Doria assume com 2022 no horizonte e alfinete Alckmin no discurso da posse

Tucano prometeu acabar com a chamada “velha política”

Escrito por: Conteúdo Estadão7 min de leitura
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Em discurso durante posse na Assembleia Legislativa de São Paulo nesta terça-feira (1), o governador João Doria (PSDB) prometeu acabar com a chamada “velha política” e, em recado indireto às gestões anteriores do PSDB, declarou que é preciso parar de “pensar pequeno”.

“A população quer um governo eficiente, um governo de resultados. São Paulo precisa resgatar a sua paixão por fazer bem feito e vamos pensar São Paulo grande. Chega de pensar pequeno aqui. Nós não vamos pensar pequeno em São Paulo”, declarou o tucano.

Doria destacou que respeita a história do partido, mas defendeu uma reestruturação da legenda. “Vamos ajudar o PSDB a estar sintonizado com o Brasil.”

Ele prometeu executar um amplo programa de concessões e privatizações “sem medo de cara feia, sem medo de bandeiras vermelhas” e afirmou que vai governar sem medo daqueles que estão “na cadeia”. João Doria se elegeu com a promessa de endurecer o combate à criminalidade e a facções criminosas.

“De cara feia, eu aprendi com meu pai, não tenho medo nem dos que estão no Legislativo nem dos que estão fora do Legislativo e nem daqueles que estão na cadeia porque, a partir de agora, São Paulo vai mudar, tem comando e o comando será exercido pelo governador eleito do Estado de São Paulo.”

Apesar de afirmar não ter medo de “cara feia e bandeiras vermelhas”, Doria fez uma fala de conciliação ao prometer dar um tratamento igual a aliados e a opositores na administração. “Serei governador dos que votaram em nós e dos que não votaram.”

O novo governador declarou que o Estado, a partir de agora, não será governado por partidos e políticos, mas pelo povo “com os partidos e com os políticos”.

Apoio a Bolsonaro

Durante o discurso, Doria reforçou seu apoio ao presidente eleito, Jair Bolsonaro, e se colocou como interlocutor do PSDB junto ao futuro governo.

“O nosso governo não vai virar as costas para o Brasil. O nosso governo vai ajudar o Brasil. Vamos apoiar as iniciativas do presidente Jair Bolsonaro, todas que promovam o progresso do Brasil”, declarou o tucano. O novo governador declarou apoio às reformas da Previdência e fiscal e à manutenção da reforma trabalhista, além de privatizações.

O tucano defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos e o fim das chamadas “saidinhas” em presídios e penitenciárias. Em São Paulo, declarou, “bandido vai cumprir a pena na cadeia trabalhando”.

Para a posse, o plenário da Assembleia foi ocupado por aliados. Com a ausência de deputados de oposição, Doria disse que a função dos parlamentares é a de ajudar o Executivo. “É a democracia, faz parte”, declarou.


Rumo a 2022

Já tratado por aliados como possível presidenciável em 2022, João Doria (PSDB) assume o Palácio dos Bandeirantes hoje com um discurso nacionalizado para ocupar espaços de poder que vão além das fronteiras paulistas. Ao contrário de seu antecessor, o tucano Geraldo Alckmin, que concentrou sua agenda no interior paulista, Doria já se coloca como líder dos governadores eleitos em 2018 e interlocutor deles com o governo de Jair Bolsonaro, de quem, por enquanto, é aliado.


Mas, para viabilizar o desejo de se candidatar ao Palácio do Planalto, o tucano vai ter de mostrar em seu segundo mandato consecutivo – ele renunciou ao cargo de prefeito da capital paulista após 15 meses – que coloca a gestão acima da política e é capaz de cumprir as promessas de modernização do Estado, enxugamento da máquina pública e ampliação das parcerias com a iniciativa privada.

Eleito com uma diferença para Márcio França (PSB) de apenas 740 mil votos ou 3% dos votos válidos na disputa mais apertada do País, Doria terá de tirar do papel promessas ousadas que dependem de concessões, como o trem intercidades, para ligar São Paulo aos municípios de Campinas e Americana.

No pouco tempo em que comandou a capital, o tucano não conseguiu privatizar o autódromo de Interlagos nem o estádio do Pacaembu, propostas de sua primeira campanha política.

