Delfim – o Czar da Economia
Felipe Cury e um pouco de Delfim Neto

O PENSAMENTO: – “O primeiro método para estimar a inteligência de um governante é olhar para os homens à sua volta” – Nicolau Maquiavel
O FATO: Sou um cara nostálgico por natureza. No dia 12 de agosto, a TV me acordava, lá pelas 9 horas da madrugada (rsrsrs), informando que havia sido a noite mais fria dos últimos 13 anos. Como o sono tinha acabado e o frio continuava mais forte ainda, repuxei o edredom e continuei com a TV ligada e de repente a infausta notícia de que DELFIM NETO, nosso ex-SUPER MINISTRO havia falecido.
Morre, aos 96 anos, dez anos mais velho do que eu, o ex-ministro Delfim Netto, ‘czar da economia’ na ditadura.
As ondas da nostalgia começaram a desfilar para mim os tempos do “milagre econômico”, do “pra frente Brasil”, do “Brasil, ame-o ou deixe-o”, do radinho portátil do Médice” antecipando o “tetra” que, tanta raiva política me dava, apesar de ter sido a melhor seleção de todos os tempos.
Sem querer, lembrei da minha Soledade, isolada do mundo, contando apenas com 3 estradinhas vicinais, sem-vergonha, que nos ligava a São Lourenço, Caxambu e Silvestre Ferraz – depois Carmo de Minas – quando não chovia.
Um dos amiguinhos nossos, o Enéas, coroinha do Padre Maia, tricolor fanático do Fluminense, que no Rio de Janeiro trabalhava no IBGE tinha uma parente muito próxima que estava tendo um caso romântico e duradouro com o simplesmente Prof. Delfim, antes da fama e da política, apenas um jovem brilhante. O amor daquela época durava muito e não acabava nunca.
Aposentada e com a ajuda do Professor conseguiu comprar um sitiozinho em Soledade, limítrofe com Silvestre Ferraz, que também era ligado à redondeza por uma miserável estradinha vicinal. Dona Mercedes vivia um pouco no Rio e outro pouco no sitiozinho. À medida que Delfim Neto se agigantava, o amor não morria e se eternizava na simplicidade cabocla.
Certa vez, estávamos no Bar do Geraldo Baiano, Irmão do Wantuil, em baixo na casona do Sr. José Murad, que viria a ser meu sogro, quando estacionou um Jeep super equipado, com 3 cidadãos dentro. Um deles era Delfim Neto: gordo, jovem, sorridente, com os sapatos atolados de lama e as calças arregaçadas até à canela.
Vieram comprar leite, pão, mortadela, queijo, etc. e nos deixou agradabilíssima impressão.
Delfim Netto foi office boy, auxiliar de escritório da Gessy Lever professor universitário, embaixador e ministro durante a ditadura: primeiro comandou a Fazenda, depois a Agricultura, e por fim a Secretaria de Planejamento da Presidência da República. Foi, por muitos anos, o czar dos militares na economia. Viveu o auge do “milagre” de crescimento do PIB. Mais tarde, elegeu-se deputado federal
Anos depois, servindo à ditadura militar, Delfim comandou a economia brasileira entre 1967 e 1974, durante o “milagre”, quando o Produto Interno Bruto chegou a crescer 14% num único ano. Voltou ao comando da finança nacional em 1979, e no começo dos anos 80, no governo do general João Baptista Figueiredo, se viu obrigado a gerir a pior recessão do pós-guerra.
Não conseguiu impedir que os índices de inflação saltassem para níveis até então inauditos, de mais de 200% ao ano, legando à democracia uma herança de crise e descontrole de preços que só seria superada com o Plano Real, em 1994.
Na definição do ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, Delfim teve, nesse período, “poderes de matar de inveja um rei medieval
Com o ocaso da ditadura, Delfim perdeu relevância política, mas nunca deixou de ser querido e apoiado por boa parte dos empresários brasileiros, em especial os paulistas. Ficou distante das decisões econômicas durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.
