Divas líricas lançam CDs que cruzam gêneros
Divas líricas internacionais lançam CDs em que cruzem gêneros

“Se tivesse de escolher entre os Doors e Dostoiévski, eu – é claro – escolheria Dostoiévski. Mas é preciso escolher?” A frase de Susan Sontag no prefácio de seu livro Contra a Interpretação se encaixa como uma luva nas inquietações de músicos talentosos como a mezzo-soprano sueca Anne Sofie von Otter, 58 anos, a soprano francesa Natalie Dessay, 48 anos, e o pianista de jazz francês François Couturier, 63 anos.
As duas divas líricas estão lançando CDs em que cruzam gêneros: Von Otter, no álbum duplo Douce France (Naïve), dedica o primeiro à mélodie, versão francesa do lied alemão, e no segundo mergulha na canção pop; Dessay, em Entre Elle et Lui (Erato), interpreta o songbook do talentosíssimo pianista e compositor Michel Legrand.
Simultaneamente, o quarteto liderado por Couturier e formado pela cantora Maria Pia de Vito, a violoncelista Anja Lechner e o percussionista Michele Rabbia lança Il Pergolese (ECM), um tributo ao compositor italiano Giovanni Battista Pergolesi, do século 18, em que letras de seu famoso Stabat Mater e de árias de suas óperas foram “traduzidas” para o dialeto napolitano e transformadas em canções populares/experimentais, com direito a manipulações eletrônicas e jazzísticas (ECM).
John Potter, o tenor inglês sessentão, ex-integrante do grupo vocal Hilliard Ensemble, especializado em música antiga e ao mesmo tempo na contemporânea, fez ainda mais. Lança Night Sessions pela ECM, o quarto CD de uma série que chama de The Dowland Project, na qual improvisa e recria melodias dos séculos 13 a 16 ao lado do saxofonista John Surman, Steven Stubbs em instrumentos antigos (alaúde, chitarrone, vihuela), Barry Guy no contrabaixo e Maya Homburger e Milos Valent nos violinos. Vale a pena ouvi-lo, porque Potter transformou a pergunta de Susan Sontag em mote de vida profissional. Em sua tese acadêmica que virou o excepcional livro Autoridade Vocal – Canto e Ideologia (Ed. Cambridge, 1998), ele transfere a pergunta de Sontag para o domínio do canto: “Por que o canto clássico é tão diferente do canto popular? (…) Será que em algum momento histórico eles foram um só, será que houve um tempo em que cantar era apenas cantar, e os cantores não eram obrigados a fazer distinções sociomusicais?”.
Afinal, o canto clássico permanece virtualmente inalterado desde meados do século 19: por meio de várias técnicas, como a empostação, o cantor(a) consegue maior projeção da voz e mais espessura na emissão; assim, pode sobressair sobre uma imensa massa orquestral, como em Verdi e Wagner. Em compensação, perde na clareza das palavras, a cor da voz fica mais escura e é difícil diferenciar as vogais. Potter diz que isso se deve à “laringe baixa”. Na fala normal, a laringe flutua livremente e fica “mais alta”. Privilegia-se, claro, a emissão das palavras, que ficam muito mais inteligíveis no canto pop.
A moda do crossover criou sequelas. Há cantores (as) que emulam técnicas clássicas no repertório popular, “como Kiri Te Kanawa cantando Gershwin”, indica Potter (uma tendência iniciada por Caruso nos primórdios da era da gravação). O resultado é sempre frustrante, pois tenta impor técnicas líricas num tipo de música que não quer nem precisa disso. Igualmente ridículos soam os cantores (as) que “imitam” a bossa popular.
Von Otter e Dessay chegaram a resultados diferentes, apesar de terem feito a mesma proposta. Senão, vejamos: Douce France – Von Otter reina absoluta no primeiro CD, em repertório refinado. Inclui Reynaldo Hahn (linda versão de Le Plus Beau Present”), Saint-Saëns (tocante a sua Vogue Vogue la Galere) e os inevitáveis e maravilhosos Fauré (Le Secret), Ravel (Ballade de la Reine Morte d’Aimer) e Debussy (antológica sua interpretação das Trois Chansons de Bilitis). A cereja inesperada do primeiro CD, porém, são as duas canções do desconhecido Charles Martin Loeffler (1861-1935): dizia ser francês, mas nasceu mesmo em Berlim. Estudou em Paris e viveu seus últimos 50 anos de vida nos EUA, onde foi spalla da Orquestra de Boston. La Cloche Felée e Sérénade, sobre versos de Paul Verlaine, preveem, além do piano, uma viola, aqui tocada pelo ótimo Antoine Tamestit. A primeira canção é praticamente uma paráfrase musical dos versos (ou minipoema sinfônico?), pois se espraia em quase 9 minutos. É música que vale a pena conhecer.
Se não é um “must”, ao menos o segundo CD exibe algum refinamento nos arranjos assinados por quatro dos 12 integrantes do grupo formado por quarteto de cordas, trompete e trombone, harpa, acordeão, piano, contrabaixo e percussão. Quanto mais camerístico, melhor; quanto mais popular, a qualidade baixa proporcionalmente. Em Le Pont Mirabeau, de Leo Ferré, o acompanhamento é de acordeão, violino, piano e contrabaixo; e em Parlez-moi d’Amour, de Jean Lenoir, Von Otter contracena com uma harpa. A gema que escapa da mesmice geral é… erudita: Chanson d’Automne, de Hahn.
Entre Ele et Lui
O encontro de Natalie Dessay e Michel Legrand fica vários degraus abaixo de Douce France, apesar de ser dedicado às composições do sensacional Legrand. O “meeting” só não é um crossover descartável porque o talento de Legrand se esparrama como um oceano sobre o disco inteiro. Dessay vai bem na primeira metade do CD, até What Are You Doing the Rest of Your Life? Mesmo assim, fica devendo. Na clássica Papa Can You Hear me?, do filme Yentl, Dessay nos faz lembrar o tempo todo de como esta música soa perfeita na voz de Barbra Streisand. Constrangedora igualmente a participação de outra soprano coloratura, Patricia Petibon, em Chanson des Jumelles, num clima borracho fim de noite. Ela também soa ridícula tentando imitar uma cantora de blues em Le rouge et le Noir. Enfim, teria sido melhor que esse encontro permanecesse inédito.
Para quem deseja conhecer trabalhos refinadíssimos e originais em torno do entrecruzamento de gêneros, é indispensável conhecer os citados Il Pergolese, de François Couturier, e Night Sessions, de John Potter. Neste último caso, também vale acompanhar seu instigante blog em http://www.john-potter.co uk/blog/.S
divulgação

Caixa em homenagem a Demy e Legrand
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