Canção do exílio
O homem medieval vivia numa floresta junto aos enigmas escondidos que traziam o sentido divino de sua criação. Nós, “modernos de criação”, enxergarmos o mundo pronto, como a mobília de nossas casas. E como morremos de medo o tempo todo, vivemos uma espécie de saudade do encantamento do mundo, satisfazendo essa nostalgia com o sobrenatural. […]

O homem medieval vivia numa floresta junto aos enigmas escondidos que traziam o sentido divino de sua criação. Nós, “modernos de criação”, enxergarmos o mundo pronto, como a mobília de nossas casas. E como morremos de medo o tempo todo, vivemos uma espécie de saudade do encantamento do mundo, satisfazendo essa nostalgia com o sobrenatural.
A literatura, por exemplo, supriu a leitura misteriosa do mundo. Edgard Allan Poe se tornou um clássico, porque adoramos fantasmas e mortos-vivos. Os livros de fábulas, que o mundo não resiste em ler, é a prova perfeita do desencanto: atrás dos enigmas, há um homem comum, como todos nós.
A única forma de encantamento que nos resta é a que se vive nas cidades, onde uma rua é cruzada por pessoas cheias de desejo, que trancam, em si, todos os sonhos do mundo. Por isso troquei São Paulo pela floresta, e encontrei meu Monte Everest. Por isso continuarei mergulhado na polifonia consonante das cachoeiras de pássaros, com os braços abertos, no mais incessante voo da vida.
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