Ensino superior em época de pandemia
Spoiler: Esse não é um texto sobre dados, é um texto sobre sentimentos e pensamentos de professores universitários neste momento e alguns dados

“Boa noite. Leticia?”
“Isso mesmo. Tudo bom?”
Esse é sempre o início de uma conversa em carro de aplicativo. E em determinado momento, chegamos às profissões:
“Sou professora”
“Que legal! Eu estou estudando logística na [Faculdade Pública].”
“E como estão as aulas na pandemia?”
“Ai, tá difícil, viu? É muita coisa. Os professores estão passando pesquisa e atividades longas quase toda aula. Antes [no presencial] não era assim. Eu trabalho 12 horas por dia, não tem como fazer essas atividades e ver a aula… na aula não dá tempo.”
O motorista falava dessa sua experiência, e de como a carga de trabalho e estudos estava complicada, e eu lembrava das turmas que estavam comigo no ensino remoto e EAD. No superior, uma preocupação com o acesso a materiais e aulas de tutoria. No médio, a constante preocupação com a padronização de atividades para todas as disciplinas e professores, e como aplicar as atividades em aula para não sobrecarregar os alunos – “eles não têm tempo de fazer depois” dizia a coordenação.
O nosso mundo é feito de bolhas – bolhas de experiências, de geração, de classe, de algoritmos. Com a pandemia, criamos novas bolhas, segregações, na educação para além da dicotomia particular x pública – fossem as escolas ou faculdades. E a pandemia mostrou as realidades das bolhas das faculdades que souberam se adaptar e as que não; aquelas que os alunos tinham recursos materiais, de equipamento e internet, para se organizar; as instituições que se reinventaram; e as instituições que não tinham condições de se reinventar. Enquanto tivemos escolas e faculdades que em menos de duas semanas voltaram às aulas, outras estão retornando em outubro. Conversando com colegas professores vemos a constante preocupação, também para além de si – preocupação com as faculdades, com os alunos, com a saúde de todos e com o trabalho.
Apesar da conversa que transcrevi acima, e dos exemplos que a internet nos brinda todos os dias, sabemos que cada realidade é única. Perguntei como estavam as aulas e faculdades para colegas do estado de São Paulo, Alagoas e Amazonas. E diante das diferenças, percebemos uma preocupação em comum: a possibilidade real dos alunos estarem em aula.
No IFSP, os professores estão com aulas síncronas (ao vivo) e assíncronas (gravadas) – as vezes, o professor ministra a aula e grava, outros, como a professora Kellem, alternam semana com aulas e semana com atividades dirigidas, leituras e trabalhos.
A professora Fernanda, no Alagoas, ainda está se reorganizando para a volta. (Não se assuste! Segundo a Associação Brasileira para Ciência apenas 6 das 69 Universidades Federais voltaram as atividades até julho. O IFSP/SJC foi uma delas.) A professora Fernanda está preocupada com a qualidade e estabilidade do sinal de internet para ministrar as aulas, além de possuir alunos sem acesso à internet no interior do estado. Preocupação justa, visto que as regiões Norte e Nordeste do país possuem o menor uso de internet do país.
Professor Jordeanes, no Amazonas, comenta que vários professores se mobilizaram e se recusaram a retornar às aulas pela falta de acesso dos alunos no estado. Para a nação, sabe-se que o acesso à internet na área urbana é 84% dos domicílios, na área rural, esse número cai para 49%. Interessante sempre lembrar que os professores universitários tem várias funções para além de ministrarem aulas, como desenvolvimento de pesquisa científica, orientações de pesquisa, publicações e projetos de extensão à comunidade que continuaram durante a pandemia.