Nas marchas e contra marchas do Brasil pós era militar, a economia brasileira foi dirigida por baluartes da área econômica, que implantaram doutrinas econômicas altamente sustentáveis, que definiam com segurança os novos rumos. Num desfile de astros, citamos Mário Henrique Simonsen, no Governo Ernesto Geisel. Roberto Campos – um dos maiores de todos os tempos, postulava que o Estado deveria ter o tamanho mínimo possível para o cidadão não se tornar servo dele.
Nasceu em Cuiabá, em 17 de abril (meu aniversário) de 1917, e faleceu no Rio em 2001, Maria da Conceição Tavares, portuguesa, formadora de líderes esquerdistas do PT e deputada. FHC – Fernando Henrique Cardoso, Pai do Plano Real e Presidente da República. Pedro Malan, Marco Maciel, Maílson da Nóbrega e muitas outras sumidades. Só que o nível desceu tanto que até Guido Mantega e Fernando Hadad (“Cabeças de Bagre”) chegaram a ministro com “M” minúsculo.
Numa das minhas últimas atividades profissionais, fui Gerente de Integração Portuária, da SANTOS BRASIL S.A., por 13 anos. É o maior porto da América do Sul, às margens esquerdas de Santos, no Guarujá. Uma das mais sérias empresas que conheci, presidida por Wady Jasmim, o mais completo executivo portuário do Brasil. Wady e a SANTOS BRASIL, pautavam pela discrição dessa liderança: sóbrios, patriotas, criativos, de imenso conhecimento mercantil mundial e intensa visão em resultados.
Certa vez, numa inauguração de expansão portuária, realizaram uma cerimônia sóbria, discreta, pouco badalada, com raríssimas autoridades governamentais.
Mas numa deferência especial, fizeram questão da presença de DELFIM NETO. Fui incumbido de “fazer sala” na recepção do Ministro e fazer-lhe modesta companhia antes dos atos solenes. Sentamo-nos de frente ao porto, degustando linda e variada cesta de frutas da época. Rolou muito papo informal. Fiquei maravilhado com a inteligência, perspicácia, visão brasileira e de futuro de um homem tão preparado, culto, estudado, simples e douto.
Recordação que, em mim ficou para sempre.
Concomitantemente, na mesma época, Paulo Skaf foi eleito Presidente da FIESP, e, segundo comentários da grande imprensa, montou uma Diretoria
verdadeiramente ministerial: com personalidades mais marcantes do cenário brasileiro. Delfim Neto, convidado, aceitou assumir o comando das políticas industriais e planejamento econômico da Casa. Fase áurea. Foi um período que eu não faltava aos eventos proferidos pelo nosso Czar.
Nos inúmeros eventos da FIESP eu procurava estar presente e, certa feita, houve uma cerimônia, muito bem regada, com todos os Diretores/Amigos, o Mestre de Cerimônia anunciou que acabava de adentrar ao recinto o insigne político Orestes Quércia. Eu, espirituoso e mau comportado, pensei em voz alta: “- Protejam suas carteiras!”. Só que atrás de mim estava o Mestre Delfim, que era do PMDB, não me perdoou sussurrando:” – o Cury sempre com suas tiradas sarcásticas.” Eu me virei envergonhado, levei um susto, abracei o meu ´ídolo pedindo perdão, enquanto todos riam sussurrando: “- Bem feito!”
O Presidente Paulo Skaf fez o encerramento, sempre brilhante e ao final do coquetel, saímos alegres, felizes e abraçados ao Quércia.
COLUNISTA
Felipe Cury é mineiro de Soledade, nascido em Três Corações. Vive em São José dos Campos há 66 anos. Completou em 17 de abril de 2024, 86 anos de feliz idade.
Formado em Ciências Jurídicas e Administrativas, pela Fundação Joseense de Ensino, foi Professor de Língua Portuguesa e Comunicação, na Escola Técnica “Olavo Bilac”.
Foi presidente da ACI – Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos, por 8 anos, além de ocupar outros importantes cargos em diversas instituições do município.
Colunista de Bulas Semanais