Ao mesmo tempo que terá desafios importantes de gestão, como aumentar a sensação de segurança do paulista e ampliar linhas de metrô, Doria vai investir pesado na política partidária. Já se aproximou dos outros dois governadores tucanos eleitos e conseguiu apoio deles em sua ofensiva para comandar o partido nacionalmente.Até maio, quando Alckmin deixará a presidência da legenda, Doria vai tentar cacifar mais ainda seu candidato ao posto, Bruno Araújo (PE), que já defendeu uma “guinada à direita”, com apoio declarado a políticas conservadoras defendidas por Bolsonaro.

Primeiro escalão
Desde que venceu a eleição, Doria tem feitos lances políticos agressivos para comandar a sigla e se projetar nacionalmente. Na composição de seu governo, há nomes de cinco partidos, além do próprio PSDB. São eles: PSD (representado pelo seu líder máximo, Gilberto Kassab), DEM (que ficou com a vice), PP, PRB e MDB, que entrou no primeiro escalão depois que o ex-ministro Henrique Meirelles aceitou comandar a Fazenda.

Até agora o tucano já anunciou nove integrantes do governo de Michel Temer para a sua gestão – sete ministros e os ex-presidentes da Caixa e da Infraero -, que não necessariamente estão familiarizados com as demandas paulistas, mas que podem dar sustentação política nacional ao ex-prefeito em uma futura eleição. Alexandre Baldy (PP), que assumirá Transportes Metropolitanos, responsável pelo trem e pelo metrô, é exemplo dessa composição, assim como Rossieli Soares, novo secretário de Educação. O primeiro é de Goiás e o segundo, do Rio Grande do Sul.

“Nosso objetivo é gestão, não eleição, com os melhores nomes disponíveis no País. É a dimensão que o Estado de São Paulo tem, agora também na questão da eficiência”, disse Doria no início do mês, ao anunciar Meirelles e ser indagado se suas indicações tinham o pleito de 2022 como pano de fundo.

Para aliados, no entanto, o nome do ex-prefeito já está lançado. Líder dos tucanos na Assembleia, futuro secretário de Desenvolvimento Regional e aliado de primeira ordem, o deputado Marco Vinholi (PSDB) não vê outro caminho. “Doria é hoje a maior expressão política do PSDB nacionalmente. O caminho natural é ele fazer uma boa gestão e disputar a Presidência”, disse.

Presidente do diretório paulista da sigla, Pedro Tobias concorda, mas pede cautela. “Doria precisa ir com calma. Discordo da precipitação dele às vezes”, disse o deputado estadual. Apesar da crítica, ele admite que o partido já trata o governador eleito como presidenciável. “Sem dúvida Doria é o candidato natural do PSDB à Presidência em 2022. Ele lidera a nova geração do partido”, afirmou.

Já para o ex-governador Alberto Goldman, inimigo interno de Doria no PSDB, o único papel que ele quer de fato exercer na política nacional é a Presidência da República. “O resto é passagem. O único objetivo dele é ser presidente.”

Ritmo

Diferentemente da estratégia usada após eleger-se prefeito, Doria tem “acelerado menos” ao vencer sua segunda eleição. Ele até repetiu o script de convocar a imprensa quase que diariamente para anunciar nomes de seu secretariado, mas, desta vez, não demonstrou intenção de se vestir de policial, bombeiro ou qualquer outra função pública sob a gestão estadual para se tornar popular.

Em 2 de janeiro de 2016, primeiro dia útil como prefeito, Doria se apresentou como gari e lavou ruas da região central em ação que lhe rendeu fama, mas também críticas.

Aliados ouvidos pelo Estado afirmam que neste segundo mandato estratégias desse tipo serão evitadas, mas o estilo de governar deve seguir a mesma linha, com reuniões constantes com o secretariado, anúncio de programas e viagens para divulgar negócios possíveis com a iniciativa privada. O ritmo só deve ser mais lento. E por um motivo claro: a próxima eleição que interessa Doria é só daqui a quatro anos.

“Doria é hoje a maior expressão política do PSDB. O caminho natural é ele fazer uma boa gestão e disputar a Presidência.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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