Entre politikós e idiótes

O debate sobre Política e sua importância para a vida boa é constante, mas ocorre hoje uma inversão de significados, no mundo grego ‘idiótes’ era considerado aquele que vivia sua vida privada e não se ocupava com a ‘pólis’, para Aristóteles o ser humano seria o ‘zoon politikon’, animal político, que só atingiria a ‘eudaimonia’ […]

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
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O debate sobre Política e sua importância para a vida boa é constante, mas ocorre hoje uma inversão de significados, no mundo grego ‘idiótes’ era considerado aquele que vivia sua vida privada e não se ocupava com a ‘pólis’, para Aristóteles o ser humano seria o ‘zoon politikon’, animal político, que só atingiria a ‘eudaimonia’ (felicidade) atuando politicamente, buscando o bem comum; neste sentido ocorre a inversão de significados, pois no senso comum a política anda mal vista, quando deveria ser considerada o único modo do cidadão atingir a vida boa.

Esta coluna visa refletir sobre a política regional, a partir da configuração da Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte, na qual novos arranjos geográficos e econômicos interferem nas relações sociais e políticas. A cidade de Taubaté, fundada pelo bandeirante Jacques Félix, surgiu com a igreja Matriz de São Francisco das Chagas, construída para demarcar a presença da Coroa, bandeirantes desbravaram o Vale em busca de riquezas, encontraram ouro e fundaram cidades.

Com a economia cafeeira alterou-se a paisagem, cresceu o prestígio e o poder político da região, Barões do Café e elites oligárquicas dominaram; relações de submissão constituíram desde então o habitus da população, para Pierre Bourdieu, habitus são disposições duráveis, socialmente configuradas e transmitidas por gerações, a servidão escrava, forjada de modo violento no Vale, constituiu-se depois em ‘servidão voluntária’.

Com a vinda de imigrantes novos arranjos se estabeleceram, introduziram a cultura do arroz nas várzeas, além de novas técnicas de plantio e irrigação; a produção de leite foi introduzida com a decadência do café e a industrialização teve iniciou na década de 1940, com a CSN em Volta Redonda.

Entre SP e RJ, com as facilidades de transporte e comunicação pela Rodovia Presidente Dutra, o Vale se abriu para o avanço tecnológico; municípios próximos da rodovia viveram intenso surto de industrialização entre 1960 e 1970, mas os localizados nas encostas das Serras permaneceram vinculados ao setor primário da economia, registrando êxodo rural e empobrecimento da população.

Estabeleceram-se empresas do setor automobilístico, aeroespacial, petrolífero e farmacêutico, bem como pólos científicos e tecnológicos: INPE, DCTA e ITA; projeto das elites, distante da constituição de espaços políticos de debate, de participação e de democratização.

A cultura híbrida do Vale, constituída nas misturas de povos indígenas, africanos e europeus, sob conjunturas de poder marcadas pela colonização, pela escravidão, por monoculturas e regimes de coronelismo, mandos e desmandos, acentuou desigualdades e formou um povo pouco habituado a discutir e a opinar sobre o bem comum; as relações políticas constituídas neste bojo é que nos propomos discutir aqui, diálogo entre ‘politikós’, visando extinguir os possíveis ‘idiótes’.

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