Crianças e congressistas – o que eles têm em comum?
Viver em um ambiente com regras autodefinidas e com dinheiro “infinito” é o desejo de ambos os grupos

A maioria das crianças gostaria de viver num mundo em que criassem suas próprias regras, decidissem onde e quando ir e continuassem sustentadas pelos pais.
Bonito para quem vive nele, mas não necessariamente para quem o sustenta ou é impactado pelos seus atos.
Curiosamente, nossos congressistas vivem em um mundo bastante similar a esse. Definem as leis que eles mesmos devem seguir, são mantidos pelo dinheiro dos impostos pagos pela população e definem, por meio de legislação própria, quem terá mais chances de ocupar os cargos públicos das eleições seguintes.
Dizem que o Brasil é uma democracia representativa. Tecnicamente está certo, mas, na prática, isso nem sempre se concretiza. É “democracia representativa” porque escolhemos os representantes por meio de eleições diretas, mas não são representativas na prática, porque alguns dos candidatos têm muito mais chances de serem eleitos mesmo sem representarem o pensamento, ideologia ou perfil dos eleitores.
O sistema tende a favorecer a manutenção dos mesmos partidos e dos políticos já em exercício de mandato. Além de nada representativo, é caro para o país.
Naturalmente, quem já ocupa um cargo público têm mais exposição e, consequentemente, já larga na frente na corrida eleitoral por estar presente na mente do eleitor. Ainda que tenham feito um mandato medíocre, muitos eleitores menos dedicados à pesquisa de seus candidatos acabam por votar neles pois “já conhecem o nome.”
Até aí, faz parte do jogo no qual é permitida a reeleição.
A lógica perversa começa agora.
Porém, a lógica perversa começa a valer mesmo pela verba distribuída periodicamente aos partidos políticos acrescida por uma verba específica para as campanhas eleitorais. Essa distribuição ocorre de forma proporcional ao número de deputados federais da sigla, ou seja, quanto mais deputados federais o partido tiver, mais verba ele recebe, com o agravante de que os partidos com poucos deputados ficam de fora dessa partilha. Essas verbas são os chamados Fundo Partidário e Fundo Eleitoral respectivamente.
Para dar uma ideia da grandeza do que estamos falando, o Fundo Eleitoral (oficialmente chamado de Fundo Especial de Financiamento de Campanha) deste ano de 2026 será de R$ 4,9 bilhões. Representa mais de 20% do que o Governo Federal gastou em segurança em 2025 – R$ 22,9 bilhões.
E o Fundo Partidário distribuiu R$ 1,12 bilhão em 2025, tendo como maiores beneficiários o PL, com R$ 192 milhões e o PT, com R$ 140 milhões, seguidos por União, Republicanos e PSD.
Se um partido grande tem muito mais verba que os demais, ele consegue investir muito mais em publicidade e ações que levem sua marca e seus candidatos à mente dos eleitores. Está longe de construir uma democracia representativa no sentido mais estrito da palavra, de que todos os grupos e interesses sociais são representados no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas dos Estados.
Se você achou pouco…
Para fortalecer essa situação, está nas mãos dos congressistas o uso das verbas de emendas parlamentares, um dinheiro que eles destinam a locais de seus interesses e que, na maioria das vezes, gera resultados populistas com finalidade eleitoreira, como inaugurações de obras e compra de máquinas e veículos (que às vezes ficam parados). Só em 2025, foram R$ 31,5 bilhões em emendas.
Somando essas três fontes de receita (Fundo Partidário, Fundo Eleitoral e emendas parlamentares) que podem ser muito facilmente utilizadas com finalidade eleitoreira, temos um total de R$ 55,5 bilhões em um ano.
É como se cada um dos 513 deputados federais e 81 senadores, tivessem à disposição R$ 93 milhões para se autopromover no ano eleitoral. Como essa distribuição não é igualitária, alguns políticos têm muito mais recursos disponíveis. Claro que essa conta é alegórica, afinal há aqueles que usam as emendas parlamentares de forma adequada, mas dá uma noção do que estou falando.
Pareceria infantil se não fosse com nosso dinheiro (recolhidos compulsoriamente por meio de impostos) e não impactasse diretamente as nossas vidas.
Mas é real.
Ter consciência dessa situação pode nos deprimir ou nos levar a fazer uma seleção mais criteriosa de quem queremos eleger. Espero que você vá pela segunda opção.
Acredito que deixei mais claro a importância de se pesquisar criteriosamente, conhecer a história, as ideais e propostas do candidato e não se deixar levar por vídeos curtos produzidos pelo próprio, que trazem um retrato pouco fiel do que ele fez e pode fazer quando eleito.

Política sem vergonha
Graduado em jornalismo, quase 30 anos de experiência em comunicação corporativa, relações institucionais e defesa de causas, possui MBA em Gestão Empresarial pela FGV e especialização em ESG – Gestão Responsável pela FIA / USP. Autor de dois livros e co-autor de outros quatro, é especialista em tra…
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