World Trade Center joseense em xeque

Megaempreendimento pode trazer 10 mil empregos e colocar a cidade no mapa mundial de investimentos, mas São José precisa decidir se quer ou não a vinda do WTC

Escrito por: Meon Redação8 min de leitura
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Investimento bilionário, com torre de escritórios, hotel, centro de convenções e shopping center. Expectativa de 10 mil empregos gerados direta e indiretamente. Um terreno de 588 mil metros quadrados na região mais valorizada de São José dos Campos e uma lei de zoneamento urbano que impossibilita toda a investida. Esse é só o início do cenário que cerca a discussão sobre a vinda do complexo World Trade Center para São José dos Campos.

Desde que o grupo demonstrou interesse em instalar a segunda sede brasileira do WTC na cidade, há pouco mais de seis meses, a vinda do megaempreendimento se transformou em uma verdadeira novela. Uma reunião no WTC de São Paulo, com o prefeito Carlinhos Almeida (PT), junto a uma comitiva da prefeitura e vereadores da base aliada marcou o capítulo de estreia. Na ocasião, os joseenses foram recebidos pelo presidente do Conselho de Administração do grupo, Ozires Silva, pelo presidente da organização, Gilberto Bomeny e pelo diretor executivo, Luciano Menezes.

O investimento ganhou caráter de urgência na prefeitura. Os capítulos decorrentes foram de correria para articular uma mudança na lei de zoneamento no terreno no Jardim Aquarius. Classificado como ZUC1 – onde apenas edificações de até dois pavimentos e comércio de baixo impacto podem ser construídos –, a gleba só poderia receber o investimento caso fosse alterada para uma ZQA (Zona de Qualificação), que permite edificações mais altas.

Apressada, a administração chegou a anunciar as cinco audiências públicas que discutiriam a mudança do projeto para um único dia, mas recuou da decisão e os encontros aconteceram entre 24 e 28 de novembro do ano passado.

O atropelo causou desconforto até mesmo entre parte da bancada governista na Câmara, que acusou certo desprestígio por não ser consultada sobre as decisões. O desconforto foi o estopim para a criação do chamado Centrão, grupo de parlamentares dissidentes da bancada governista e que, no início do ano, conseguiu eleger o presidente da casa, o vereador Shakespeare Carvalho (PRB).

Nas audiências, outro entrave: moradores das proximidades exigiam contrapartidas viárias e questionavam a construção do megaempreendimento no local estipulado pelo grupo WTC.

Com o panorama desfavorável, a projeção da prefeitura de enviar a proposta de mudança pontual na lei de zoneamento à Câmara ainda em 2014 caiu por terra. A troca da presidência da casa e o clima de apertada maioria para o governo Carlinhos no Legislativo fez com que a discussão esfriasse.

Estratégia

O secretário de Planejamento Urbano, Miguel Sampaio, sinaliza com uma nova estratégia, de incluir a mudança de zoneamento do terreno no texto da nova lei de zoneamento, que ainda não tem previsão para ser enviado à Câmara.

“O que pretendemos é criar as condições necessárias para a atração do empreendimento. Temos que ter uma postura ativa e criar condições para a instalação desse empreendimento. Isso será feito com transparência e respeito à qualidade de vida que temos hoje. A proposta que nós vamos apresentar à cidade irá apontar soluções para o zoneamento do município como um todo. Precisamos mostrar que a cidade está disposta a receber novos investimentos”, diz.

Uma das maiores preocupações da população durante as audiências públicas que discutiram a vinda do megaempreendimento, o aumento no fluxo de trânsito nas imediações, não preocupa o secretário. Sampaio afirma que é possível equacionar a questão trabalhando com contrapartidas do grupo para instalação do WTC. Ele usa a avenida Eduardo Cury, que, recentemente, recebeu mais uma faixa para carros nos dois sentidos, como exemplo. “Isso foi negociado pela Prefeitura com empreendedores da área como uma contrapartida. É um modelo perfeitamente aplicável em relação a outros empreendimentos”, afirma.

Contra o tempo

Há mais de seis meses na espera, a direção do WTC dá mostras de que a novela pode estar se estendendo por tempo demais e acena com a possibilidade de encurtar o roteiro, deixando a cidade a ver navios.  Com outras concorrentes, como Ribeirão Preto e Campinas no páreo, a indefinição de São José pode levar o investimento bilionário para outras praças.

