“Estamos no nosso ápice musical”, diz Lúcio Maia do Nação Zumbi
O tempo parece correr a favor do Nação Zumbi. Depois de sete anos sem gravar um álbum de estúdio, o grupo desfruta do lançamento do disco homônimo de 2014 que teve mais de três anos de produção e, segundo o guitarrista Lúcio Maia, retrata “o ápice da nossa maturidade musical”.


Grupo se apresenta no sábado (21), às 20h, no Sesc São José dos Campos
Divulgação/VitorSalerno
O tempo parece correr a favor do Nação Zumbi. Depois de sete anos sem gravar um álbum de estúdio, o grupo desfruta do lançamento do disco homônimo de 2014 que teve mais de três anos de produção e, segundo o guitarrista Lúcio Maia, retrata “o ápice da nossa maturidade musical”.
Os membros da banda pernambucana -que toca no Sesc São José dos Campos no sábado (21), às 20h, com ingressos custando de R$ 6 a R$ 30- não ficaram parados nesse período. A lista de projetos paralelos é extensa: Sebozos Postizos, Almaz, Afrobombas, Maquinado, Zulumbi, o DVD “Ao Vivo No Recife” (2012) e turnê com Marisa Monte foram algumas das atividades que vieram depois de “Fome de Tudo” (2007).
O momento atual do Nação permitiu experimentações que o distancia da estética de manifesto do manguebeat que criou nos anos 1990 e o aproxima do pop, com músicas mais curtas, diretas e melódicas.
“Há 20 anos, eu não me via fazendo músicas de amor (…) Tem muita coisa a ser explorada no Nação e amor é uma dessas coisas. É questão de encontrar o momento certo da nossa liberdade artística, é quase uma questão moral nossa”, afirma Maia.
Ao longo de entrevista ao Meon, o guitarrista fala sobre o novo álbum, o vocalista e letrista Jorge Du Peixe que “está mais inspirado do que em qualquer outra época da vida dele”, da mudança de público do Nação Zumbi, da relação com Marisa Monte, dos shows diferentes uns dos outros, de “Da Lama Ao Caos” (1994), primeiro disco do grupo que completa 20 anos em 2014 e de Chico Science, cantor e fundador do grupo, morto em 1997 em um acidente de carro.
“Lembro muito de Chico todo dia, nunca deixei de pensar em Chico. Sonho às vezes com ele e comento com os meninos e eles dizem que sonham também. Ele ainda está junto da gente”, conta.
O novo disco vem depois de sete anos do “Fome de Tudo”, mas a banda teve muitos trabalhos paralelos (Sebozos Postizos, Zulumbi, Maquinado, você, Pupillo e Dengue tocando com a Marisa Monte e outros). Como esses projetos influenciaram nessa nova fase do Nação?
Acho que, na real, a gente não ficou parado nesses sete anos. Foi uma pausa para banda, mas tivemos muitos projetos, o Almaz, Sebozos Postizos, o DVD ‘Ao Vivo no Recife’, a turnê da Marisa Monte que começou em junho de 2012 e foi até o fim do ano passado, o disco com o Mundo Livre S. A., são muitos. Durante esses trabalhos a gente continuou trabalhando com o Nação, botando ordem na casa, trabalhando com os produtores. A gente ficou sem lançar disco, mas todo mundo continuou junto.
Mas eu não sei te dizer até que ponto esse tipo de coisa influenciou no som, mas com certeza rolou porque você se envolve com outras pessoas e contribui para esse sentido artístico, de se autorrenovar. A gente sempre foi uma banda com a característica de se renovar, de soar diferente, de procurar algum tipo de relação diferente no estúdio ou na hora de compor.
Queria saber da relação da banda com a Marisa Monte, especificamente, porque ela tem uma música no novo disco (“Melhor Hora da Praia”). Tem mais algo dela na sonoridade do disco?
Olha, a gente conheceu Marisa em 1993, na época do “Da Lama Ao Caos”, temos uma profunda admiração por ela. Marisa é uma das pessoas mais generosas que conheci na minha vida, foi uma honra conviver com ela, se tornar amigo, coisa de família, de se reunir com os amigos, os filhos.
Mas rolou sim uma proximidade. Nessas temporadas com os shows dela, ela sempre disse que gostava de ciranda, de Lia de Itamaracá, da parte mais poética da ciranda, a ciranda como uma poesia lúdica mais forte que saiu de lá de Recife, uma manifestação cultural folclórica total de união, uma grande roda na praia que todo mundo dá a mão sem nem se conhecer.
Aí quando a gente se deparou com essa música [“A Melhor Hora da Praia”], falamos para ela cantar e ela topou na mesma hora, foi de uma forma muito espontânea.
