Acordo UE–Mercosul reforça papel estratégico do agronegócio brasileiro
Veja o que pode mudar para o país

A possível consolidação do acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, com votação prevista para esta sexta-feira, ocorre em um momento considerado decisivo para o agronegócio brasileiro. Mais do que ampliar o acesso a um novo mercado, o tratado surge como alternativa estratégica diante das mudanças no comércio global, especialmente com a adoção de limites mais rígidos pela China, principal destino da carne bovina do Brasil.
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Após mais de 20 anos de negociações, o acordo UE–Mercosul pode provocar uma das maiores reconfigurações do comércio agrícola internacional. Para o Brasil, abre-se a possibilidade de ampliar exportações com maior valor agregado para um mercado exigente e institucionalmente mais previsível. Para os europeus, o desafio é equilibrar interesses geopolíticos, compromissos ambientais e a pressão de produtores rurais locais.
Segundo o professor Marcos Jank, do Insper Agro, a disposição da União Europeia em avançar com o acordo vai além do comércio. Em entrevista à CNN Brasil, ele destacou que o bloco busca fortalecer alianças estratégicas diante do atual cenário geopolítico, marcado pela aproximação entre Rússia e China e pelo reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina.
“A UE vê o Mercosul não apenas como parceiro econômico, mas também estratégico em termos de segurança alimentar e geopolítica”, afirmou.
Peso do agro brasileiro nas relações com a UE
Mesmo sem o acordo em vigor, a União Europeia já desempenha papel relevante nas exportações do agronegócio brasileiro. De janeiro a novembro de 2025, as vendas agropecuárias para o bloco somaram US$ 22,89 bilhões, segundo dados do Agrostat, do Ministério da Agricultura. Embora abaixo do registrado no mesmo período de 2024, o volume manteve forte representatividade nas exportações do setor.
A carne bovina se destaca entre os principais produtos. Os embarques para a UE alcançaram US$ 820,15 milhões no período, alta de 83,2% em relação ao ano anterior, ficando atrás apenas de China e Estados Unidos. No café verde, o bloco europeu foi o principal destino, com US$ 6,43 bilhões em exportações. O complexo soja, a carne de frango e a celulose também figuram entre os produtos de maior peso na pauta comercial.
Com a entrada em vigor do acordo, está prevista a redução ou eliminação de tarifas para itens como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose, o que pode ampliar ainda mais a competitividade brasileira no mercado europeu.
Concessões e salvaguardas europeias
Para reduzir resistências internas, especialmente entre agricultores de países como França, Itália e Hungria, a Comissão Europeia anunciou concessões importantes. Entre elas, a proposta de zerar tarifas de importação sobre fertilizantes essenciais, como ureia e amônia, além da possibilidade de suspensão temporária da taxa de carbono na fronteira (CBAM) para alguns produtos.
Ao mesmo tempo, a UE reforçou mecanismos de proteção. Um “gatilho automático” permitirá a adoção de medidas corretivas caso as importações agrícolas do Mercosul cresçam mais de 8% em relação ao ano anterior, especialmente em cadeias sensíveis como carne bovina, frango e açúcar. As exigências ambientais, como combate ao desmatamento e rastreabilidade da produção, seguem como pontos centrais de tensão.
Resistência no campo europeu e cenário global
O acordo enfrenta forte oposição de agricultores europeus, que temem concorrência com produtos do Mercosul, considerados mais baratos e produzidos sob regras ambientais menos rígidas. Protestos e pressões políticas têm sido frequentes, sobretudo na França.
Para o ex-embaixador Rubens Barbosa, a resistência não é direcionada exclusivamente ao Mercosul. “Reflete disputas internas entre produtores tradicionais e emergentes dentro da própria UE. O Brasil acaba sendo alvo externo dessas tensões”, avaliou.
Enquanto isso, a China, principal mercado da carne bovina brasileira, anunciou a adoção de um sistema de cotas a partir de janeiro de 2026, o que reforça a necessidade de diversificação. Em 2025, quase metade da carne exportada pelo Brasil teve como destino o país asiático.
Europa como alternativa estratégica
Nesse contexto, o acordo UE–Mercosul ganha peso estratégico. Apesar das exigências rigorosas, o mercado europeu oferece maior previsibilidade institucional e maior valor agregado aos produtos. Para Marcos Jank, o tratado é positivo para ambos os blocos, desde que o Brasil transforme as exigências em vantagem competitiva.
“A diversificação de mercados deixa de ser opção e passa a ser uma estratégia central para o futuro do agronegócio brasileiro”, afirmou.
Rubens Barbosa reforça que o principal desafio será alinhar política externa e estratégia comercial, de modo a ampliar oportunidades sem expor o país a choques externos em um cenário global cada vez mais protecionista.
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