Esquenta para o melhor Carnaval do mundo: o nosso

Enfim, chovia. Muito. O lugar era aberto, o Jardim Cultural, se você parou para ler esse texto gosta de cultura, e se ainda não conhece o Jardim, em Taubaté, está perdendo o principal ponto de encontro de pessoas que apoiam e criam no Vale do Paraíba. Mas esse é assunto para outra coluna. Hoje vamos […]

Escrito por: Meon Redação6 min de leitura
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Enfim, chovia. Muito. O lugar era aberto, o Jardim Cultural, se você parou para ler esse texto gosta de cultura, e se ainda não conhece o Jardim, em Taubaté, está perdendo o principal ponto de encontro de pessoas que apoiam e criam no Vale do Paraíba. Mas esse é assunto para outra coluna. Hoje vamos falar de Lia Marques.

Herdeira do Paranga, um dos principais grupos nascidos na região, da linhagem de Elpídio dos Santos, Lia foi criada entre sons. Aqui reside pouca facilidade e alguma pressão. Não é fácil seguir a carreira de seus pais, fica um pouco mais difícil se essa carreira depender de criatividade e inspiração – fatores fundamentais para a arte. Pode se aprender a cantar, mas ninguém ensina ser artista original.

Lia parece encontrar uma pista de como chegar lá em seu primeiro disco “Se Perfume Tivesse Cor, A Rosa Seria Beija-flor”. Um dos melhores discos produzidos por aqui nos últimos tempos. Foi esse disco que ela lançou debaixo de chuva, para uma platéia encharcada, mas a fim de ouvir músicas novas, não covers, como é praxe na região. Foi nesse momento que Lia Marques mostrou que sabe o que está fazendo. Fez o que a gente espera de um artista: um show. A noite chuvosa ganhou toques mágicos. O poder da música.

O disco começa nada menos com um dueto dela com Zeca Baleiro. “Parece Filme” poderia fazer parte do repertório de Zeca. É uma bela canção, mas ainda não é Lia. Ela começa a dar as caras a partir da segunda, “Siricutico”. É a partir daqui que ela começa a modernizar a marchinha luizense, os sentimentos que batem em quem vive no interior, em cidades pequenas conectados mas ainda em outro ritmo do resto do mundo ultra-rápido do século 21.

“Siricutico” poderia ser um sucesso do carnaval de São Luiz do Paraitinga. E “Vela Que Revela” embalaria fácil uma boa roda de violão nesses dias quentes: “faça sol, luz de verão / o meu coração, jura que não / Jura que não, o meu coração / Samba que não, samba que não / Essa garoa, na luz do verão / faz que não vai / diz que refaz / O meu coração”. Igualmente bela é “O Nada”, com um instrumental perfeito, a batida, o violão, os riffs de uma guitarra e a voz de Lia: “tirou-me do altar / e eu fiquei a ver / Navios sobre mim / a me atropelar / Levou-me pras montanhas / e eu menino / Do vale morri / Pois não sabia respirar / Sou a luz da lâmpada queimada / Sou a crista da onda da praia petrificada / Sou a fruta suculenta da árvore / Envenenada”. Linda.

Tem espaço para uma bela interpretação de uma canção de seu avô, Elpídio dos Santos, em “Se a Esperança Ficou”, com até uma pitada de reggae no refrão. Acaba em festa. Com “Raio de Festa e Dance o Carnaval”, tipicamente de São Luiz do Paraitinga. Um belo esquenta para o carnaval que vem aí.E, apesar dos esforços de muita gente na cidade para acabar com isso, ainda temos uma festa tipicamente tradicional, quase não vendida para grandes marcas e descaracterizadas, como o resto do país. Que vale a pena, é a farra quase como antigamente. O melhor carnaval do mundo, aqui pertinho, você não deve perder. Enquanto não chega, procure pelo disco da Lia Marques. Ou tente vê-la ao vivo. Vale. Mesmo debaixo de chuva.


———— Programe-se:

Um dos principais artistas brasileiros do momento se apresenta duas vezes no Vale esse mês. Emicida canta dia 21 em Taubaté e 22 em São José dos Campos. Os dois shows no Sesc das respectivas cidades. Emicida lançou seu primeiro disco no ano passado, “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui”. O show de São José deverá ter um ingrediente especial: Emicida foi uma das vozes que mais criticaram a desocupação do Pinheirinho. Ele mesmo, quando criança, passou por algo semelhante. Vai ser explosivo.

——— Um clipe:

Megh Stock: Vestido de Festa

Sou apaixonado por essa música. Um dos melhores rocks feitos por aqui. Letra e música fantásticas. Megh Stock está linda, provocante, tudo que se espera de uma rocker. O clipe, feito com muita categoria pela Buffalo Filmes, é sensacional:

——— Um conto de uma música: “Bailarina”

Rasgo a noite enfrentando um bar. Em outra surra de súplicas. Quando amanhã será?

São, o quê?, cinco e treze da manhã, provavelmente mais, agora que é hora de escolher as palavras. Já é difícil separar a saudade da necessidade. Num diálogo muito louco com uma entidade masoquista que teima em roteirizar esses dias tumultuados, você pergunta se ainda vai demorar muito mais para chegar o final feliz. Quando amanhã será? A platéia já quer ir embora.

A noite já foi um bálsamo. Na noite já senti seguro, protegido, em casa. Hoje a noite é uma droga. Você rasga de bar em bar e, em determinado momento, já nem lembra mais porque saiu. Uma coleção de caras, bocas, pernas, coxas, minissaias que não fazem o menor sentido. Você joga tudo isso na lixeira mais próxima em troca de cinco segundos de volta no tempo, com ela deitada na sua cama, dormindo, calmamente, entregue. Por cinco segundos dos olhinhos dela nos seus. Pela oportunidade de arrumar aquele cabelo enroscado nas costas. Por dormir mais um pouquinho, para acordar ao meio dia sem culpa. Por morrer de amor. Por conversar os maiores absurdos como se dali dependesse o futuro da humanidade. Pelos detalhes, as pequenas coisas. Sem pensar meia vez, faz um pacto com o diabo: minha alma por só mais um acordar da mulher mais bonita do mundo ao seu lado.

A noite é uma droga. Ela está longe e por mais que você mergulhe, não vai achá-la. Melodrama, mexicano. Pra cada riso, cinco desesperos. Pra cada cerveja, dois blues. E você se pergunta: quando amanhã será?

Quando a noite vai voltar a fazer sentido? Quero logo amanhecer em flores.

Texto livremente inspirado na música “Bailarina”, de Tuia Lencioni. Ouça e veja:

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