Bonete, um paraíso em busca da luz!

Que o Bonete é um pedaço do paraíso,é considerada uma das praias mais belas do mundo, os frequentadores e moradores já sabem! Que a paisagem bucólica faz parte do visual desse bairro do município de Ilhabela, no extremo sul, e mais parece um pedacinho fora do mundo, isso também não é novidade

Escrito por: Mara Cirino5 min de leitura
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Bonete é uma das atrações de Ilhabela

Jorge Mesquita/IL

Que o Bonete é um pedaço do paraíso, considerada uma das praias mais belas do mundo, os frequentadores e moradores já sabem! Que a paisagem bucólica faz parte do visual desse bairro do município de Ilhabela, no extremo sul, e mais parece um pedacinho fora do mundo, isso também não é novidade!

A vila, que tem hoje em torno de 250 moradores, é procurada por amantes do ecoturismo e do sossego. Conserva a tradição de um vilarejo afastado de tudo, afinal, lá só se chega de barco ou na caminhada que pode levar até quatro horas pela mata, passando por cachoeiras e trilhas, no Parque Estadual de Ilhabela (PEI).

Mas apesar de todo esse ar saudosista de vila de pescador, a modernidade busca seu caminho e o mais interessante é que são os mais velhos que procuram uma das facilidades da vida moderna, tão comum nas grandes cidades brasileiras.

Trata-se da energia elétrica, uma conquista que com ela traz o uso da geladeira, fogão elétrico, televisor e até celular. O vilarejo tem um sistema considerado arcaico para uma parte que mora lá. Há uma corrente que defende que é melhor assim, pois é um atrativo a mais para os turistas que vão em busca de tranquilidade.

Seu Benedito Liodônio de Souza, mais conhecido por Paixão, tem 86 anos. Apesar da idade avançada, é profundo conhecedor do Bonete, onde nasceu e viveu. O morador conta que sente necessidade de mais benfeitorias para lá. Por benfeitora entenda-se energia, que é sua principal reivindicação. “Não estamos mais no tempo da escravidão e somos escravos aqui porque dependemos da energia na hora que tem. Isso é vergonhoso”, dispara.

Sua revolta foi maior porque dia desses fazia inalação e o aparelho parou de funcionar quando ‘terminou’ o horário de funcionamento da turbina elétrica e do gerador a diesel que abastecem a vila.

O funcionário, Oeliton da Luz de Jesus é encarregado de ligar e desligar os equipamentos que funcionam das 9h às 12h e das 18h às 23h, com alternância entre eles, mas alguns moradores relatam que o período é menor, muitas vezes, os equipamentos só funcionam na parte da noite.

Alternativa
A ‘usina’ foi construída em 2000, no governo da ex-prefeita Nilce Signorini, como bem lembra seu Ademar Honório dos Santos, 72 anos, que foi um dos trabalhadores que construiu o sistema de captação de água, em 35 dias, para a geração de energia pela turbina. Na ocasião, ela foi feita para atender 60 moradias e hoje são 130. Com isso, a capacidade de atendimento a todos é precária, ficando a luz fraca. “A gente não pode nem ter algo diferente para comer, como um frango, porque a comida estraga quando a energia é desligada e geladeira descongela”, lamenta a esposa de seu Ademar, Lurdes Leopoldo dos Santos, também de 72 anos.

O principal pedido desses moradores é para que a Prefeitura de Ilhabela desse um jeito de levar energia para o Bonete, mesmo que fosse por cabo, mas que funcionasse o dia todo. Hélio de Souza, 65 anos, ex-presidente da antiga Associação dos Moradores do Bonete e funcionária público, é taxativo em dizer: “não estamos mais no século 19 para viver desse jeito, à base de lamparina, com o nariz cheio de fuligem e refém dos geradores”.

Da outra ponta, o hoteleiro André Queiroz dos Santos, 33 anos, dono da única pousada no Bonete e presidente da Associação Bonete Sempre, entende que trazer energia para o bairro não significa abrir a trilha para a passagem de carros. “Não queremos acabar com o que temos aqui, a prefeitura quer fazer pontes sobre as cachoeiras para passar o material e isso não concordamos. Se quiser trazemos esse material sem necessidade de abrir a estrada”, explica.

Ele lembra que a mini hidrelétrica nunca passou por uma reforma, apenas manutenções pontuais, e que hoje em dia a luz só fica um pouco razoável quando se tem bastante água na cachoeira (pela quantidade da chuva – mas se chover muita ela fica ‘alagada’ e também não funciona). Assim, cada casa tem um limitador com disjuntor de três amperes, por isso o consumo é controlado.

“Às vezes, não conseguíamos acender uma lâmpada à noite, nas geladeiras, com o mau funcionamento e oscilação, se perdia muitas coisas, além da grande quebra de tudo, televisão, lâmpadas, geladeiras. Nada durava muito por este sobe e desce da luz”.

Agora, conforme André Santos, a associação Bonete Sempre está com um projeto praticamente pronto para uma reforma total da hidrelétrica, oque possibilitaria ter uma luz estável e boa para a comunidade, porém limitada. “Poderia se estudar uma maneira de vir a luz da cidade pela Elecktro, mas de forma alternativa , sem abertura de estrada, teriam que ver uma maneira de ser com cabo enterrado, ou outras formas”, sugere.

Diante desse impasse de não se permitir a abertura da trilha, o prefeito Antonio Colucci relata que não tem como estender a rede de distribuição de energia para o bairro. “A estrada é necessária para se fazer a manutenção e colocação de postes. Não há outra maneira”, observa, acrescentando que é necessário um acordo entre a comunidade e os órgãos ambientais como Cetesb e PEI para a ‘entrada’ na trilha.

Como solução emergencial, há pouco mais de um ano, o Instituto Bonete, formado pelos veranistas e amantes do Bonete doaram o gerador a diesel forte, enquanto não se consegue outra alternativa.

Nessa história toda, o que também incomoda a comunidade é que com a turbina elétrica pagavam contribuição de R$ 10 por mês, agora com o gerador o custo foi para R$ 30 mensais e ainda assim não serve para o dia todo devido ao custo de R$ 4 mil para manutenção e funcionário. Diariamente é usado um tambor de 50 litros. Se fosse mais, o custo seria bem elevado para a comunidade tradicional.

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