Empresas têm se financiado com fontes mais caras
A fatia do crédito subsidiado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e dos recursos mais baratos das captações externas encolheu no total dos financiamentos às principais empresas nacionais no governo Dilma Rousseff, revelam dados inéditos do Cemec/Ibmec (Centro de estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais)

A fatia do crédito subsidiado do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e dos recursos mais baratos das captações externas encolheu no total dos financiamentos às principais empresas nacionais no governo Dilma Rousseff, revelam dados inéditos do Cemec/Ibmec (Centro de estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais) obtidos pelo jornal O Estado de S. Paulo. A conta exclui holdings e instituições financeiras.
Oneradas com impostos mais altos nas operações financeiras, e mesmo diante das menores taxas de juros básicos (Selic a 7,25% ao ano), as empresas recorreram a fontes mais caras, como recursos livres dos bancos e o mercado de capitais, mostram os balanços patrimoniais das empresas neste período. As sociedades brasileiras expandiram em R$ 672 bilhões seus financiamentos entre 2011 e 2013. Mas pagaram juros médios mais caros.
Cálculos do Cemec/Ibmec mostram que a taxa média passou de 12,4% ao ano em dezembro de 2012, quando a Selic atingiu seu nível mais baixo, para 14,7% no fim do ano passado. “O dinheiro mais barato rareou e o crédito encareceu”, resume o superintendente do Cemec, Lauro Modesto.
O universo pesquisado pelo Cemec abrange 4,4 milhões de empresas nacionais, mas 80% do mercado de crédito é dominado por 320 companhias abertas e 1 mil empresas de capital fechado. A conta inclui Petrobras e Vale, que responderam por 14% dos financiamentos totais no ano passado.
Os impactos do crédito mais caro foram mais significativos no desempenho das SAs abertas do que nas empresas de capital fechado. A fatia do dinheiro a juro subsidiado do BNDES no financiamento de um grupo de 308 empresas cotadas em bolsa recuou de 17% para 14% no período 2011-2013. O banco elevou a oferta de crédito em R$ 11 bilhões, mas foi insuficiente para manter sua performance nesse nicho. “O BNDES passou a financiar mais empresas médias. Daí, o recuo nas abertas”, analisa Lauro Modesto.
No conjunto das empresas nacionais, o recuo do BNDES foi mesmo menor: sua participação encolheu de 22% para 21% do total, com um crédito adicional de R$ 121 bilhões no período. Mas a tendência de recuo do banco estatal deve seguir nos próximos anos, avalia a equipe econômica do governo. Há limitações de fontes de recursos, sobretudo do Tesouro Nacional, para elevar essa participação. O diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Andrew Storfer, afirma que o BNDES tem limite de exposição para emprestar mais recursos baratos. “O Tesouro tem dificuldade para fechar seu caixa e também não pode mais ajudar”, diz.
Consultado, o banco estatal afirmou considerar que seu resultado “está em linha com objetivos perseguidos”, como o aumento da participação do mercado de capitais sobre o total de financiamento. Junto com Fiesp, Cetip, Anbima e Fipecafi, o BNDES patrocina o Cemec.
Estagnação
Principal motivo alegado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, para zerar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no exterior, as captações externas das empresas estagnaram nos últimos três anos. A fatia dessa modalidade no financiamento do conjunto das empresas permaneceu próxima de 22% desde 2011, embora o volume tenha crescido R$ 148 bilhões ao longo do governo Dilma. A participação no mix de recursos das sociedades abertas aumentou, passando de 23% para 24% do total contratado no mercado – foram R$ 52 bilhões adicionais até 2013. Mas essa tendência de estagnação deve permanecer, avalia a equipe econômica.
Para compensar o espaço cedido pelo BNDES, as empresas passaram a usar mais fontes bancárias e do mercado de capitais, como emissões de debêntures, notas de crédito e outros recebíveis. A fatia dos títulos de mercado saltou de 16% para 18,5% neste intervalo, ou R$ 170 bilhões. Nos recursos livres dos bancos, houve um recuo no conjunto das empresas, embora com recursos adicionais de R$ 173 bilhões, mas uma elevação de 20% para 21,3% nas SAs abertas. Os bancos privados “tiraram o pé do acelerador”, afirma Storfer. “O crédito encareceu, as garantias são mais altas, há mais exigências para elevação de capital e previsão de dificuldades à frente”, diz.
A participação das chamadas linhas especiais no total, cujas taxas de juros também são subsidiadas, registrou um recuo de 10,4% para 9,4% no período. Os recursos direcionados registraram leve aumento, de 1,4% para 1,7%. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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