Mas nem só de preocupação com os alunos vive o professorado. O receio com os filhos e suas aulas e atividades em casa, afazeres domésticos, aumento de reuniões, desafios de aprendizado nas novas plataformas… Percebi que, especialmente para o ensino superior, as instituições deixaram a escolha das plataformas em aberto. Cada professor se organiza para ministrar as suas aulas e disponibilizar materiais onde preferir. Pela experiência que tive, o melhor é a padronização dos recursos de acesso, pensando naqueles que oferecem a melhor experiência para a aula. A padronização de sistemas traz segurança às turmas que sabem como acessar rapidamente a aula sem confusão e podem se concentrar no aprendizado e não em lembrar como cada professor disponibiliza links para aulas. Muitas instituições não fazem a padronização pensando na autonomia dos professores em sala de aula e nas necessidades que os diferentes cursos possuem.
A professora Kelem e professor Andrei, do IFSP, optaram por manter aulas síncronas (ao vivo), mas gravá-las pela preocupação com os equipamentos dos alunos. Apesar de São Paulo possuir uma boa cobertura de internet e São José dos Campos disponibilizar internet da prefeitura com acesso para a população, é necessário lembrar que nem todos os alunos possuem equipamento próprio ou mesmo estrutura, em casa, adequada para a aula nos horários e na quantidade de tempo costumeiros dos cursos.
A FioCruz compartilhou pesquisas que mostram que metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém na pandemia, na área rural essa porcentagem vai para 62%. Muitas famílias que possuem crianças tiveram modificações em sua rotina e precisam pensar nos horários de aulas e estudos dos pequenos. Além de pensar que, no país, menos de 50% dos domicílios possuem computador – a maior parte do acesso à internet, no Brasil, é feita pelo celular. O computador, quando existe, é compartilhado com outras pessoas da casa e as aulas da educação básica e superior coincidem muitas vezes. Como falei, são muitas bolhas a se considerar nessa pandemia.
O tempo da aula preocupava o motorista do aplicativo, e também a nós, professores. Pensávamos: como adequar? será que os alunos aguentam aulas online? será que eles aguentam o período todo de aulas online? Uma coisa é jogar a tarde toda no pc ou ter aula a manhã inteira no presencial quando se tem interação e atividades. É outra dinâmica. A aula online é mais cansativa, inclusive por estar com uma tela de luz azul na sua frente o tempo todo, cansa o corpo, os olhos. Para o superior, as aulas são mais pesadas com teorias e temas, mas temos a sensação de que os alunos aguentam mais por serem mais velhos. O relato do motorista mostra que não, que esse público precisa ser entendido também e as atividades adequadas de maneira razoável como era no presencial.
Precisamos entender que o ensino à distância é diferente do presencial, as estratégias têm que ser diferentes e as posturas também. Ainda mais nessa situação, quando ele não foi escolhido e, sim, emergencial como agora. Porém, o EAD deixou de ser um diferencial agora? Podemos todos adicionar ou tirar do currículo a experiência com EAD? Não. Para a Associação Brasileira de Ciência, já citada, ensino emergencial remoto não é Ensino à Distância.
A Coordenadora Camila, da UNOPAR, comenta para nós essa dinâmica diferenciada. O ensino remoto é uma adequação de agora e que esperamos acabar logo, como algumas escolas já estão tentando com o ensino híbrido. Já o EAD é outra coisa. O EAD envolve pensar a aula de outra forma e envolve os alunos optarem pela modalidade. A postura do professor e do aluno mudam para essas aulas, assim como as estratégias e organização das aulas também. Para a Camila, o professor ao pensar a aula precisa ter organização, mas tem que fugir da monotonia, buscar elementos dinâmicos e buscar atividades durante a aula, resolvendo problemáticas, e buscando atividades interativas. Nem todas as plataformas permitem às aulas ao vivo, então, eu deixo a dica, existem aqueles momentos da disciplina que os alunos sempre tem dúvidas, é legal colocar, aqui, exercícios ou trazer aquela dúvida recorrente dos alunos.