A gente nunca fez estratégia comercial, a gente nunca se mediu comercialmente. E as músicas desse disco falam por si só, acho que é o nosso trabalho mais bem trabalhado harmonicamente e poeticamente. O Jorge [Du Peixe] está mais inspirado do que em qualquer outra época da vida dele. A gente quebrou uma tradição de 20 anos trabalhando com tempo predeterminando, com contrato de tempo para fazer os discos. Eram três meses para ter o disco pronto. Agora a gente teve três anos e meio para fazer esse.
Você já disse que o Jorge não consegue trabalhar com pressão do tempo.
É muito difícil para Jorge escrever pressionado por tempo e, para um letrista, ter três anos para escrever dá uma tranquilidade muito grande, é trabalhar com o portão aberto. Principalmente para ele que sempre trabalhou sobre pressão em todos os discos. Jorge sempre estava na situação de pressão e escrever depende muito do ambiente, das circunstâncias.
Às vezes escreve uma frase e depois de três meses aquilo não significa para você a mesma coisa. Agora, para ver aquela frase um ano depois de escrita ainda antes de gravar é um luxo para quem escreve, é muito mais confortável.
Esse disco tem músicas mais curtas, uma sonoridade mais crua e melódica. É o disco mais pop de vocês?
Com certeza, é o disco mais acessível nosso. Acho que a gente foi se tornando mais popular, vide os shows que a gente tem tocado. Dá para perceber a renovação do público nos últimos 20 anos. É uma gurizada que não era nem nascida na época de Chico [Science]. Já me disseram: ‘Sou fã de vocês, mas nunca ouvi falar desse Chico que vocês tocavam antes’. São gerações diferentes de público. Existe uma renovação no trabalho.
Pupillo [baterista do grupo] disse que a banda pôde explorar arranjos diferentes nesse novo trabalho. Você poderia dar exemplos de coisas novas que vocês quiseram experimentar?
Olha, a banda sempre foi muito sisuda. Por exemplo, eu não me via há 20 anos fazendo músicas de amor…
E o disco é quase todo sobre amor.
Sim, é recheado de canções mais emotivas. Isso não cabe aqui, mas reflete questões pessoais de cada um da banda, desse falar de amor de uma forma tão escancarada. São essas coisas que mostram que tem muita coisa a ser explorada no Nação, falar de amor é apenas uma delas. É questão de encontrar o momento certo da nossa liberdade artística, é quase uma questão moral nossa.
O que mudou na performance, na química em cima do palco do Nação?
O palco para a gente é o momento alto da nossa música, é o lugar onde a gente gosta de estar. Estar no estúdio, viajar, tudo isso é legal, mas acho que toda banda nasceu para estar no palco. Banda de estúdio não dura, a banda que tem o show como o seu melhor momento é que pode ser chamada de banda.
O Nação sempre foi de dois tipos: de disco e de show. Nunca um é igual ao outro e hoje acho que estamos ápice da nossa maturidade musical. Os shows estão sendo muito intensos, diferentes uns dos outros. A gente tem o repertório e os arranjos a serem seguidos, mas temos o momento de desobedecer isso artisticamente. Para a gente tem sido uma experiência muito boa. Nós temos 23 anos de palco. A gente tem mais tempo junto no palco do que temos com os nossos filhos.
Sobre “Cicatriz”, single do disco, você disse na revista Rolling Stone que tem algo de subconsciente na letra do Jorge Du Peixe que remete a Chico Science. O que ainda tem de Chico Science na Nação Zumbi?
Tudo é Chico. Tudo começou a partir dali, Chico era o cara mais fantástico, ele que juntou a gente. Gostava e respirava tudo isso. Dele vem o nosso nome, as canções, o palco, toda a herança que a gente tem. Lembro muito dele, todo dia, nunca deixei de pensar em Chico. Sonho às vezes com ele e comento com os meninos e eles dizem que sonham também. Ele ainda está junto da gente. A gente tem um orgulho de ter feito o que a gente fez, naquele curto prazo de tempo que ficamos juntos.
Eu tive a minha primeira banda aos 16 anos e ele tinha 21. A gente fez muita coisa. Aos 26 anos ele morreu. Eu aprendi com ele e ele aprendeu comigo. Chico abriu minha cabeça e eu a dele, lembro que Chico não gostava de rock quando conheci ele e mostrei o rock inglês dos anos 1960 que mudou a maneira de ele pensar, de escrever. Era uma pessoa que sempre tinha alguma coisa para oferecer, uma pessoa generosa. Por isso que o nosso show hoje tem tanta energia, tanta explosão, os sentimentos, e as pessoas percebem isso. É coisa de ficar emocionado mesmo.
“Da Lama Ao Caos” completa 20 anos de existência em 2014. Como vocês vão comemorar essa data ou já estão comemorando?
A gente tem que comemorar a vida inteira. O “Da Lama Ao Caos” é o momento inicial de tudo o que a gente fez até hoje e ninguém entendeu quando lançou. Olhando para trás, dá para ver que a gente estava à frente do tempo quando gravamos. E nós comemoramos em todo show, tem um bloco de músicas do disco que a gente toca nos shows que é a nossa celebração desse começo de Nação.
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