Gestão: entre a tirania e a mudança de hábito

Em seu Discurso sobre a servidão voluntária, publicado após sua morte por volta de 1570, Etienne de La Boetie afirma que “Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos. Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gosto

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
fundo_placeholder-023136

Em seu Discurso sobre a servidão voluntária, publicado após sua morte por volta de 1570, Etienne de La Boetie afirma que “Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos.

Não basta que lhe obedeçam, têm de lhe fazer todas as vontades, têm de se matar de trabalhar nos negócios dele, de ter os gostos que ele tem, de renunciar à sua própria pessoa e de se despojar do que a natureza lhes deu. Têm de se acautelar com o que dizem, com as mínimas palavras, os mínimos gestos, com o modo como olham; não têm olhos, nem pés, nem mãos, têm de consagrar tudo ao trabalho de espiar a vontade e descobrir os pensamentos do tirano. Será isto viver feliz?”

Não vivemos mais sob a tirania, mas a condição daqueles que compõe as equipes gestoras de muitos dos municípios de nossa região metropolitana, acaba nos parecendo bastante semelhante a de ‘apoio e alicerce da tirania’ como dizia La Boetie.

As pessoas indicadas para assumir secretarias, chefias de departamentos e outras funções de liderança na gestão pública precisam preocupar-se e muito com a vontade e os interesses do(a) prefeito(a) que lhes indica, estes cargos comissionados e designados são responsáveis por efetivar com poucos recursos soluções para grandes problemas das cidades, e sua vontade de solucionar questões pendentes há diversas gestões da coisa pública, por vezes, esbarra em intenções diversas daqueles que lhes indicaram. Os cargos em comissão, por indicação, são ocupados por pessoas com alto comprometimento junto ao gestor e sua equipe, cabendo-lhes dever de obediência, mais do que autonomia para realizar suas tarefas e vontades.

La Boetie afirmava em seu discurso que a equipe colaboradora constituía o segredo e a mola da dominação pelo tirano, convocados para serem cúmplices de suas ações e que numa geração em cadeia envolveriam outros sujeitos e acabariam por enredar muitas pessoas beneficiadas com troca de favores, lucros e ganhos individuais diante dos quais deixar de ser livre não se percebia como algo tão ruim, ‘o tirano submete a uns por intermédio de outros’.

É urgente que a população cada vez mais se aproxime da gestão pública, fiscalize tanto a criação de cargos em comissão e sua efetiva necessidade, quanto a atuação das pessoas que assumem tais funções, visando romper com possíveis resquícios tirânicos de alguns gestores, bem como com a servidão voluntária das massas acomodadas.

Publicado em: