Futebol e poesia
Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos


Com seu gosto pelo exagero – e que bom gosto! – Nelson Rodrigues, de quem se dizia não entender nada de bola, mas que vivia passionalmente a paixão dos estádios, imprecava contra os escritores brasileiros pelo desprezo literário por um das nossas mais fundadas paixões – o futebol.
“Nossa literatura ignora o futebol, e repito: nossos escritores não sabem cobrar um reles lateral” – dizia o grande dramaturgo e cronista, provavelmente com os olhos rútilos de sangue e tomado de uma ira divina.
(O mesmo Nelson talvez dissesse, se aficcionado também fosse de outra insondável manifestação da alma nacional – a música popular e seus sambas, marchas, chorinhos, maxixes…: “…nossos escritores não sabem batucar um reles surdo.”)
Nos dois casos, dá para arriscar uma explicação para a ausência de obras poéticas mais abundantes sobre as duas artes mais populares do Brasil. Uma explicação naturalmente nada científica. Como sabemos, porém, em matéria de samba e futebol a ciência não encontrou ainda seus teoremas e suas equações, tem errado até pênalti batido sem goleiro.
A poesia, a fantasia que dá gosto à vida, os desmoraliza – ciências, equações, modelos matemáticos, cálculos infinitesimais. Ironia: o Banco Central denominou “Samba” sua ferramenta para tomada de decisões sobre juros – baseada em ‘modelo estocástico bayesiano’.
Lá pelo início da segunda metade dos anos 1900, os russos em tempos ainda da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, empolgados com seus feitos nas artes de Einstein, na corrida pelo espaço com o satélite Sputinik, aplicaram-se também à criação de um certo modelo de infalível futebol científico. Inventaram até um “clone”de Garrincha, um ponta-direita chamado Metrevelli. Metrevelli tropeçava e destrambelhava em pernas de sua falta de jeito. O futebol-ciência dos soviéticos desmoralizou-se ao segundo drible de uma certo Manuel Francisco dos Santos.
Concedamos que o motivo que parece afastar os melhores dos nossos letrados poetas da arte de escrever sobre o futebol (ou o samba) seja, por assim dizer, o do temor da concorrência. Como criar um poema que possa se sobrepor a um drible da Garrincha, a uma jogada-gol de Pelé. Ou, na música, a um verso com “Tira seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor”, da dupla Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito ou a “Me sinto igual a uma folha caída/Sou o adeus de quem parte/Pra quem a vida é pintura sem arte”. É deslealdade – o melhor é mesmo fugir da bola dividida.
O cineasta italiano Píer Paolo Pasolini (“Édipo Rei”, “Teorema”), em um extraordinário texto de 1970, a propósito da vitória do Brasil sobre a Itália, na final da Copa do Mundo de 1970 ( 4 a 1, Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto, Riva para os italianos) intuiu esse sentido poético do futebol brasileiro, em contraponto com o de seu país, segundo ele mais prosaico. Não se pode dizer que Pasolini tenha sido aplaudido na velha bota.
“Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética.
(…) O drible é também em essência poético (embora nem sempre, como a ação do gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar.
(…) Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto, o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contra-ataque seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individual (drible e gol; ou passe inspirado).
Também o historiador marxista britânico Eric Hobsbawm (“História do marxismo”, “História social do jazz”) no livro “Era dos extremos”(1994) elevou o nosso jogar bola a uma condição de transcendência criativa, a própria essência da arte: “Quem, tendo visto a seleção brasileira jogar em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”, indagou.
Mesmo sob o risco de perder o confronto(e quem gosta de perder, seja uma mera pelada?) no confronto de sua arte com a arte de Zizinho, Leônidas, Nilton Santos, muitos dos nossos maiores poetas arriscaram-se a encarar o desafio. Seja pela paixão pelo jogo, ou apenas por sua plasticidade, dramaticidade e paixão nele contidos muitos mergulharam no risco.
Uma lista, vagamente incompleta, registra Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Paulo Mendes Campos, João Cabral de Mello Neto, Glauco Matoso, Paulo Leminski, Oswald de Andrade, Carlos Vogt, Ferreira Gular, Coelho Neto…
Mas, curiosamente, a primeira incursão da poesia no campo do futebol, nos comportados e preconceituosos anos 1920, foi de uma mulher: a poetisa, tradutora (entre outros, de Shakespeare) e feminista carioca Ana Amélia Carneiro de Mendonça. Apaixonada pelo futebol por obra e graça do pai, quando este esporte era ainda uma distração das elites nacionais, a mocinha freqüentava campos e entendia do riscado.
Seu poema “O Goleiro”, escrito em homenagem ao futuro marido, Marcos Carneiro de Mendonça, um historiador de bela estampa que jogou no Fluminense e na Seleção Brasileira, é o pontapé de inauguração da relação entre a poesia e nosso desporto, como se dizia então, que viria, perdida a majestade herdada dos ingleses, a se tornar em poucos anos, o mais popular entre os brasileiros.
