Brasil

Montadoras criticam governos após encerrar 2020 com retomada em V

"O Brasil precisa melhorar a competitividade, senão vai ficar exportando apenas soja, minério e petróleo", disse o presidente da Anfavea (associação das montadoras)

Escrito por FolhaPress

09 JAN 2021 - 11H53 (Atualizada em 09 JAN 2021 - 13H53)

carros

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em entrevista coletiva nesta sexta-feira (8), logo após apresentar os resultados do setor automotivo em 2020, Luiz Carlos Moraes, presidente da Anfavea (associação das montadoras), mandou recados ao ministro da Economia, Paulo Guedes, e ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

"Não houve, substancialmente, nenhuma evolução nestes dois anos", disse o executivo, em referência à reforma tributária e a um esperado plano de auxílio para a indústria. "O Brasil precisa melhorar a competitividade, senão vai ficar exportando apenas soja, minério e petróleo."

Para Doria, a mensagem é de repúdio ao aumento do ICMS. "A gente entende que não é o momento de aumentar a carga tributária, que afeta os investimentos e cria um outro elemento que não estava no nosso radar", afirmou Moraes sobre o que define ter sido uma "surpresa desagradável".

Demonstrar insatisfação em praça pública é algo raro no setor automotivo e mostra o quanto as relações mudaram ao longo de 2020, ano que beirou o desastre e terminou com alta vultosa na venda de carros --uma retomada em "V", do jeito que o ministro gosta.

Foram comercializados 469 mil veículos leves e pesados no último bimestre. Em comparação a novembro e dezembro de 2019, houve queda de 7,1%. É um resultado soberbo diante das perdas registradas em abril e maio, quando houve retração de 75,3% em relação a igual período do ano passado.

No acumulado do ano, os emplacamentos caíram 26,2%, para 2,06 milhões de unidades.

Já a produção de veículos registrou queda de 31,5% em comparação a 2019 --foram montados 2,01 milhões de carros em 2020. O resultado está em linha com as previsões divulgadas pela Anfavea entre setembro e outubro, já considerando a retomada. Em julho, o tombo era estimado em 45%.

O resultado confirma a recuperação do setor no segundo semestre e faz a entidade projetar crescimento de 25% na fabricação de veículos em 2021, para suprir a demanda nos mercados interno e externo.

Moraes afirma que a estimativa de crescimento pode parecer boa, mas uma produção de 2,52 milhões neste ano ainda equivale a apenas 50% da capacidade instalada na indústria automotiva.

Problemas com o fornecimento de peças foram contornados em dezembro, que terminou com 209,3 mil unidades produzidas --alta de 22,8% ante o mesmo mês de 2019, mas queda de 12,1% em relação a novembro.

Segundo o presidente da Anfavea, a situação ainda não está normalizada. O executivo afirma que o avanço da pandemia pode afetar fornecedores e até o trabalho de desembaraço nos portos.

A entidade estuda possibilidades para antecipar a vacinação de seus funcionários e poder acelerar o ritmo nas fábricas, mas depende do posicionamento dos governos e da possibilidade de adquirir os insumos para realizar campanhas em seus ambulatórios.

Mas, apesar dos problemas, os bons resultados dão confiança para a indústria automotiva marcar território e, de certa forma, devolver as alfinetadas que recebeu de Guedes no começo do governo Bolsonaro (sem partido). O então recém-empossado ministro criticava com frequência a política de subsídios concedidos às montadoras há décadas.

Ao longo do ano, fabricantes cobraram o pagamento de créditos tributários prometidos sob Dilma Rousseff (PT), se queixaram da falta de apoio do BNDES e agora, em 2021, direcionam críticas para Doria.

O setor mais prejudicado pela mudança do ICMS é o de veículos usados. A nova forma de calcular o imposto representa aumento de 207% no tributo. A partir do dia 15, a alíquota passa de 1,8% para 5,53%. Dessa forma, um lojista que pagava R$ 900 de imposto ao negociar um carro usado por R$ 50 mil verá o valor subir para R$ 2.765.

Para os automóveis zero-quilômetro, a alíquota passará de 12% para 13,3% no dia 15 e sofrerá novo reajuste em abril, para 14,5%.

Em protesto, revendedores de São Paulo devem fechar as lojas neste sábado (9) e prometem fazer carreatas pelo estado. O movimento tem o apoio da Fenauto, entidade que representa os lojistas.

Associada ao avanço da pandemia de Covid-19 no país, a questão tributária em São Paulo fez a Anfavea ser mais conservadora em suas projeções para 2021. A entidade acredita que as vendas terão alta de, ao menos, 15% em comparação a 2020, ano em que a comercialização registrou queda de 26,2%. Os dados incluem carros de passeio, veículos comerciais leves, ônibus e caminhões.

O número previsto para este ano equivale a uma média diária inferior a 10 mil unidades, número bem abaixo dos últimos meses de 2020.

A projeção da Anfavea se aproxima do cálculo da Fenabrave. A entidade que representa os distribuidores prevê altas de 15,8% nas vendas de automóveis e de 17,6% no segmento de motos, mas condiciona o resultado a uma mudança de ideia do governo paulista.

