A mulher com deficiência e suas expectativas maternas

Trago neste mês uma reflexão sobre a feminilidade e o direito ao seu exercício pleno

Escrito por: Mateus Paulo de Lima5 min de leitura
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Oi gente. Mês de eleições gerais, das bruxas, das crianças, dos professores e da padroeira, período de diferentes festas e compromissos. Espero que todos e todas possam prestigiar e participar soberanamente dessas celebrações. Especificamente na perspectiva da pessoa com deficiência, a mulher PCD, trago neste mês uma reflexão sobre a feminilidade e o direito ao seu exercício pleno. Por diferentes motivos, ainda pesa nos ombros desse grupo de indivíduas o preconceito sobre sua natureza reprodutiva. Não vou me deter exclusivamente à problemática da sexualidade, pois já nos aprofundamos no tema. No entanto, sexualidade e reprodução nos levam ao tópico central de hoje, que é exatamente a questão sobre constituir uma família e exercer a maternidade na experiência de pessoas com deficiência.
Na minha vida de cego e professor, sobre grupos socialmente vulneráveis, acompanhei de perto muitas PCDs que cresceram em contextos sócio familiares limitados pedagogicamente. Incrédulo, observei o quanto essas pessoas não recebiam a devida orientação para o futuro arbítrio de seu instinto materno. É como se, por possuir deficiência, esse grupo esteja menos apto a dar os passos necessários para amadurecer, viver suas paixões e aprender amar. O entendimento sobre a questão materna e seu livre exercício começa em casa, na promoção de uma formação social pautada no diálogo, com instruções formadoras direcionadas, bem como um forte incentivo emocional que considere todas as etapas de qualquer relação, apesar da deficiência. Deixemos questões de gênero, identidade sexual e adoção para um tema futuro. Hoje vamos permanecer na reflexão sobre a maternidade para PCD, somente do ponto de vista reprodutivo. Aquela máxima do homem e da mulher, do espermatozoide que fecunda o óvulo. Se o entendimento mais raso sobre esse tema já se manifesta polêmico, imaginemos então como ficaria extenso um texto que versasse sobre todas as abordagens sensíveis.
Quando uma mulher quer ser mãe, independentemente das condições socioeconômicas e familiares que dispõe, ela se realiza e pronto. Entretanto, quando uma mulher com deficiência decide ter filhos, não falta quem a tente dissuadir. Gente sem instrução que só consegue apontar as faces negativas da reprodução alheia, vinculando sua deficiência com sua capacidade de ser mãe. Este pensamento mesquinho deriva daquela velha preconcepção de que, se uma PCD engravidar foi irresponsabilidade dela ou se ela foi vítima de algum mal. Nesse sentido, estudos feitos por entidades de promoção dos direitos humanos para a América Latina comprovam que, uma vez grávida, a mulher com deficiência sofre até três vezes mais do que aquela fisicamente plena em sua saúde. Um levantamento que ainda não abrange aquelas gestações que sequer chegam à base de dados sociais do poder público. Frequentemente, as APAES, ONGs e projetos sociais que dão assistência às pessoas com deficiência, testemunham esses episódios.

Agora, saindo da perspectiva da gestação da PCD em estado de vulnerabilidade social, vamos pensar na mulher bem instruída, aquela PCD que recebeu todas as possibilidades e informações necessárias ao exercício de uma vida independente. São mulheres que trabalham, não dependem de benefícios sociais, que se relacionam naturalmente com as pessoas, como se não tivessem deficiência. Enfim, essas indivíduas bem preparadas para construírem um lar e uma família. Mesmo essas mulheres, as PCDs independentes e incluídas, também sofrem grande discriminação quando se veem grávidas. Caro leitor, neste ponto te proponho um desafio: se você ainda alimenta dúvidas sobre a recorrência do problema que apresento, convido você a entrevistar alguma mãe com deficiência e perguntar a ela, com todo respeito, se ela sofreu algum preconceito quando gestante. Aposto contigo que a resposta será positiva. O objetivo deste desafio é leva-lo a compreender que o preconceito sobre a maternidade para a mulher com deficiência, vergonhosamente, ainda permanece como um gigantesco obstáculo no âmago da sociedade.

Conforme abordamos até o presente sobre esse assunto, não há proposta resolutiva que não passe por uma profunda conscientização popular. Viver com uma deficiência, por si só, já é difícil. Ser mulher e ambicionar a maternidade, para uma PCD, tornou-se algo ainda mais complicado. Agora, deixar de enfrentar aqueles que pensam contrariamente ao livre exercício materno, isso é inaceitável.

Visitando o lado exterior ao tema da maternidade, eu devo fazer justiça e chamar a atenção da pessoa, com e sem deficiência, homem ou mulher, em uma relação ou só, que ao optar por ter filhos, essa pessoa deve fazê-lo conhecendo as consequências, sabendo pedir ou aceitar auxílio, consciente de sua própria condição e arcando com o ônus daquilo que vier a se tornar sua vida a partir da maternidade. Ter deficiência e desejar ter filhos é de justo direito. Agora, ter deficiência e esperar que o mundo seja piedoso é infantil, sinal de despreparo.

Sobre essa discussão materna, existe ainda outro lado a ser pensado. Falo do pai com deficiência. Muitas vezes presenciei mulheres cujo companheiro ou cônjuge é PCD, e que são desacreditadas por terceiros que presumem tratar-se, o homem PCD, de uma companhia incapaz de suprir a função paterna. Quando me casei, devido minha cegueira, minha esposa reorganizou seu ciclo de amizades ao constatar, abismada, opiniões toxicas ao meu respeito. Gente que, inclusive eu, acreditava ter um discernimento social mais aguçado. Certa vez a interrogaram se era ela quem me banhava. Isso porque eu sou apenas cego. Não que esses comentários, nunca a mim diretamente direcionados, me ofendam. Não! Eu apenas fico indignado. Seria como perguntar a um surdo como é que ele bebe água.

Para concluir, vamos entender de uma vez por todas que, quando oportunizada e conferida as devidas condições para uma PCD, ela tudo pode, inclusive realizar-se enquanto mãe e mulher. Obrigado à amiga Aline Borges, que sugeriu este tema. Militante da causa PCD, Aline tem contribuído significantemente ao administrar, por exemplo, espaços virtuais de discussão inclusiva como o grupo de WhatsApp Lanterna Cultural. Duvidas e sugestões, contate [email protected] e vamos juntos promover uma sociedade mais tendenciosa ao diálogo.

Atenciosamente: Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual.

Mateus Paulo de Lima
Mateus Paulo de Lima

Professor e pessoa com deficiência visual Graduado em pedagogia. Pós graduado em: Ciências Sociais pela PUC Rio e Políticas Públicas pela PUC DF Atuou 10 anos como professor da rede estadual do Estado de Rondônia nas disciplinas de Sociologia, Filosofia e Educação Especial Atualmente trabal…

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