Ao ver-te saltar para um torneio atlético,
sereno, forte, audaz como um vulto da Ilíada,
todo o meu ser vibrou num ímpeto frenético.
como diante de um grego, herói de uma Olimpíada.
Estremeci fitando esse teu porte estético,
como diante de Apolo estremecera a dríada,
Era um conjunto de arte esplendoroso e poético,
enredo e inspiração de uma helioconíada,
No cenário sem par de um pálido crepúsculo
tu te lançaste no ar, vibrando em cada músculo,
Por entre as aclamações de massa entusiástica.
Como um Deus a baixar do Olimpo, airoso e lépido,
tocaste o solo, enfim, ardente, intrépido,
belo na perfeição da grega e antiga plástica
De todos os melhores cultores das nossas musas, talvez o que mais escreveu, em prosa e verso, sobre o futebol foi o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Não consta que tenha algum dia calçado uma chuteira nem visitado estádios com freqüência, isto se algum dia foi a algum. Confessava-se torcedor do Vasco, dizia não entender do esporte. Porém, sobre ele falou com extraordinária propriedade, seja do ponto de vista do fato social e popular seja como uma arte.
Seus escritos a respeito do jogo foram reunidos pelos dois netos no livro “Hoje é dia de futebol”, lançado por ocasião das comemorações dos 100 anos de nascimento do esquivo itabirano.
Assim ele cantou a paixão:
Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São vôos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
– afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade
(“Futebol”)
E as lições de vida que ele traz:
Eu sei que futebol é assim mesmo,
um dia a gente ganha,
outro dia a gente perde,
mas porque é que,
quando a gente ganha,
ninguém se lembra que futebol é assim mesmo?
No outro lado do campo em que se situou o mineiro, o pernambucano João Cabral de Mello Neto, de versos medidos e milimétricos como um passe perfeito, era do ramo, “boleiro”, como se diz hoje, na juventude. Chegou a ser campeão juvenil em Pernambuco, jogando pelo Santa Cruz.
Torcedor do América carioca, de melhores dias de glória no passado, Cabral fez poemas sobre seu clube, a respeito de jogadores brasileiros na Europa, o futebol na Espanha (como diplomata, viveu anos lá). Seu versejar atingiu em cheio o “divino” Ademir da Guia e sua extraordinária noção de tempo no jogo:
Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.
Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o
Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.
(Este Ademir é o da Guia, ídolo indestronável do Palmeiras)
De bola não era Vinicius de Morais, embora avisa-se torcer pelo Botafogo. Mas homem de poesia erudita e popular (na música) e vidrado em cinema, dedicou um poema ao que foi o maior poeta da bola no Brasil, em alguns momentos também um Carlitos dos campos – o dito Manoel Francisco do Santos, Garrincha, Mane Garrincha, simplesmente Mane:
A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.
Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!
Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.
Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!
Outro botafoguense jurado, Paulo Mendes Campos – esse de ir a estádios e até bater suas peladas, até, confessou, ser traído pelo joelho – viu Mané de outro ângulo:
É pela cartilha da infância que se joga futebol.
Garrincha vê a ave. Garrincha voa atrás da ave.
A ave voa aonde quer.
Garrincha voa aonde quer atrás da ave.
O voo de Garrincha-ave é a chave,
a única chave.
E um bando de homens se espanta no capim.
É também do mineiro PMC, no mesmo poema em que entoou Garrincha, um canto a Pelé, o deus negro de tantas e tantas poesias no campo e tantos truques e mistérios nos estádio que pareceu inibir os poetas das palavras – teve menos das letras que merece, no caso dando razão a Nelson Rodrigues.
Há uma dramaticidade em Pelé que eu não me consinto adivinhar.
Como Cristóvão Rilke, Pelé tem um canto de amor e de morte.
Como Cristóvão Rilke, Pelé é o porta-estandarte.
Como o de Langeneau, Pelé está no coração das fileiras mas está sozinho.
Pelé e gol fundiram-se numa entidade única, são sinônimos perfeitos. Assim como no poema do maranhense Ferreira Gullar, intitulado “Gol”, no qual o inesquecível Dez, símbolo-mor mundial desta nobre arte de chutar um “esférico”, é o sujeito oculto:
A esfera desce
do espaço
veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
depois
como o joelho
a dispõe à meia altura
onde
iluminada
a esfera
espera
o chute que
num relâmpago
a dispara
na direção
do nosso
coração.
Nossos versejadores não freqüentaram com afinco os verdes campos dos senhores da bola. Quando o fizeram, porém, bateram um “bolão” como se diz hoje com certa ausência de poesia.
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