Deficiência física e a importância do cuidado alimentar
O tema deste mês vem ao encontro de uma das nossas necessidades mais básicas e prazerosas: nossa alimentação

Oi gente. Chegamos ao final de mais um novembro, mês de Finados, da Proclamação da República, da Consciência Negra e dos cuidados com a saúde masculina. Também um período de Copa do Mundo e de se preparar para as festas de fim de ano. O tema deste mês vem ao encontro de uma das nossas necessidades mais básicas e prazerosas: nossa alimentação.
Atualmente a sociedade vive um momento de profundas mudanças em seus hábitos alimentares. Observe que nunca assistimos a tantas propagandas de dietas, nem tantas culturas voltadas ao consumo regrado de alimentos, como os grupos vegetarianos e veganos. Chamo a atenção para essa revolução no mundo dos hábitos alimentares, porque, para uma parcela considerável das PCDs – pessoas com deficiência, uma alimentação equilibrada estabelece a diferença entre uma qualidade de vida mais acertada ou mais comprometida. É óbvio que, do ponto de vista gástrico, peristáltico e renal, o equilíbrio nutricional é importante para todos, mas para alguns grupos de PCDs, uma dieta saudável e direcionada a sua realidade, faz muita diferença.
Não limitando a importância de uma alimentação controlada à questão do peso ou da estética, o foco deve estar no valor nutricional do que ingerimos. Neste sentido, devemos nos proporcionar uma dieta que combine saúde com qualidade de vida, especialmente para aquelas pessoas que têm predisposição às doenças como diabetes, alergias ou quando seu peso envolve problemas ósseos e de articulação, tal qual pessoas que usam fralda ou sujeitas à colostomia. Pensemos que, tal como na lei da gravidade onde tudo aquilo que sobe tem que descer, também nosso corpo age igual, ou seja, quase tudo o que ingerimos, de um jeito ou de outro, também terá de ser expelido.
O que escrevo em seguida pode parecer estranho, no entanto, não deve ser menosprezado. É fato que, além do equilíbrio nutricional do corpo, também a qualidade dos nossos excrementos precisa ser pensada. Algumas PCDs dispõe de autonomia para cuidar de si e de sua higiene, mas outras não. Muitos dependem totalmente de terceiros para auxiliá-los em seus cuidados básicos. Não vou limitar a discussão a questões de higiene, mas já antecipei essa observação devido sua recorrência. Uma realidade pouco discutida na hora de se estabelecer a alimentação deste público, seja em casa ou no ambiente hospitalar.
Certa vez uma amiga cadeirante, vítima de trauma medular, me confidenciou que exercia uma dieta equilibrada apenas para manter suas funções digestivas regradas, ou seja, sua preocupação com uma alimentação saudável está mais voltada pela regulação do intestino do que pela conservação de sua saúde. Confesso que achei honesto da parte dela ter essa consciência. Ela afirmou agir assim porque não curte usar o banheiro fora de casa. Suas queixas ponderam a recorrente falta de acessibilidade. Em outra situação, uma enfermeira que conheci casualmente, uma profissional que trabalha com pacientes que utilizam bolsas de colostomia e intubação alimentar, me confirmou que quando a pessoa não dispõe de ingestão oral, com o complemento da mastigação e da salivação, existe sim a importância de se considerar o quê oferecer para o consumo desta. Isso já acontece com os pacientes em dieta hospitalar, e com milhares de PCDs espalhados pelo mundo, mas nem sempre é pensado. Se podemos vincular a alimentação com uma melhor qualidade de vida, porque não fazê-lo?
Eu poderia passar laudas escrevendo sobre melhores ou piores alimentos, sobre dietas e bons hábitos, contudo, não sou profissional da área. Por esse motivo, pela integridade da informação e pelo respeito com você, leitor, busquei o auxílio da nutricionista Sandra Lima, Especialista em Nutrição Funcional, para falar um pouco sobre escolhas de consumo mais acertadas e práticas de ingestão que facilitem nossos cuidados próprios. Orientações sobre como conservar todas as funções do organismo de forma saudável e eficiente, ainda que na condição de deficiência.