Para o diretor executivo do WTC, Luciano Menezes, a cidade está com a faca e o queijo na mão. O grupo só aguarda a afirmação positiva da prefeitura para dar início à construção prevista para ficar completamente pronta em um prazo de cinco anos.

“Mas antes de falar de qualquer coisa, a cidade precisa saber se quer um WTC ou não. Não temos o menor interesse em causar atrito. Mas o mundo gira, ninguém fica  esperando e as avaliações de investimento podem mudar”, adverte.

Entretanto, o CEO do grupo não é só advertência em seu discurso. Menezes admite que houve uma movimentação da cidade desde que o grupo demonstrou interesse em São José dos Campos. O executivo também compreende que investimentos dessa magnitude exigem ampla discussão com a comunidade local.

“Não acho que a cidade esteja parada. Já houve discussões na Câmara e audiências públicas. Ainda estamos no início de um namoro que pode se transformar em casamento. Um casamento vitalício, que exige tempo para ponderar o que é bom para os dois lados. As coisas estão evoluindo”, garante.

Projeto

Mesmo sem a aprovação na mudança da lei de zoneamento, o WTC apresentou, em março, um esboço do que pode ser o projeto do megaempreendimento na cidade. Além das construções já previstas, o rascunho contempla 200 mil metros quadrados dedicados a área verde, com seis lagos, quatro ruas largas e ciclovia. A medida deixaria espaço livre para que prédios menores fossem construídos em parceria com outros empresários no local.

“Seria como um novo bairro com vocação comercial. O projeto contempla toda uma área verde, lagos, ciclofaixa, calçadas mais largas. É um presente para a cidade. Seria um exemplo de ocupação do solo”, explica. “Basta ver o que é hoje a área onde há 20 anos foi instalado o WTC de São Paulo. O centro empresarial de São Paulo veio para a Avenida Berrini, que ganhou infraestrutura e obras do porte da ponte estaiada”, completa.

Na Comissão de Planejamento Urbano no Legislativo, entretanto, o projeto não agradou. O ponto de discórdia é justamente o espaço liberado para a construção de empreendimentos menores no terreno. De acordo com o vereador Roniel Soeiro (PP), relator da comissão, o projeto abre brechas para o crescimento desordenado na região.

“A gente acha interessantíssima a vinda do WTC para São José dos Campos. Mas este projeto não está muito cheiroso. Se todo o complexo pode ser construído em 100 mil metros quadrados, por que liberar 600 mil metros quadrados? Para dar espaço a mais 40 novos prédios no local? E o secretário ainda não soube explicar quantos andares serão liberados. Ou seja, do que eu vi agora, não gostei”, afirma.

Tabu

Para o urbanista e professor universitário, Carlos Eugênio Monteclaro, de Taubaté, é preciso desmistificar o conceito da verticalização. Esclarecer o tema, de acordo com o especialista, é fundamental para qualificar a discussão sobre a vinda do WTC para São José dos Campos.

A solução virou um tabu na cidade devido ao exemplo do Jardim Aquarius, que após ter liberada a verticalização, transformou-se em uma região adensada e com poucas áreas verdes. Mesmo assim, o  urbanista afirma que a cidade não pode simplesmente ignorar o recurso.

“No caso do WTC, por exemplo, tudo depende do estudo de impacto. Se apontar que há possibilidade de compensação, basta negociar a contrapartida. Não vejo com espanto esse tipo de intervenção. A malha viária na região já é bem razoável. Aumentando a oferta de transporte público acredito que a adaptação não será tão impactante”, explica.

Resistência

Entretanto, representantes de moradores dos bairros próximos demonstram insatisfação com a vinda de um megaempreendimento para a já sobrecarregada região. De acordo a presidente da Associação de Amigos do Bairro Esplanada, Maria Lúcia Fonseca Garcia, há dois principais problemas para a vinda do WTC a este terreno. O primeiro deles é a falta de contrapartida viária para comportar o impacto urbano que seria causado. O segundo é ambiental, já que o terreno conta com olhos d’agua e ainda é uma importante área verde na região, que também tem um papel de regulador climático em meio a um bairro cercado por prédios.

“Não somos contra o investimento, mas por que a construção neste terreno? A cidade tem outros locais que poderiam abrigar um megaempreendimento como este. O que atrapalha a vinda do WTC e de qualquer outro investimento para São José dos Campos é a falta de infraestrutura. Podem fazer um prédio de 100 andares, desde que tenham estrutura para absorver o impacto. Mas pelo histórico recente de São José, sabemos que isso não acontece”, explica.

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