“Jesus Cristo Superstar” inspira novas polêmicas

Quando estreou na Broadway, em 1971, o musical Jesus Cristo Superstar balançou a crítica, surpreendida pelo seu formato de ópera-rock. Também movimentou certos grupos religiosos católicos, inconformados com o que consideravam uma blasfêmia: apresentar um Jesus Cristo muito afeiçoado a Maria Madalena e um Judas simpático demais. Os anos se passaram e o cenário não parece ter mudado – com previsão de estreia para o dia 14 de março, no Teatro do Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo, a versão de Jesus Cristo Superstar dirigida por Jorge Takla ainda continua incomodando.

Escrito por: Ubiratan Brasil5 min de leitura
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Jesus Cristo SuperStar com Igor Rickli e Negra Li

Igor Rickli (centro) é Jesus e Negra Li vive Maria Madalena

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Quando estreou na Broadway, em 1971, o musical Jesus Cristo Superstar balançou a crítica, surpreendida pelo seu formato de ópera-rock. Também movimentou certos grupos religiosos católicos, inconformados com o que consideravam uma blasfêmia: apresentar um Jesus Cristo muito afeiçoado a Maria Madalena e um Judas simpático demais. Os anos se passaram e o cenário não parece ter mudado – com previsão de estreia para o dia 14 de março, no Teatro do Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo, a versão de Jesus Cristo Superstar dirigida por Jorge Takla ainda continua incomodando.

“Recebi uma mensagem no Facebook que me deixou chocada”, conta a cantora Negra Li, que vai interpretar Madalena. “Um rapaz escreveu que eu iria para o inferno, pois não estava sabendo o que fazer com a minha carreira e que, terminada a temporada, eu seria abandonada por todos.” Evangélica, ela considerou ingênuo o comentário. “O musical conta uma história fiel à Bíblia. Não há nada de blasfemo ou agressivo.”

Também o ator Igor Rickli, intérprete de Jesus, recebeu manifestações diversas. “Foram diferentes sensações”, disse. “Tudo porque o musical trata de fé, o que é delicado. Mas, em cena, contamos uma versão da história de um homem que foi líder político e religioso, sem tomar nenhum partido.”

Tamanho barulho já era esperado por Jorge Takla, desde o início da preparação do espetáculo. “A polêmica é essencialmente devida ao fato de a obra colocar Jesus em cena de maneira extremamente humana, um homem com seus conflitos, suas dúvidas e seus medos”, justifica.

“Talvez isso incomode as pessoas menos esclarecidas, que acham que Jesus, sendo o Filho de Deus, não possa ter sentimentos, ou ser um homem de sua geração, igual aos outros.” E completa: “Muito humano também é o personagem de Judas. A obra é essencialmente o seu ponto de vista, o ponto de vista da dúvida e da culpa”.

De fato, a arte se sobrepõe a particularidades religiosas e políticas. Foi o que observou a reportagem, que acompanhou um ensaio geral na semana passada. Ainda que desprovidos de figurinos (criados por Mira Haar, que une graciosamente túnicas da época com detalhes modernos, como roupa militar), iluminação e cenário, o elenco apresentou sugestões de como serão a interpretação e a apresentação vocal.

Criado por Tim Rice (letras) e Andrew Lloyd Webber (melodia), o musical surgiu inicialmente como um disco e, quando chegou ao palco, tornou-se clássico por utilizar o rock como linguagem, estabelecendo de vez o gênero rock musical (que vinha sendo rascunhado no teatro desde os anos 60 e teve sua explosão em Hair, de 1968) e associando o rock’n’roll à rebeldia libertária que Jesus representa para seus discípulos.

“É essa proximidade com os homens que o torna mais fascinante”, comenta Igor Rickli, cujas feições se assemelham à tradicional imagem do Filho de Deus. “No musical, Jesus revela-se um guerreiro, mas luta em busca do amor, daí sua relação afetuosa com Judas e Maria Madalena.”

Idêntico pensamento apresenta Alírio Netto, que vive Judas. “É uma relação de amizade que se deteriora pelo fato de Judas não se conformar com a aceitação de Jesus, aclamado rei dos judeus”, conta ele que, curiosamente, há 12 anos, viveu o papel de Jesus em uma versão mexicana do musical. Hoje, ao assistir à versão brasileira, viveria outra realidade. “Ao acompanhar Igor vivendo Cristo, sinto que agora eu faria o papel de outra forma, talvez mais carinhosa.” Em seguida, Alírio completa. “Na verdade, descobri que Judas é verdadeiramente o meu papel, por conta de suas fortes emoções.”

Também adaptada como Maria Madalena, Negra Li lembra de suas dificuldades. Primeiro, mudar o registro vocal. “Fiz aulas para ficar mais à vontade no registro do belt, que é o utilizado em musicais”, conta ela, que percebe um toque mais brasileiro na atual montagem por conta da visceralidade com que o elenco se entregou à produção. “Logo me contagiei, pois a adesão é muito grande, permitindo que todos, em algum momento, se destaquem.”

Coube a Takla abrigar um elenco tão distinto e torná-lo coeso. Segundo ele, além do desafio vocal (por ser rock, os agudos, muitas vezes, são constantes e, não raro, longos), sua intenção foi valorizar também a dramaturgia. “É um espetáculo muito teatral, daí a necessidade de um trabalho apurado com a atuação”, observa o diretor que, depois de semanas de ensaios, percebeu os primeiros frutos ao notar que a equipe técnica se emocionava com a interpretação. “Percebi o progresso ao descobrir lágrimas no rosto das pessoas”, conta.

Takla, aliás, foi uma escolha natural para comandar a produção. “Estamos com os direitos de Jesus Cristo Superstar desde 2011, mas não conseguíamos encaixá-lo em nosso planejamento”, conta Stephanie Mayorkis, diretora de teatro da Time For Fun, que produz os principais espetáculos da Broadway no Brasil. “E, quando decidimos montá-lo, convidamos Jorge, pois também ele assistiu à montagem do musical realizada em Nova York no ano passado e mostrou como o trabalho ainda continua moderno.”

Assim, para criar um espetáculo também original, Takla convidou uma fiel escudeira, a maestrina Vânia Pajares, para a direção musical, e um “novato”, Anselmo Zolla, para compor a coreografia – experiente no balé clássico, ele se inicia agora em um grande musical e a mistura no estilo foi produtiva: em sua coreografia, movimentos são pequenos e carregados de significado, ressaltando a teatralidade pedida por Takla.

JESUS CRISTO SUPERSTAR – Teatro do Complexo Ohtake Cultural. R. dos Coropés, 88. 5ª e 6ª, 21 h; sáb., 17 h e 21 h; dom., 18 h. R$ 25/ R$ 230. De 14/3 a 8/6.

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