‘Blackstar’ mostra a capacidade de se reinventar de David Bowie

Sabe quando você está morrendo de sede e bebe aquele copo d’água gelado? É a mesma sensação de passar dias ouvindo o lixo que impera na orla litorânea durante o verão brasileiro, para numa sexta-feira ensolarada ganhar de presente o novo disco de David Bowie, “Blackstar”. O 25º disco da carreira deste senhor que completa […]

Escrito por: Adriano Pereira3 min de leitura
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Sabe quando você está morrendo de sede e bebe aquele copo d’água gelado? É a mesma sensação de passar dias ouvindo o lixo que impera na orla litorânea durante o verão brasileiro, para numa sexta-feira ensolarada ganhar de presente o novo disco de David Bowie, “Blackstar”.

O 25º disco da carreira deste senhor que completa hoje 69 anos é talvez o menos pop desde os anos 70. Definir quem é David Bowie é um desafio para qualquer crítico musical do mundo. Dos passeios espaciais de Ziggy Stardust ao pop de “Let’s Dance”, o único elo entre todas as obras do músico é a qualidade artística inegável e aclamada.

Com “Blackstar” não é diferente, aliás, parece que essa diversidade musical – antes representada em discos diferentes – está agrupada em um único trabalho. Há uma aproximação mais nítida com o jazz, mas o risco de criar rótulos e quebrar a cara na “próxima música” é grande.

A faixa que dá título ao disco com sua melancolia inicial revela o saxofone de DonnyMcCaslin, músico que deu corpo ao trabalho todo. Aliás, tirando o produtor Tony Visconti – amigo e parceiro profissional de longa data – a banda que gravou “Blackstar” é inteiramente nova.

Mas voltando à música, a canção “Blackstar” parece um turn over cinematográfico quando da harmonia descompassada vai para uma melodia vocal mais fluida, mas que ao mesmo tempo guarda algo perturbador. São quase 10 minutos que te fazem viajar de um lado para o outro em asfalto novo, sem buracos no caminho.

A sequência com “‘Tis a Pity She Was a Whore” eleva o astral do álbum com uma mistura asfixiante de instrumentos – principalmente o saxofone. “Lazarus” é a terceira faixa do disco, uma canção que faz você imaginar cenas noturnas de uma capital chuvosa, na qual as luzes dos carros e dos postes criam aqueles efeitos na vista. Ela tem um crescente lento, criativo e agradável.

“Sue (Or In a Season of Crime)” é a mais rock do disco. Guarda tons menores meio sombrios, com ares desafiadores do rock industrial que lembra a produção de Bowie nos anos 90. “Girls Love Me” traz gírias tiradas do filme “Laranja Mecânica” (Stanley Kubrick, 1971) em um clima robótico e marcado. Soa um pouco estranha e talvez seja a ponta fraca de “Blackstar”. Porém, entenda, a ponta fraca de Bowie ainda é mais forte do que a da maioria.

O álbum traz só mais duas faixas, infelizmente. “Dollar Days” faz lembra o famoso “Major Tom” chamando a base no planeta Terra, provavelmente por conta dos violões e pela melodia limpa e redonda. “I Can’t Everything Away” finaliza o disco como se fosse uma mensagem de um músico que não quer se entregar e que ainda se reinventa.

Na realidade, “Blackstar” prova que o talento ainda é o que pesa quando se trata de música. Aqui não há remixes, vocalizações de pseudo divas do pop, caminhos fáceis e fórmulas prontas. Bowie mostra que para se fazer boa música basta ser um artista de verdade, o resto você escuta saindo de algum porta-malas cheio de cerveja.

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