"Lamentavelmente, há esse plano de majorar o imposto estadual. São Paulo representa 29% do mercado brasileiro, com 78 mil empregos diretos nas concessionárias. Se esse aumento for colocado em abril, vamos reduzir as previsões de crescimento para o ano", diz Alarico Assumpção Jr., presidente da Fenabrave.

As posições das entidades ligadas ao varejo revelam o alinhamento com a Anfavea. É mais um sinal da mudança de comportamento após um ano de distanciamento das estâncias governamentais.

As montadoras instaladas no Sudeste ainda não digeriram a prorrogação de benefícios tributários concedidos ao Centro-Oeste ao Nordeste. O prejuízo torna-se maior com a mudança do ICMS paulista.

Segundo o presidente da Anfavea, o reajuste do tributo será levado em conta pelas montadoras na hora de decidir para qual local serão direcionados os novos aportes. Até então, São Paulo era visto como um porto seguro para o setor, apesar de não oferecer as mesmas vantagens fiscais disponíveis em outras regiões.

Em março de 2019, após a Ford anunciar o fechamento de sua fábrica em São Bernardo do Campo (SP) e a GM falar sobre os riscos a suas operações no país, Doria lançou o programa IncentivAuto, que previa descontos de até 25% pagamento do ICMS a montadoras que investissem mais de R$ 1 bilhão e criassem ao menos 400 postos de trabalho no estado. Entretanto, a pandemia alterou o cenário.

*

Relembre, mês a mês, o 2020 da indústria automotiva brasileira

Janeiro

Mudança na placa dos automóveis para o padrão Mercosul gera retenção de licenciamentos em São Paulo e, devido as férias coletivas, há queda de 3,9% na produção na comparação com o mesmo mês de 2019. A Anfavea monitora a situação na China, que tem fábricas de componentes paralisadas.

Fevereiro

A falta de peças importadas se agrava, e a Anfavea afirma que a produção pode ser interrompida —a China é a maior fornecedora de componentes para o Brasil, com 13% de um mercado estimado em US$ 13 bilhões. Montadoras anunciam que o Salão do Automóvel de São Paulo, que ocorreria em novembro, está cancelado.

Março

A produção de veículos leves e pesados cai 21,1% em relação a março de 2019. Fábricas são fechadas em 10 estados e 40 cidades devido à Covid-19. Montadoras têm problemas de liquidez, se queixam das taxas cobradas pelos bancos e tentam obter algum auxílio por meio do BNDES.

Abril

Apenas 1.800 veículos são produzidos, uma queda de 99,4% em comparação a abril de 2019. É o pior resultado desde que a indústria automotiva nacional foi estabelecida oficialmente, na segunda metade da década de 1950. Com lojas fechadas, o estoque disponível é suficiente para atender a quatro meses de vendas.

Maio

A Anfavea revisa as previsões para o ano e estima retração de 40% na venda de veículos em 2020. A desvalorização do real perante o dólar afeta a rentabilidade das montadoras e força aumentos de preço nas concessionárias. O mês termina com 43.080 veículos produzidos, queda de 90,8% em comparação a maio de 2019, e há demissões. A Nissan corta 398 funcionários na fábrica de Resende (RJ).

Junho

A produção de veículos leves e pesados cai 50,5% no primeiro semestre de 2020 em relação ao mesmo período de 2019. Fábricas operam em turno único e com medidas de distanciamento nas linhas de montagem. Anfavea prevê queda de 45% na fabricação em 2020, mas as vendas dão sinais de recuperação.

Julho

Montadoras acumulam cerca de 3.000 demissões desde o início da pandemia. A produção começa a se recuperar, apesar da queda de 36,2% na comparação com julho de 2019. Com 174,5 mil emplacamentos, as vendas registram alta de 31,4% sobre junho.

Agosto

A produção volta a ultrapassar a marca de 200 mil unidades no mês, mas a queda acumulada é de 44,8% no ano. As montadoras perdem a esperança de receber auxílio do governo por meio do BNDES.

Setembro

Retomada do comércio em países vizinhos faz exportações voltarem a crescer, apesar de a base de comparação ser baixa. No mercado interno, terceiro trimestre confirma recuperação. Foram vendidos 250,7 mil veículos entre abril e junho, número que salta para 565,5 mil de julho a setembro, crescimento de 125,5%.

Outubro

A Anfavea revisa as previsões de produção e vendas em 2020. O tombo nos emplacamentos, antes calculado em 40% na comparação com o ano anterior, agora é estimado em 31%. Na produção, a expectativa de retração passou de 45% para 35%. A produção de veículos tem alta de 7,4% na comparação com setembro. Os estoques estão baixos, e as concessionárias registram filas de espera por alguns modelos e versões, principalmente as de menor preço

Novembro

A falta de componentes nas linhas de produção se agrava, e as montadoras entram em atrito com a indústria do aço, insumo que é cotado em dólar e acumula seguidas altas. Locadoras aguardam a entrega de 40 mil carros para renovar suas frotas e não revendem os modelos antigos. Situação leva a desequilíbrio no setor automotivo, com falta de carros novos e usados.

Dezembro

Os emplacamentos de veículos leves e pesados registram queda de 26,2% em 2020 na comparação com 2019. A Fenabrave, que representa os revendedores, prevê forte retomada em 2021, com altas de 15,8% nas vendas de automóveis e de 17,6% no segmento de motos.

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