Realmente a vida moderna tem influenciado nas escolhas alimentares das pessoas. Os alimentos mais consumidos no dia a dia são os que oferecem praticidade e agilidade em seu preparo, o que justifica a preferência pelos alimentos industrializados. Estes alimentos apresentam alto valor calórico e baixo teor de nutrientes essenciais para o bom funcionamento do nosso organismo.
Entre outros fatores, a alimentação inadequada vêm sendo apontada como responsável no agravo à saúde. Segundo o Ministério da Saúde, no Brasil, 57,4 milhões de pessoas possuem pelo menos uma Doença Crônica Não Transmissível (DCNTs). Entre essas doenças estão obesidade, diabetes, hipertensão, dislipidemias e outras.
Os alimentos processados e ultra processados aumentam os riscos para o desenvolvimento de DCNTs devido à presença de diversos aditivos alimentares, além de outros efeitos adversos à saúde, como a ocorrência de alergias, hipersensibilidade e câncer. Entre os aditivos mais comuns estão os conservantes, edulcorantes, estabilizantes, aromatizantes, espessantes utilizados sem o propósito de nutrir e sim de modificar as características físicas, químicas, biológicas ou sensoriais dos “alimentos”, o que justifica a palatibilidade e maior prazo de validade. Diante disso, precisamos ficar atentos aos rótulos dos produtos. Neles contém a tabela de informação nutricional e a lista de ingredientes que nos possibilita classificar os alimentos como boas escolhas ou não.
A lista de ingredientes é apresentada em ordem decrescente, onde o primeiro ingrediente que aparece é o que tem em maior quantidade no produto e o último é o que está em menor quantidade.
Mas, você deve estar se perguntando, afinal qual o melhor alimento? O que deve fazer para evitar agravo a sua saúde? A resposta é simples, independente do seu estilo alimentar (vegetariano, vegano, carnívoro), os alimentos in natura como: frutas, vegetais, grãos e cereais, leguminosas, carne, frango, peixes, leite e seus derivados são as melhores opções, considerando que são fontes naturais de vitaminas, minerais e fibras, nutrientes fundamentais na homeostase corporal.
Cada alimento apresenta uma proporção diferente destes nutrientes essenciais, aquela história de “quanto mais colorido o prato, melhor” é a afirmação mais verdadeira que você já ouviu. Sendo assim, podemos considerar que as principais regras para uma alimentação saudável é variedade, equilíbrio, qualidade, quantidade e segurança quanto ao que estamos ingerindo. Uma alimentação completa, além de prevenir doenças, fornece mais energia e bem estar; melhora o humor, a memória e a concentração; aumenta a qualidade do sono reduzindo o cansaço e o estresse; previne o envelhecimento precoce; melhora o sistema digestivo; auxilia no fortalecimento do sistema imunológico; garante a saúde óssea e auxilia na prevenção da perda muscular.
Claro que quando falando em pessoas, não podemos esquecer da individualidade bioquímica, cada organismo é único e apresentam necessidades nutricionais únicas, com limitações únicas e metabolismo único, sendo assim, se faz necessária uma dieta específica que atenda as necessidades apresentadas por cada individuo, afinal, cada ser responde de terapias a alimentação de maneira peculiar.
As regras acima apresentadas se estendem a todas as pessoas, até mesmo para aquelas que recebem alimentação enteral, hospitalizadas ou não (fórmula nutricionalmente completa, administrada ao paciente na forma líquida por meio de uma sonda), pois uma alimentação saudável pode melhorar substancialmente a saúde e, consequentemente, a qualidade de vida, em especial das PCDs, partindo do principio que pessoas com deficiência estão mais propensas a situações que envolvem o desiquilíbrio energético. Nestes casos, a alimentação pode ser uma grande aliada.
