Autistas de São José esperam 2 anos ou mais na fila por consultas na rede municipal
Pacientes precisam de consultas com neurologistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos e outros especialistas

Munícipes de São José dos Campos diagnosticados com autismo e síndrome de asperger esperam dois anos ou até mais tempo para obter consulta com neurologistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais da saúde da rede pública da cidade, necessários ao tratamento do transtorno.
No começo deste mês, os familiares dessas pessoas fizeram um protesto pela melhora no atendimento médico do município. Os responsáveis, na maioria mães de autistas, vêm relatando o quão é difícil conseguir consulta com um especialista.
Alta demanda
“Um projeto que é lindo no papel, na prática é só uma migalha oferecida a um pequeno grupo, bem pequeno mesmo, só para a prefeitura ter uma resposta quando indagada sobre o que é oferecido aos autistas da cidade”, disse Thays Nunes, uma dos participantes da manifestação.
“Estamos jogados ao relento. Meu filho tem um pedido para neuro faz um ano, com pedido de urgência, e nada. Ligo na central, o que me falam é que não tem vaga e é preciso esperar. A suspeita de autismo e de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), só quem convive sabe quanto é difícil conviver com a incerteza e o não diagnóstico, hoje não tenho a mínima condição de manter um tratamento particular”, desabafou Adriane Renata, outra mãe.
“Hoje, eu tenho o privilégio de ter um convênio, de o meu filho ser autista leve e ele ter acesso a terapias e bons médicos. Mas, essa não é a realidade de 90% das famílias. Tem mãezinhas no meu grupo que foram abandonadas por seus cônjuges e famílias, carregam seus filhos no braço em busca de ajuda, muitos não andam, nem falam, sofrem com crises terríveis, não conseguem médicos e nem terapias. É de cortar o coração os testemunhos. Estão sobrecarregados, estressados, deprimidos e falam até em suicídio. Não dá para romantizar o autismo. É difícil, doloroso. Sem ajuda, então, meu Deus! Essa cidade tem condições de dar apoio a essas famílias e é isso que queremos!”, disse Cássia Constantino.
“Sou mãe de um autista. Não é fácil e hoje comecei um processo na justiça por um tratamento digno para o meu filho e eu vou lutar e vou conseguir o melhor para ele”, afirmou Mariana Quirino, também mãe.
“Estou há três anos esperando fono, já não tem mais para quem recorrer, já reclamei, já pedi, já falei com vereador e nada, ninguém tem uma solução”, criticou Cristina Lima.
“São cinco anos esperando uma vaga para T.O. (Terapia Ocupacional)”, afirmou Jacqueline Hoffmann, também mãe de autista.
“Sempre ligo na prefeitura, eles falam que é para eu chamar meu filho, porque ele é maior, para ver se ele concorda (com o acompanhamento), mas ele tem autismo. Na hora de fazer a ficha no Cras (Centro de Referência de Assistência Social) colocam ele junto comigo, agora, na hora de pedir informação, ele tem que autorizar. O problema do meu filho é deficiência intelectual. Ele te síndrome de asperger. Ele entregou o laudo na UBS (Unidade Básica de Saúde), o pessoal fala com ele mas ele não entende, porque tem problema no processo auditivo, por isso precisa do fono. Ele está no projeto Sorri, eles encaminham para um trabalho, mas como meu filho vai aprender a trabalhar ou entender o que for explicado para ele, se ele ouve mas o cérebro não processa? A médica disse que precisa ativar o cérebro dele. Agora, dois anos esperando fono. Ele fica animado para ir para a aula, mas se ele está entendendo, eu não sei. (…) Estou desesperada”, relatou Janice Basílio, que, há dois anos, aguarda consulta com fonoaudiólogo e psicólogo para o filho Leandro, de 24 anos, diagnosticado com síndrome de asperger.
RIA
O projeto RIA (Rede de Inclusão do Autista), referido por algumas mães, é mantido pela Prefeitura de São José e identifica, monitora e busca incluir munícipes diagnosticados com TEA (Transtorno do Espectro Autista) nos serviços públicos, conforme a necessidade de cada um.
Demais serviços incluem atendimento de saúde mental, atividades com fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais nas Unidades de Reabilitação, assim como o atendimento na Unidade de Especialidades em Saúde. Embora envolva diversas pastas, como Apoio Social ao Cidadão, Educação e Cidadania e até Mobilidade Urbana, o RIA, como se vê pelos depoimentos, não dá conta de atender à demanda da cidade.
Resposta
Sobre o caso de dona Janice, a prefeitura respondeu que “orienta o paciente/família a atualizar seus dados na UBS, Central 156 ou no aplicativo Saúde na Mão para que a Central de Agendamentos possa marcar futuras consultas”. A reportagem informou à Secretaria Municipal de Saúde, via assessoria de imprensa, os números de protocolos de ao menos três ligações feitas pela mãe ao 156 e seu número de celular, assim como o número de cadastro de Leandro no Cras, mas não obteve informações sobre a previsão de atendimento com psicólogo e fonoaudiólogo no caso deles.
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