Cineasta taubateano faz parte de júri que vai escolher filmes brasileiros para o Oscar
Em Taubaté, aos fundos do bar Jardim Cultural em uma sexta-feira qualquer está Jeferson De. O homem negro, de cabelos black power, não é abordado por ninguém e beberica seu refrigerante.


Jeferson De, diretor do filme “Bróder” (2010)
Divulgação
Em Taubaté, nos fundos do bar Jardim Cultural em uma sexta-feira qualquer, está Jeferson De. O homem negro, de cabelos black power, passa despercebido enquanto bebe seu refrigerante.
Ali, o que poucos sabem é que o cineasta de 45 anos é um dos importantes nomes da nova geração do cinema brasileiro e, mais recentemente, foi nomeado pelo Ministério da Cultura para participar da Comissão Especial de Seleção dos filmes brasileiros que vão concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2015.
“É uma coisa muito importante para mim. Vou escolher os melhores filmes do Brasil no ano. E é aquela coisa, sou de Taubaté, cresci no Jardim Resende, na vila da antiga Mecânica Pesada [hoje a empresa Alstom]. Eu saí de Taubaté”, diz Jeferson, por telefone, depois que trocamos contatos no bar.
As credenciais do diretor de cinema contam com a criação do filme “Bróder” (2010), vencedor nos festivais de Paulínia e Gramado, e prestigiado no Festival de Berlim, na Alemanha. O longa mostra a história de três jovens de diferentes visões de mundo no Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo.
“Pô, mas é normal o pessoal não me reconhecer. Eles lembram do Caio Blat, daquele filme que passou à noite na Globo”, conta, com um sorriso no rosto. “Bróder” foi resultado de um laboratório de roteiros do Instituto Sundance, nos EUA, teve parcerias de Cacá Diegues e Daniel Filho na produção e foi a sua estreia em longas-metragens.
Ao relatar sobre a sessão do filme em Berlim, Jeferson conta que chorava ao ver “a sala lotada, com mil pessoas aplaudindo o filme”. Foi entrevistado pela revista americana Variety e pôde conhecer Wim Wenders e meio mundo. “Descobri que eu existia, vi que aquele moleque do Jardim Resende estava no caminho certo”.
A partir dali, em 2010, Jeferson foi editor e finalizador em programas da MTV e SBT, dirigiu episódios do “Conexões Urbanas”, do canal Multishow, e “Brasil Total”, do Fantástico, apresentado por Regina Casé. Até o fim do ano, lança seu segundo longa “Celulares”, com atuações de Maria Fernanda Cândido, Bruna Linzmayer e Michel Melamed -um filme de suspense e bruxaria, diferente das questões de crítica social tratadas em “Bróder”.
Mazzaropi
O então garoto Jeferson sentiu curiosidade pela sétima arte quando, nos anos 1980, batia cartão no extinto Cine Palace, que era o principal cinema de Taubaté. Também via todos os dias a parafernalha do set de gravação dos filmes do cineasta Amácio Mazzaropi, que gravava próximo à sua escola no bairro do Quiririm, em Taubaté.
“Eu não faço comédia como o Mazzaropi, mas a lição dele para mim é daquele grande empresário do cinema. O cara fundou a empresa dele, tinha lucro para fazer os filmes. Eu quero ser dono dos meus filmes também”, fala.
O percurso autoral e independente de Jeferson passa pelo cinema negro. O cineasta fez cursinho para passar no vestibular da USP e estudar Cinema. Lá, produziu curtas-metragens (“Carolina”, que ganhou o prêmio da crítica em Gramado) e o livro-manifesto “Dogma Feijoada – O Cinema Negro Brasileiro”.
Questões sociais e raciais essas que foram abordadas nos curtas e em “Bróder”, mas que não fazem parte de “Celulares”. “Quis sair de um lugar seguro. Não quis fazer outro filme que mostrasse o hip hop e rap. Eu gosto de rock também”, diz o taubateano, ressaltando que a trilha do novo filme rodado em Florianópolis tem “pegada rock and roll”.
Taubaté
“Pô, queria que as pessoas daí soubessem que eu existo. Adoraria gravar um filme em Taubaté, conheço a cidade, a região. E também voltaria para falar para a molecada que é possível, que eu saí daí”.
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