As tristes lições do novo coronavírus
Opinião do leitor Gustavo Montoia


Muitas agendas paralisaram com esta pandemia. Este vírus, alastrado pelo mundo, forçou à parada repentina. Todavia, o que não é possível parar é a realidade brasileira escancarada nesta urgência de saúde pública. A Covid-19 joga em nossa cara a precariedade dos brasileiros, que, como uma valsa, vivem um vai e vem de melhoras e pioras (estamos no pior momento), de conquistas que somem como a fumaça, de direitos que não se tornam mais direitos.
Possuímos uma dura realidade: diante do perigo da transmissão do vírus, as regiões Norte e Nordeste possuem apenas 43,6% de população com acesso à água pela rede. Simplificando, a cada 100 pessoas, apenas 43 pessoas possuem água encanada, enquanto no Sudeste, por exemplo, isso chega a 80%.
Segundo o Instituto Trata Brasil, apenas 48% da população brasileira possui coleta de esgoto. Diarreia, cólera, hepatite, amebíase, leptospirose são alguns exemplos de doenças geradas quando as fezes e a urina são lançadas a céu aberto em bairros precários e favelas abandonadas à sorte. Como exigir higiene em tempos de pandemia em uma situação tão precária?
Para aqueles preocupados com a economia e as consequências que esta retração pode provocar, e realidade é que 40% da renda em nosso país está nas mãos de apenas 10% da população. Os ricos no Brasil tem uma renda, aproximadamente, 34 vezes maior que 50% dos mais pobres do país. Como afirmou o geógrafo Milton Santos, os pobres sempre estiveram em crise!
Apesar de alguns dados considerarem um número de quase 13 milhões de desempregados, o país possui quase 40 milhões de pessoas em situação de emprego informal. O empregado informal não possui final de semana remunerado, férias pagas ou descontos que garantem aposentadoria. Como essas pessoas vão se manter? Devem arriscar as suas vidas pelas ruas em tempos de transmissão?
Sabemos que o Governo Federal e os governos estaduais estão atuando diante dessa crise terrível que estamos vivendo. Algumas medidas provisórias do Planalto e a recente renda aprovada pelo Congresso, apesar de pensadas no “meio do caminho” tendem a atenuar a realidade socioeconômica de trabalhadores e microempresários.
Contudo, esta pandemia revelou as necessidades não resolvidas em nosso país. Revelou um país com discursos falsos: o Brasil real recebe um belo discurso, seja ele socioeconômico ou religioso, enquanto os bolsos dos ricos entesouram lucros, tamanha é a distância social entre condomínios e favelas.
A ausência de um saneamento básico universalizado, as desigualdades regionais, a gritante situação do pobre são tristes lições que hoje percebemos o quanto fomos reprovados nelas! Entretanto, outra lição teremos em um futuro próximo: o Brasil já não é mais o país jovem que tanto nos iludimos. E não seremos já em 2030, onde o país terá 43 milhões de idosos, sendo considerada a 5ª população mais idosa do mundo.
Como vamos nos preparar para esta realidade? Em um século de futuras epidemias, o que reserva à esta população? O que reserva aos atuais 28 milhões de idosos? Precisamos cuidar de nossos avós lembrando que seremos os avós de 2030.
Esta pandemia também exige que cada brasileiro olhe para esta nação tão desigual, nesta reprovação enquanto exercício de Estado. O que parece é que o fracasso social sempre foi um projeto. E diante desta dura realidade, aceitar o desafio de que a esperança deverá vir de cada um de nós: na prudência que o momento exige, nos cuidados pessoais, na solidariedade já atuante para aqueles que precisam, no entendimento que o país será melhor quando o outro, em uma situação pior, começar a viver dignamente. E que estas tristes lições, gerem sensibilidade, pois no sentimento mais puro de ver o outro como um ser igual a nós, é que vem a esperança que precisamos!
* Gustavo Montoia é geógrafo e doutor em Planejamento Urbano e Regional pela UNIVAP. É docente dos Colégios Univap e da EE Francisco Feliciano F. da Silva (Verdinho), além de pesquisador-colaborador do Laboratório de Estudos das Cidades da Universidade do Vale do Paraíba.
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