Andorra de alto a baixo

O jipão encarou com indiferença o fim do asfalto e, como se não fosse nada, embicou para o alto, as quatro rodas tracionadas mais que acostumadas ao trajeto.

Escrito por: Meon Redação4 min de leitura
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Roda-gigante em Andorra La Vella

Mônica Nobrega/Estadão

ANDORRA LA VELLA – O jipão encarou com indiferença o fim do asfalto e, como se não fosse nada, embicou para o alto, as quatro rodas tracionadas mais que acostumadas ao trajeto. Em segundos surgia uma curva em forma de cotovelo, apenas a primeira da ascensão em zigue-zague por um paredão íngreme riscado pela estradinha de terra e pedra. Do interior sacolejante do carro, a escuridão deixava entrever o precipício ora à esquerda, ora à direita, num percurso algo assustador. Tinha necessidade daquilo tudo só para visitar uma vinícola, ainda por cima à noite?

O caso é que a pergunta não faz lá muito sentido em Andorra, um minipaís entre a França e a Espanha, incrustado nos paredões dos Pireneus. Espremido, tanto quanto espremida vive a gente dali, disputando com os rios o estreito espaço nos fundos dos vales e, à falta de opção no plano, escalando montanhas. Há bairros inteiros equilibrados na vertical.

Não que falte espaço no território de 468 quilômetros quadrados habitados por 85.458 almas, a população de um Itaim Bibi esparramada pelo território de uma Porto Alegre inteira. Mas sobra inclinação, e terra é algo que não se desperdiça, nem na horizontal, nem na vertical; de modo que a Borda Sabaté (bordasabate.com) foi instalar seus vinhedos orgânicos, sua fabriqueta de 3 mil a 5 mil garrafas ao ano de vinhos biodinâmicos e seu restaurante a uma altitude de 1.100 a 1.200 metros.

A arrepiante viagem em 4×4 é a parte “com emoção” da visita turística, que continua pela planta industrial com meia dúzia de tonéis grandes, a sala de barris e a de degustação, e chega ao restaurante Le Domaine, caso se tenha optado pelo pacote com refeição (sem ela, desde US$ 20 por pessoa o tour, com reserva no 00-376-814-900). Naquela noite, foi servida uma parrilla de linguiça, ave e carne de coelho. Os anfitriões pelo jeito julgaram que o cardápio harmonizava melhor com o tempranillo Edulis 2011, da região espanhola de La Rioja, do que com o branco da casa, o riesling Escol, e o tinto, o corte de cornalin, merlot e syrah Torb, ambos sob assinatura do bem cotado enólogo francês Alain Graillot e vendidos a 40 a garrafa

Lá do alto dava para ver as luzes da cidade no fundão e das casas empoleiradas na montanha da frente, como se estivéssemos no camarote, sensação que se repete por toda Andorra: em cima ou embaixo, a vista é sempre a melhor.

O que não necessariamente se converte, vale avisar, em fotos deslumbrantes. A luz do dia cai cedo, bloqueada pelos paredões onipresentes, o que deixa tudo o que não está coberto de neve com um tom marrom-acinzentado pálido. A impressão é intensificada pelas pedras das quais são feitas as casas do centrinho histórico da capital, Andorra la Vella, e dos vilarejos do interior.

Rasgados por riachos e remendados por pontezinhas de contos de fadas, os vilarejos são ponto de embarque nos teleféricos que levam às pistas de esqui no alto da montanha – e esquiar é o principal motivo pelo qual se visita Andorra.

Passa catalão, passa francês. De tão compacto, Andorra tem vocação para lugar de passagem. Dos 8 milhões de turistas que recebe a cada ano, apenas 2,2 milhões pernoitam, e 80% são espanhóis e franceses. Com a prima-irmã Barcelona a 200 quilômetros, o país tem em comum o idioma e a ancestralidade catalã, e toma emprestado o aeroporto internacional, o mais próximo para quem vai de fora do continente europeu, caso dos brasileiros. Toulouse é a grande cidade francesa por perto: está 185 quilômetros ao norte.

Desde que a União Europeia em crise começou a pressionar Andorra para flexibilizar suas leis de sigilo bancário e deixar de ser um paraíso fiscal, há cerca de meia década, o status de free shop também entrou em declínio. A ausência de impostos nacionais em perfumes, cigarros e bebidas já não representa tanta economia – paga-se nas lojas da capital o mesmo que nos aeroportos de Barcelona e Paris. São poucas as grifes, abrigadas em multimarcas de segunda linha.

Já quem busca roupa e equipamento para esportes de inverno e ao ar livre está feito. A variedade faz brilhar os olhos. Afinal, rodeados de tanta montanha e com 90% de seu território coberto de florestas, correr, pedalar, esquiar e escalar é algo que os andorranos sabem fazer.

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DE ANDORRA TURISME

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