades do Saae estudam rodízio e racionamento de água na RMVale

A situação de 565 mil consumidores de água em 12 cidades da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte é bem menos confortável que a dos outros 1,8 milhão de habitantes atendidos em 27 municípios da RMVale pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo).

Escrito por: Wagner Matheus6 min de leitura
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Represa do Jaguari, em Igaratá, cujo volume de água reduziu

Flávio Pereira

A situação de 565 mil consumidores de água em 12 cidades da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte é bem menos confortável que a dos outros 1,8 milhão de habitantes atendidos em 27 municípios da RMVale pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo).

Enquanto a concessionária estadual evita adotar medidas efetivas para reduzir o consumo de água, na maioria das cidades atendidas pelas unidades do Saae (Serviço Autônomos de Água e Esgoto) a população tem sido alvo de campanhas educativas e até de ameaça de multa por uso abusivo da água.

Na RMVale, as cidades atendidas pelo Saee, quase sempre autarquias criadas pelos municípios para captar, tratar e distribuir de água, são Aparecida, Areias, Cruzeiro, Cunha, Guaratinguetá, Jacareí, Natividade da Serra, Paraibuna, Piquete, Potim, Santa Branca e São José do Barreiro.

Na maioria delas, as unidades do Saae vêm adotando medidas diferentes das praticadas pela Sabesp, obtendo economia no consumo e estudando medidas que incluem rodízio e racionamento em caso de agravamento de crise hídrica.

Em Cruzeiro, desde 26 de agosto o prefeito Rafic Simão (PMDB) deu poderes ao Saae para multar moradores que consumissem água de forma abusiva, lavando calçadas ou veículos. Segundo o diretor geral do Saae, Maximiliano Rubez de Castro, foi lançada uma campanha nos meios de comunicação visando a economia no consumo.

“Depois que a nossa captação, que vem da Serra da Mantiqueira, caiu de 230 litros por segundo para 180 litros, o serviço de água entrou em estado de alerta e a campanha de economia foi intensificada. Já conseguimos uma redução entre 30 e 40 litros por segundo, mas se isso não for suficiente entraremos em estado de emergência, com possibilidade de recorrermos a rodízio e até a racionamento de água”, avisa. O Saae trabalha com a meta de economizar entre 50 e 60 litros de água por segundo.

De acordo com Castro, pelo menos 70% da população já aderiu à campanha e reduziu o consumo. “Agora, esperamos que a previsão do Cptec/Inpe [Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, de Cachoeira Paulista] esteja certa e tenhamos mais chuvas no final de setembro e começo de outubro”, afirma o diretor do Saae de Cruzeiro.

Para se precaver contra novas crises, o Saae de Cruzeiro projeta construir, a médio prazo, um novo reservatório para garantir o abastecimento em todos os pontos da cidade, uma vez que o sistema atual distribui água por gravidade, prejudicando os bairros localizados em pontos mais elevados do município.

“A longo prazo, não descartamos a captação de água do rio Paraíba, caso as atuais fontes que utilizamos não sejam mais suficientes”, planeja Maximiliano de Castro. O Saae de Cruzeiro abastece com água 28 mil ligações.

Jacareí economiza
Não só em Cruzeiro houve redução no consumo de água nos serviços autônomos da RMVale. Em Jacareí, o Saae iniciou campanha educativa em fevereiro deste ano e obteve 11% de economia no mês de julho (consumo de 975 milhões de litros) em comparação com o consumo de janeiro (1,085 milhão de litros). O Saae abastece 70 mil ligações, atendendo 98% da população.

A presidente do Saae de Jacareí, Lucilene Gonçalves da Silva, atribui parte da redução à diferença entre o consumo de verão em janeiro e o de inverno, em julho. “Mas pelo menos 5% dessa economia pode ser atribuído à economia obtida com a campanha promovida pelo Saae e também à repercussão da crise hídrica na imprensa”.

Segundo ela, a campanha educativa, que até agora atingiu cinco escolas do município, será estendida a outras escolas. “Vamos abrir concurso público até o final do ano para ampliar a equipe que promove a campanha até meados do ano que vem”, explica.

As ações do Saae de Jacareí começaram com uma campanha pelo uso racional da água, em fevereiro, recomendando o reaproveitamento da água em casa. Em março, na Semana da Água, foi lançado projeto sobre educação para o uso racional da água em quatro escolas municipais e, no mês seguinte, foram distribuídos folhetos junto com as contas de água dos moradores.

O Saae ainda não trabalha com plano de rodízio ou racionamento. Segundo a autarquia, os riscos de abastecimento serão levados em conta se houver queda abrupta da vazão do rio Paraíba. “Todas essas questões são discutidas semanalmente entre a autarquia e os órgãos responsáveis –ANA e Ceivap– que monitoram o nível do rio”, informou o Saae, em nota de sua assessoria.

Aparecida critica
Com 12.127 ligações de água, que atendem os 100% da população, o Saae de Aparecida ainda não sofreu problema de desabastecimento durante a crise hídrica que a região vive. A informação é da assessoria da autarquia, que também observa que vem realizando campanhas junto ao consumidor.

“Mas as campanhas não geraram nenhuma redução de consumo até agora por falta de conscientização da população, que continua a desperdiçar água lavando calçadas e com outras práticas inadequadas”, disse o relações públicas do Saae.

Fator eleitoral 
Em nota divulgada na tarde de segunda (1), a Sabesp reiterou que “os sistemas de abastecimento operam normalmente nas 24 cidades operadas no Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira, apesar da estiagem e queda na vazão dos mananciais”. A empresa informou ainda que não há previsão de bônus para a região. A Sabesp divulgou em 14 de agosto que obteve economia de 1,7% no consumo médio diário de água no mês de junho em comparação com junho do ano passado.

A posição da empresa foi criticada pelo presidente da Frente Parlamentar de Vereadores da RMVale, o vereador de Jacareí Hernani Barreto (PT). “A posição da Sabesp é equivocada, tem um fundo político motivado pelo período eleitoral”, diz Barreto. “Passada a eleição, nós vamos ter maior clareza da posição do Governo do Estado em relação à crise hídrica”.

O representante dos vereadores da região tem sido interlocutor da ANA (Agência Nacional de Águas) e do Ceivap (Comitê Integrado da Bacia Hidrográfica do Rio Paraíba do Sul) nas discussões sobre as soluções para a interligação dos sistemas Cantareira e Jaguari.

“Talvez a transposição das águas seja inevitável”, lamenta Barreto. Ele sustenta que o Governo do Estado deveria seguir as recomendações da Cobrap -empresa contratada para analisar as opções de combate à crise. “O estudo aponta a bacia do Vale do Ribeira como a primeira alternativa e a do rio Paraíba como a sétima”, acentua.

Opositores da posição adotada pela Sabesp durante a crise hídrica acreditam que logo após a eleição de outubro o Governo do Estado mudará sua política em relação às soluções adotadas para abastecer de água o Estado de São Paulo.

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