A força da longevidade: a população idosa e a agenda das eleições

Em 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 37,5 milhões de eleitores têm 60 anos ou mais, correspondendo a 23,6% do eleitorado brasileiro

Escrito por: Luiz Eduardo dos Santos4 min de leitura
Reprodução/IA
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As próximas eleições presidenciais terão uma característica que não pode passar despercebida: o Brasil terá um eleitorado cada vez mais envelhecido. Em 2026, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 37,5 milhões de eleitores têm 60 anos ou mais, correspondendo a 23,6% do eleitorado brasileiro. Em 2022, eram 32,9 milhões, ou 21%. Em apenas quatro anos, esse contingente cresceu mais de 4,5 milhões de pessoas.

O dado é expressivo, mas talvez a questão mais importante seja outra: as demandas dessa população estão sendo consideradas na agenda política do país?

O Censo 2022 já havia revelado a dimensão da transformação demográfica. O Brasil tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, equivalentes a 15,8% da população. Esse contingente cresceu 56% desde 2010. Não estamos diante de uma tendência distante. O envelhecimento já está transformando famílias, serviços públicos, mercado de trabalho, cidades e relações sociais.

E quais são as prioridades?

A primeira é saúde. Não apenas o tratamento de doenças, mas a prevenção, a atenção primária, a reabilitação, a saúde mental e o acompanhamento das condições crônicas. Uma população que vive mais precisa de um sistema de saúde preparado para acompanhar trajetórias de envelhecimento cada vez mais longas e diversas.

Outra pauta urgente é o cuidado de longa duração. Quem cuidará de uma pessoa que perdeu parte da autonomia? Como apoiar famílias que assumem sozinhas essa responsabilidade? Como ampliar centros-dia, serviços domiciliares, instituições de longa permanência qualificadas e redes de apoio? O envelhecimento populacional exige que o cuidado deixe de ser entendido como problema exclusivamente familiar e passe a integrar definitivamente a agenda pública.

Há ainda questões relacionadas à renda, trabalho e moradia. Em 2024, as pessoas idosas já representavam 19,7% da população em idade de trabalhar, e seu contingente havia crescido 53,3% desde 2012. Para muitos, continuar trabalhando é uma necessidade; para outros, representa escolha, realização e participação social. Políticas de qualificação, combate ao idadismo e estímulo ao trabalho digno precisam acompanhar essa realidade.

Também não podemos ignorar a violência. Em 2024, a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos registrou 179.327 denúncias de violações contra pessoas idosas, aproximadamente 490 por dia. A maioria ocorreu na própria residência da vítima. Esses números mostram que proteção, prevenção da violência e fortalecimento das redes de assistência precisam estar entre as prioridades governamentais.

Mas existe uma dimensão ainda mais profunda: a pessoa idosa precisa estar presente na formulação das políticas que lhe dizem respeito. Não basta criar serviços “para idosos”. É necessário construir políticas com a participação dos idosos, ouvindo suas necessidades, experiências e projetos de vida. Isso vale para saúde, assistência social, habitação, mobilidade, cultura, educação, tecnologia e trabalho.

Essa participação também precisa chegar aos serviços públicos. Municípios e estados necessitam incorporar o envelhecimento à formação de seus gestores e equipes técnicas. Planejar uma unidade de saúde, uma praça, uma linha de ônibus, uma plataforma digital ou um programa habitacional deveria considerar, desde o início, os efeitos que essas decisões terão sobre uma população que envelhece.

Negligenciar essa agenda terá consequências sociais importantes: aumento da sobrecarga familiar, crescimento das desigualdades, maior demanda por serviços de saúde e assistência, isolamento social, violência e perda de autonomia. O custo de não planejar pode ser muito maior do que o investimento necessário para preparar o país.

As eleições de 2026 oferecem, portanto, uma oportunidade para que o envelhecimento deixe de aparecer apenas como uma questão de previdência ou saúde e passe a ser reconhecido como uma agenda transversal de desenvolvimento nacional.

A população idosa não deve ser vista apenas como um grande contingente eleitoral. É formada por cidadãos, trabalhadores, consumidores, cuidadores, empreendedores, voluntários, avós, estudantes e participantes da vida comunitária. São pessoas com direitos, desejos e projetos.

O Brasil está envelhecendo. A pergunta que precisamos fazer aos candidatos e a nós mesmos é simples: estamos preparando o país para esse novo Brasil?

Luiz Eduardo dos Santos
Luiz Eduardo dos Santos

Caminhos do Envelhecer

Luiz Eduardo dos Santos, gerontólogo, mestre em Gerontologia pela UFSCar e administrador de empresas, com atuação voltada à Saúde Coletiva, envelhecimento, direitos da pessoa idosa e qualificação de políticas públicas. Possui experiência na coordenação e assessoramento de projetos em atenção à saúde…

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