Entrevista: biólogo diz que mosquito da dengue está mais resistente

Ávido por sangue humano e preparado para sobreviver e se reproduzir nos ambientes mais inóspitos, o mosquito Aedes Aegypti parece disposto a endurecer a guerra contra a dengue. Estudos realizados pelo mestre em Biologia Parasitária Gabriel Sylvestre, revelaram uma nova realidade no que diz respeito ao comportamento do mosquito.

Escrito por: João Pedro Teles3 min de leitura
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Ávido por sangue humano e preparado para sobreviver e se reproduzir nos ambientes mais inóspitos, o Aedes Aegypti parece disposto a endurecer a guerra contra a dengue. Estudos realizados pelo mestre em biologia parasitária Gabriel Sylvestre, revelou uma nova realidade no que diz respeito ao comportamento do mosquito.

Ao Meon, Sylvestre rebateu algumas concepções tidas como verdades. O biólogo afirma que a fêmea pode se reproduzir também em água suja -inclusive na rede de esgoto- e que o uso do “fumacê” pode piorar o panorama de infestação.

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Mestre em biologia parasitária, Gabriel Sylvestre, crê em Aedes Aegypti mais forte

Divulgação


Atualmente está mais difícil combater o mosquito da dengue? Por que?
O Aedes Aegypti é um mosquito com hábitos urbanos. Sempre foi, tanto que ele chegou ao Brasil junto com os colonizadores portugueses, já que não era encontrado em nossas florestas. Sendo assim, o inseto é altamente adaptável ao nosso ambiente e essa é a principal dificuldade na batalha contra a transmissão da doença. Até em esgoto eles conseguem botar ovos.

Isso quer dizer que o Aedes Aegypti pode se reproduzir em qualquer tipo de ambiente?
Não, o mosquito consegue identificar quando há algum produto químico na água que possa matar as larvas e ele evita esses lugares. Mas o que precisa ser esclarecido é que o Aedes Aegypti se reproduz até nas poças que parecem mais sujas, ou em lugares impensáveis, como um copo de refrigerante deixado ao ar livre. Ou seja, é preciso ainda mais atenção para eliminar os criadouros.

O mosquito consegue identificar a presença de humanos próximos aos criadouros?
O sangue humano é o alimento preferido do Aedes Aegypti. No estudo que realizamos em laboratório, chegamos à conclusão de que a fêmea prefere poças com resíduos deixados por humanos. Isso denota uma clara adaptação ao nosso ambiente.

E como é o comportamento da fêmea infectada com o vírus da dengue?
No mesmo estudo, observamos que ao ser infectada, a fêmea do mosquito vive menos, bota menos ovos, mas tem um apetite maior por sangue. Comparando as infectadas e as não infectadas, o número de picadas por dia é quase duas vezes maior.

Se os insetos infectados vivem menos e botam menos ovos, o que explicaria os surtos de dengue?
Realmente os infectados estão em menor número e se reproduzem menos. Mas acontece que a população de mosquitos é tão grande que, mesmo assim, o número de fêmeas infectadas é o suficiente para causar a contaminação em larga escala.

Qual a forma mais eficaz de combater a doença?

É preciso investir em diversas frentes para evitar a reprodução do mosquito. A mais eficaz é a eliminação dos focos e aí a fiscalização tem que ser efetiva. Já o uso do fumacê deve ser realizado só em caso de surtos, porque o produto químico acaba selecionando apenas os mosquitos resistentes, que irão se reproduzir e criar uma geração de insetos cujo fumacê não fará efeito.

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