Meon Tech Entrevista: “Ainda estava sangrando quando escrevi.” Nathália Brandão transformou os desconfortos do início da carreira em livro.
Nessa entrevista ao Meon Tech a autora fala como a IA impacta regras não ditas no mercado corporativo.

Existe uma quantidade enorme de livros ensinando como chegar ao topo. O problema é que quase todos foram escritos de lá. Nathália Brandão percebeu isso cedo, quando ainda tentava entender as regras invisíveis de uma multinacional na qual acabara de entrar como trainee. As obras que encontrou falavam de sucesso consolidado, com a clareza elegante de quem já esqueceu como era não saber. Ela ainda sabia. E foi exatamente esse desconforto vivo que virou o livro “Cartas a uma jovem executiva: Como construir seu capital profissional e acelerar os primeiros anos de carreira”.
Nathália escreve sobre os primeiros anos de carreira com uma proximidade que a literatura de negócios raramente oferece: sem o distanciamento reconfortante de quem já venceu, sem a memória higienizada de quem reescreve o passado à luz do presente. Ela mesma descreve a experiência como escrever ainda sangrando. E também reforça como a Inteligência Artificial está impactando esse cenário.
Nesse papo comigo, ela falou sobre as regras não ditas do ambiente corporativo e lembra que elas são atemporais.

Papo com Nathália Brandão, autora do livro “Cartas a uma jovem executiva”.
Você descreve um “jogo de regras não ditas” no ambiente corporativo. Qual foi a regra não dita mais difícil de decifrar nos seus primeiros anos, e como descobriu que ela existia?
Uma, entre tantas regras não ditas, foi entender que as organizações operam entre dois sistemas: um organograma formal e um sistema informal de alianças. No início, eu acreditava que só boas entregas seriam suficientes – e torcia por isso, já que sempre fui introspectiva. E, até então, na escola e na universidade, minha avaliação era pela nota da prova e as relações tinham um peso menor.
Com o tempo, percebi que as ideias não prosperam sozinhas. Elas precisam de pessoas dispostas a defendê-las, aprimorá-las e viabilizá-las com você. É o que Peter Block organiza como um tabuleiro de alianças – composto por aliados, indecisos, parceiros ocasionais, oponentes e até adversários. Organizações são sistemas humanos e é preciso aprender a ler esse mapa.
O livro nasce de uma frustração com obras escritas por quem já chegou ao topo. O que muda quando alguém escreve sobre o início da carreira ainda dentro dele, e não em retrospectiva?
O que muda é a distância em relação à experiência. Livros sobre carreira escritos por quem já chegou “ao topo” (seja lá que topo for) tratam dessa jornada com a sabedoria e clareza que só o tempo oferece. Porém, esse distanciamento do início traz o que a psicologia cognitiva chama de curse of knowledge (a “maldição do conhecimento”): depois que aprendemos algo, torna-se difícil lembrar como era não saber. À medida que acumulamos experiência, tendemos a subestimar a complexidade enfrentada por iniciantes, explicando conceitos de forma menos acessível ou esquecendo as dúvidas que tivemos no começo. Foi isso que senti na obra de grandes autores de negócios.
Escrevi Cartas enquanto essas experiências ainda estavam acontecendo. Os desconfortos ainda estavam vivos, eu ainda estava “sangrando”. Isso torna a escrita mais íntima e explica, inclusive, a escolha do formato de cartas. Compartilho a travessia enquanto ainda a percorro, e não de um pedestal. Acredito que essa proximidade torna o livro mais íntimo e acolhedor.
Você fala em interpretar dinâmicas de poder sem renunciar a quem se é. Existe um limite em que adaptação vira anulação? Como saber quando parar de se moldar ao ambiente?
A adaptação é parte da vida em sociedade. Todo ambiente tem seus códigos, rituais e formas de interação. Assim como em um casamento, ajustamos o estilo e o comportamento em respeito ao contexto, sem que isso signifique renunciar à nossa identidade. Duas pessoas podem seguir o mesmo dress code e expressar estilos completamente diferentes. O código é coletivo, já o estilo é individual.
O limite é quando o ambiente não oferece espaço para que a sua singularidade exista. Gosto da metáfora do leão, que é a seguinte: ele sabe nadar, mas essa não é sua maior potência. Passa a vida tentando provar que sabe nadar, começa a esquecer que nasceu para correr. Aos poucos, sua autoestima se deteriora porque seu melhor não encontra espaço para emergir. O problema, portanto, está em permanecer num ambiente que exige que você esconda aquilo que faz de você quem é.
Você acha que o fato de ser mulher trouxe uma camada de desafio extra no ambiente corporativo?
Embora muitos desafios do início da carreira sejam universais, as mulheres e outros grupos minorizados frequentemente enfrentam camadas adicionais de complexidade. À medida que avançam na carreira, surgem marcadores que podem levar à deslegitimação de sua competência: a idade, a maternidade, a raça e outros fatores passam, muitas vezes, a influenciar a forma como seu trabalho é percebido, além da qualidade de suas entregas.
Por isso, acredito que construir “capital profissional” se torne ainda mais importante. Competência, alianças e autoria, apesar de não eliminarem vieses estruturais, ampliam a capacidade de navegar nesses contextos.
Pensando em quem está lendo o livro hoje, no mercado de 2026, com IA mudando funções de entrada em empresas, as regras não ditas que você mapeou ainda valem, ou já mudaram?
As regras não ditas são atemporais. O que muda é o contexto em que elas operam. Isso, sim, vai mudar e muito. No livro, proponho que o início da carreira seja entendido como a construção de cinco capitais: técnico, relacional, reputacional, cultural e financeiro. A inteligência artificial pressiona sobretudo o capital que, historicamente, era o mais valorizado no começo da vida profissional: o capital técnico.
Ao automatizar tarefas e processar grandes volumes de conhecimento em milissegundos, o desenvolvimento dos demais capitais ganha ainda mais importância. Saber executar continuará sendo crucial. Mas a diferenciação virá da capacidade de interpretar contextos, compreender a cultura das organizações, saber construir confiança e tomar decisões. A IA, portanto, altera o valor relativo desse sistema de capitais.
Se pudesse entregar uma carta com os aprendizados desse livro para a Nathália, trainee recém-chegada à multinacional, o que estaria nela e por quê?
Estaria tudo o que está no livro “Cartas a uma jovem executiva”. Escrevi esse livro para aquela trainee que atravessava a porta da multinacional pela primeira vez, cheia de entusiasmo, mas sem conhecer as regras invisíveis daquele ambiente. Cada carta é uma tentativa de segurar na mão dela – e de tantas outras jovens profissionais -, sem tirar a beleza da descoberta do seu próprio caminho.

Redator
Armindo Ferreira, que acumula mais de 15 anos de experiência na cobertura de tecnologia. Ao longo da carreira, passou pela TV Globo, foi colunista de tecnologia do SBT News, apresentador da TV Thathi SBT e é autor do Blog do Armindo, um dos mais antigos veículos independentes de cobertura tecnológic…
Posts Relacionados

Motorola revela motorola signature 27 com novo Snapdragon® 8 Elite Extreme Gen 6 e câmera de 200 MP


Capacita+: Treinamento de IA do Google Cloud espera treinar 200 mil pessoas no Brasil em um único dia