O baixo peso corporal é um fator de risco para o surgimento de úlceras de pressão em pessoas que apresentam mobilidade reduzida ou acamada, sendo necessário o aumento da densidade calórica diária e o consumo adequado de proteínas animais ou vegetais. Já no excesso de peso ou obesidade, mais comum em pessoas com deficiências motoras que limitam sua locomoção e a pratica de atividade física, um menor aporte calórico diário se faz necessário garantindo as necessidades energéticas de cada individuo, considerando sua rotina e hábitos diários.
Outro problema bem comum é alteração no ritmo intestinal, podendo estar relacionada a uma alimentação pobre em frutas e legumes fontes de fibras causando constipação, seguida de certos desconfortos como dor e distensão abdominal, cólicas, gases e flatulência ou e em alguns casos como alergias alimentares podendo resultar em diarreia, sendo necessário consumir alimentos com fibras solúveis, como pão branco, arroz branco, macarrão branco, optar por carnes magras como frango e peixe, e frutas sem cascas. Estes alimentos irão auxiliar na digestão, no controle do volume de evacuações e aliviar as dores na barriga. O consumo adequado de água, soro caseiro e água de coco são boas opções para repor alguns nutrientes e evitar a desidratação.
A prática de atividade física adaptada também está entre os cuidados básicos para as PCDs, pois apresenta possibilidades importantes na qualidade de vida, proporcionando alegria, prazer e melhora na autoestima e ainda benefícios na redução da dor musculoesquelética, atuação na prevenção de deformidades, aumentando a resistência pulmonar e cardiovascular, além de melhorar o estímulo dos movimentos peristálticos no gastro intestinal melhorando o funcionamento do intestino.
Assim como a alimentação saudável e o exercício físico, é de extrema importância a ingestão adequada de água durante o dia, pois manter-se hidratado é essencial para o funcionamento correto das funções de todo o organismo. Entre seus benefícios estão a regulação da temperatura corporal, o auxílio na desintoxicação do corpo e a melhora na absorção de nutrientes dos alimentos.
Muitas pessoas relatam não sentir sede, apresentando baixa ingestão de água diariamente. É importante ressaltar que não precisamos tomar água apenas quando estamos com sede. A sede pode ser um sinal de desidratação leve. Alguns sintomas como dores de cabeça, constipação, pele seca, redução do volume de urina são causados pela baixa ingestão hídrica. Este quadro pode resultar em cistite, inflamação no trato urinário que quando não tratada, pode evoluir para cálculos renais.
Ter uma boa saúde é um desejo de todos, afinal é nosso bem maior. Procurei enfatizar os cuidados básicos e as relevâncias destes na prevenção de doenças, como também na longevidade que não se limita somente ao tempo vivido e sim na qualidade de vida. Nunca é tarde para mudar nosso consumo alimentar, algumas pessoas apresentam seletividade alimentar, para estas um conselho a parte, persista em consumir alimentos variados, afinal nosso paladar é adaptável.
Quero aqui encerrar este pequeno texto, com uma frase de Hipócrates que a mais de 2000 anos já falava da estreita relação da alimentação e redução de doenças crônicas: “Que seu remédio seja seu alimento e que seu alimento seja seu remédio”.
Abraço,
Sandra Lima CRN 12478.
Obrigado Sandra. Este colunista, o portal MEON – Metrópole Online e, estou certo, também nossos leitores, agradecemos pelas orientações compartilhadas. Dúvidas e sugestões contate [email protected] e vamos debater juntos os temas cotidianos à realidade da pessoa com deficiência.
Atenciosamente: Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual.
Professor e pessoa com deficiência visual Graduado em pedagogia. Pós graduado em: Ciências Sociais pela PUC Rio e Políticas Públicas pela PUC DF Atuou 10 anos como professor da rede estadual do Estado de Rondônia nas disciplinas de Sociologia, Filosofia e Educação Especial Atualmente trabal…
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