Longa ‘Top Girl’ é simplista ao abordar problema sério
Filme de corte feminista, Top Girl ou a Deformação Profissional tenta mostrar a alienação do desejo feminino quando transformado em objeto de consumo alheio. O filme fala, claro, da prostituição e toma como personagem principal Helena (Julia Hummer), uma atriz que trabalha como garota de programa. Ela tem pouco tempo para dedicar à filha…

Filme de corte feminista, Top Girl ou a Deformação Profissional tenta mostrar a alienação do desejo feminino quando transformado em objeto de consumo alheio. O filme fala, claro, da prostituição e toma como personagem principal Helena (Julia Hummer), uma atriz que trabalha como garota de programa. Ela tem pouco tempo para dedicar à filha adolescente e mantém relacionamento um tanto ambivalente com sua mãe, uma professora de canto. Há certa estranheza na história, o que vem a ser um dos (poucos) pontos positivos do longa de Tatjana Turanskyj. Esta é a segunda parte de uma trilogia da diretora alemã, dedicada à situação da mulher no mundo atual.
Deve ser uma estratégia estilística da cineasta, mas o filme parece frio, mecânico e despido de qualquer traço de humor ou desejo. É provável que tenha escolhido essa linguagem para expressar mesmo a insipidez que imagina existir no comércio sexual. Em todo caso, a protagonista Helena atende aos clientes de maneira rígida, embora procure desempenhar de maneira competente o papel que lhe atribuem. Basicamente, o de dominatrix. De fato, são os masoquistas os clientes que mais a procuram, e ela compreende muito bem que serve apenas de suporte à fantasia alheia. Seu próprio desejo não conta nada na relação e, sem dúvida, é por isso que, depois de algum tempo, começa a se entediar profundamente do papel que lhe atribuem, ainda que seja bem remunerada para isso.
Há um grão de sal na maneira como a outra história paralela se desenvolve, com a mãe da garota de programa seduzindo um aluno de meia-idade que, ainda por cima, canta mal à beça. Mas, se há por onde o filme ganhar certa vida, é por meio desse contraponto entre o sexo mecânico da garota que se vende por dinheiro e o desejo real que acontece entre uma mulher mais velha e seu aluno. Mesmo essa contraposição é mal explorada.
O problema maior é o didatismo com que essa situação é mostrada, como prova a mais de que a mulher, mesmo na (em tese) mais igualitária sociedade contemporânea, sofre pela opressão machista. Mesmo que alguns dos clientes de Helena sejam tudo menos másculos, ainda assim são homens, exploradores e agressivos. De qualquer forma, a demonstração atinge o ápice nas sequências finais, que não vale a pena contar, sob pena de o comentário ser tachado de “spoiler”, esse pecado capital contemporâneo associado às séries americanas. Mesmo sem entregar o jogo, pode-se dizer que o máximo da fantasia masculina em relação às mulheres parece ser transformá-las em animais de caça. Nada menos. A ideia soa tão sugestiva a Tatjana que ela não hesita em usá-la duas vezes. Para que o “recado” fique bem dado.
Essa ação em dois tempos dá a tônica do filme, do seu, digamos, projeto estrutural. Tudo é mostrado uma vez, depois repetido e enfatizado, como se a demonstração da tese se desse pelo efeito de redundância. E, como se precisa provar um teorema, nada pode atravessar o caminho que possa atrapalhar a demonstração. Nenhuma digressão, por certo, e nenhuma contradição, é claro. Desse modo, o filme se torna simplista e superficial, mesmo que abordando um problema sério e pelo lado correto. É aquela história: não basta ser justo e estar com a razão para fazer boa obra de arte. Às vezes é o contrário que acontece, tamanho é o paradoxo humano. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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