Dom César: “Estar em meio aos jovens sempre me deu forças na vida”

Indicado pelo papa Francisco para assumir neste sábado (17) a Diocese de São José dos Campos, o bispo Dom José Valmor César Teixeira, 60 anos, falou ao Meon sobre vocação, sua experiência no final da Ditadura Militar e dos planos que reserva para a cidade.

Escrito por: Elaine Rodrigues5 min de leitura
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Indicado pelo papa Francisco para assumir neste sábado (17) a Diocese de São José dos Campos, o bispo Dom José Valmor César Teixeira, 60 anos, falou ao Meon sobre vocação, sua experiência no final da Ditadura Militar e dos planos que reserva para a cidade.

Salesiano, Dom Cesar é doutor em teologia. Gosta de estar em meio aos jovens e, como seu santo de devoção, São João Bosco, se coloca no papel de educador. “Enquanto você não educa o coração do jovem, ele não foi educado”, repete as palavras de Dom Bosco.

Nascido e criado em Rio do Sul (SC), o novo bispo de São José é filho do português Walmor Teixeira, 87 anos, e da italiana Miranda Teixeira, 83 anos. O pai de Dom Cesar é contador e sua mãe sempre se dedicou aos filhos -quatro homens e uma mulher.

“Tive uma infância comum. Gostava de jogar futebol e assistir filmes. Também estudava, ia para a Catequese, à missa. Sempre estava na casa dos meus avós. Era um menino tranquilo”, diz Dom Cesar, líder dos fiéis católicos de 44 paróquias em São José dos Campos e Jacareí.

Em seu novo lar, a Casa Episcopal, na região sul de São José, Dom César recebeu o Meon para falar sobre sua história.

Quando decidiu entrar para a vida religiosa?
Sou o único que seguiu a vida religiosa na minha família. Dois irmãos são médicos, um é advogado e minha irmã é psicopedagoga. Minha família é muito religiosa. Entrei no seminário com 15 anos. Estudava no colégio salesiano de Dom Bosco desde o primário. Sempre faziam propaganda vocacional, até que um dia me dispus a fazer um encontro. Fui para o seminário e lá fiquei. Aos 17 anos segui para Porto Alegre (RS), onde vivi meu noviciado. Terminado esse período, aos 19 anos, vim estudar na Faculdade Salesiana de Lorena, aqui na região, onde cursei filosofia e história. Fazia um curso de noite e outro à tarde. Fiz ainda magistério em Santa Catarina e, por fim, teologia na PUC de Curitiba (PR). Só então fui ordenado padre, aos 26 anos de idade. Quem entra para vida religiosa tem que gostar de estudar.

Como foi o início de sua vida como padre?
Já padre, fui para Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina. Trabalhei meus primeiros cinco anos como padre na universidade e na Paróquia Sagrado Coração de Jesus. De lá, fui para Roma (IT) fazer meu mestrado e doutorado em História da Igreja. Terminado em 1988, fiquei trabalhando como professor universitário, animador de comunidades e diretor de obras, toda minha vida no Sul, entre Porto Alegre e Curitiba.

O que marcou sua história religiosa?
Gosto de falar do lado positivo. Trabalhei sempre com a juventude, então isso sempre foi um desafio porque as gerações vão mudando à medida que passam sete ou oito anos, mas vejo que é um trabalho válido formar pessoas. Estar em meio a juventude sempre me deu forças na vida.

Qual o maior desafio em sua vida?
Foi no início da década de 80, quando tinham muitos movimentos, grupos, reivindicações políticas. Eu participava no meio daqueles movimentos com a juventude e ali muitos jovens se perderam pelo caminho. Foi um momento duro, de reabertura política do Brasil, de criação de partidos, diretas já e tudo aquilo que aconteceu. Eu era padre novo, existiam muitas correntes ideológicas que lutavam entre si. Era difícil. Amigos padres desistiram, tomaram outros rumos. Colegas deixaram o sacerdócio. Hoje eu os encontro, ainda são grandes amigos, mas em outros caminhos. Eu segui o meu.

O que o senhor destaca de sua trajetória como bispo?
Em janeiro de 2009 eu estava trabalhando em Porto Alegre (RS) quando fiquei sabendo que o papa tinha me nomeado bispo para Bom Jesus da Lapa, na Bahia. Eu nem sabia onde ficava a Bahia [risos]. Bom, eu sabia da Bahia, mas nem imaginava que existia a Diocese de Bom Jesus da Lapa. Fui olhar no mapa e vi lá que era um sertão na fronteira com Minas Gerais e Goiás. Uma imensa diocese, com 60 mil metros quadrados, uma imensidão de terras, com serrado e caatinga, os primeiros quilombos do Brasil e ainda o grande santuário de Bom Jesus da Lapa, fundado em 1691, que atrai cerca de 2 milhões de peregrinos ao ano. É um povo pobre, simples, mas de muito trabalho, fé. Pessoas amigas, próximas. Foi gostoso viver naquela realidade. Eram 15 paróquias, um santuário e um sertão imenso. Fiquei cinco anos ali e me marcou.

Por que acredita que o papa escolheu o senhor para ser o bispo de São José?
Bom, o papa recebeu as informações da nunciatura apostólica de Brasília que consulta os outros bispos no país e me indicou. Agora, existe um certo perfil para escolher o bispo, sim. Eu não esperava, achava que ia terminar meu tempo em Bom Jesus da Lapa. Lá não troca de bispo, o primeiro ficou 27 anos, o segundo 19 anos e eu pensei que ia ficar mais 20 anos lá [risos]. Contudo, Deus me mandou para cá e eu vim com alegria. Ainda não conheço bem a diocese para concluir porque fui escolhido, mas quem sabe queriam um bispo animador, do meio do povo, talvez isso. Ou que tenha a ver com a minha linha de vida ou porque gosto da juventude.

Quais são seus planos para a Diocese de São José?
Ainda não conheço bem. Mas já fui visitar a Faculdade de Teologia e tenho o desejo de investir para que ela cresça. Vamos, claro, ver primeiro o mercado, pensar no que a região precisa e implementar medidas para nossa faculdade crescer. Eu quero estar em meio ao povo, conhecer as pessoas e vou primeiro conhecer mais a diocese. Eu posso afirmar que estou muito alegre de estar aqui.

Assista a mensagem de boas vindas de Dom César para a Diocese de São José dos Campos.

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