A Camila ainda sugere que os professores usem bastante experiências práticas do mercado de trabalho para ilustrar a matéria e, como é realizado nas aulas da UNOPAR, momentos de introdução da aula com pontos principais e retomada desses pontos no final auxilia a fixar a aula para os alunos. Além, de buscar resolver as famosas situações problema durante a explicação – aplicando os conceitos enquanto são vistos. É interessante lembrar que os alunos, e mesmo os alunos adultos!, não mantém atenção indefinidamente. Então quebrar a rotina da aula, trazer problemáticas, piadas, outros elementos a cada 15 minutos é recomendado por estudiosos da neuroeducação.
E o que os alunos do superior fazem? Choram? Vão se desesperar? Percebemos que eles entendem a necessidade de aguentar as aulas, mas muitos não tem como acessar as aulas no momento em que são ministradas. Isto tanto por problemas no momento, quanto por necessidades de suas próprias vidas e espaços de casa. Sabemos que, segundo as pesquisas do IBGE PNAD adaptadas ao COVID-19, tivemos 8 milhões de trabalhadores em trabalhos remotos, mas a escolaridade que mais teve pessoas afastadas é o Ensino Superior Completo ou Pós-graduação, o que não costuma contemplar os alunos.
Pelos dados também, percebemos que a forma de acesso às aulas é bastante complexa. No nosso país, 1% dos domicílios urbanos têm problemas com a falta de internet por indisponibilidade, mas isso acomete 20% dos domicílios rurais. Os alunos têm reclamado bastante de cansaço, também devido ao stress e ansiedade com a situação e com os novos modelos de aula. Nem todos são afeitos ao ensino remoto. Os alunos reclamam da monotonia, os professores reclamam de não poder sentir as turmas ou ver os alunos, pois a ideia é que os vídeos sejam leves para melhorar o acesso, então as câmeras ficam desligadas. Para a Coordenadora Camila, a atitude dos alunos no ensino à distância é diferente do presencial – tem que ter mais autonomia e foco. É mais fácil “enrolar” sem alguém te monitorando, mas também é mais fácil deixar de aproveitar bem as aulas.
De todos os professores que conversei, os citados e os não citados, nenhum acredita que o ensino remoto substitui o presencial, mas era o melhor agora para não atrapalhar a formação e os tempos de curso dos alunos. O EAD é uma boa opção de cursos para quem curtiu o novo modelo, mas cada aluno aprende de uma maneira e cada aluno se adapta e tem um tempo para se dedicar ao estudo. A Associação Brasileira de Ciência, em webinar, pontuou dados sobre a modalidade no Brasil. O número de alunos no EAD vem crescendo, quase um terço dos estudantes de nível superior não estão na modalidade presencial. Porém, também sabemos que 50% dos alunos está frequentando cursos de notas 1 e 2 no ENADE. E mesmo cursos que têm histórico de boicote à prova possuem notas superiores.
O EAD é uma possibilidade e ainda tem um grande caminho a trilhar no país e a se fortalecer como uma boa formação. Inclusive, pensando que a maioria dos alunos de instituições privadas estão nas classes C, D e E. Acredito que a pandemia nos ensinou muito sobre ensino remoto, sobre a possibilidade de levar a sério um curso a distância, sobre a autonomia que o aluno precisa ter, sobre a dinâmica em que o professor precisa investir ao pensar sua aula, mas também sobre acessos e possibilidades reais de estudo no nosso país. As bolhas precisam se encontrar para que se possa pensar estratégias de superação e melhoria nas desigualdades de acesso à informação, à internet e à formação. O EAD pode ser uma ferramenta para levar educação aos cantões do Brasil, mas precisa de boa conexão para chegar lá também.
Psicopedagoga formada em Ciências Sociais e Pedagogia, com mestrado em Ciências Sociais pela UNESP Faz pós-graduação em Docência, trabalha como professora de Sociologia desde 2015, com cursinhos populares, cursinhos EAD e Ensino Médio Atualmente é professora da rede privada e ministra Socio…
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