Quanto de você existe naquilo que você vê?
Nossa percepção não é uma fotografia neutra da realidade

Em 1951, Princeton e Dartmouth se enfrentaram em uma partida de futebol americano particularmente violenta. Algum tempo depois, pesquisadores mostraram imagens do jogo a estudantes das duas universidades e pediram que avaliassem as infrações cometidas pelos times. Embora todos assistissem às mesmas cenas, não viram exatamente o mesmo jogo: cada grupo percebeu os acontecimentos de maneira muito mais favorável à própria universidade.
O estudo, publicado em 1954 pelos psicólogos Albert Hastorf e Hadley Cantril, revelou algo que ultrapassa uma rivalidade universitária: nossa percepção não é uma fotografia neutra da realidade. Entre aquilo que acontece e aquilo que percebemos existem nossas experiências, memórias, expectativas, crenças e tudo aquilo que aprendemos a reconhecer como verdade.
É fácil perceber isso em situações banais. Uma mensagem visualizada e não respondida pode significar desinteresse, falta de consideração, correria ou simplesmente nada, dependendo de quem está esperando a resposta. O fato é o mesmo, o significado que damos a ele, não.
Nas empresas acontece algo parecido, embora nossas interpretações frequentemente ganhem aparência de fatos. Quando dizemos que alguém “não tem perfil de liderança”, por exemplo, talvez estejamos descrevendo menos aquela pessoa e mais o modelo de liderança que aprendemos a reconhecer. Quem associa liderança a assertividade, rapidez e capacidade de ocupar espaço pode não percebê-la em alguém que escuta mais, faz boas perguntas e cria confiança na equipe.
E talvez essa seja uma questão importante não apenas para os negócios, mas para a vida: quanto de nós existe naquilo que enxergamos?
Diferentes tradições filosóficas e contemplativas investigam há séculos a relação entre aquilo que é observado e aquele que observa. Talvez haja alguma sabedoria em deslocar, de vez em quando, a pergunta. Em vez de apenas “como essa pessoa é?” ou “o que está acontecendo?”, perguntar também: o que em mim faz com que eu enxergue dessa maneira?
Isso não significa negar os fatos ou acreditar que toda realidade é relativa. Significa apenas reconhecer que ver alguma coisa não é o mesmo que vê-la por inteiro.
E há uma última provocação: se fazemos isso com o mundo, provavelmente fazemos também conosco. “Eu sou assim”, “não consigo”, “não sou bom nisso”, “isso não é para mim”. Quantas dessas afirmações descrevem quem somos e quantas descrevem apenas quem aprendemos a acreditar que somos?
Talvez ampliar nossa visão de mundo não dependa apenas de olhar mais longe, mas de perceber as lentes através das quais estamos olhando.
Porque, antes de perguntar se estamos enxergando o mundo como ele é, talvez valha perguntar:
quem é que está olhando?

Negócios e Inovação
Larissa Dantas é especialista em desenvolvimento de negócios e inovação no varejo. Atua há mais de duas décadas no setor, acompanhando de perto as transformações do comportamento do consumidor e das novas tecnologias. Estudiosa de desenvolvimento humano, escreve sobre liderança, inovação e a interse…
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